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Frase de Paulo H Salah Ad din

*O FOGUETE QUE FICOU NO QUINTAL* O sábado amanheceu com aquele sol que parece ter preferência pelos sábados. Durante a semana ele se esconde atrás de nuvens, prédios, compromissos e caras fechadas. No sábado, resolve aparecer. Como se também tivesse direito a descansar. Eu estava na varanda quando ouvi o primeiro grito. Depois outro. Depois uma discussão sobre quem tinha pegado o brinquedo de quem. As crianças tinham chegado. Meus filhos, meus netos, suas vozes, suas provocações e aquela capacidade irritante de transformar qualquer cinco minutos de silêncio em uma guerra civil de pequenas proporções. A casa ficou diferente. O gato também percebeu. Era talvez sua primeira experiência com crianças. No começo ficou parado, olhando para aqueles pequenos seres correndo pela sala como quem observa uma espécie desconhecida. Depois descobriram o gato. Em menos de dez minutos ele já estava sendo disputado. Um queria pegar. Outro queria fazer carinho. Outro dizia que era dele. O gato olhava para mim com uma expressão que parecia perguntar por que eu tinha permitido aquela invasão. Não fiz nada. Algumas coisas precisam ser vividas até o fim. Inclusive a paciência de um gato. Na cozinha, as crianças descobriram a torta. Uma delas desapareceu. Depois outra parte. Quando percebi, havia apenas algumas migalhas e uma espécie de silêncio constrangido entre os pratos. Teria que encomendar mais duas. Talvez três. Na sala, atacaram a estante. Mexeram nos livros. Puxaram alguns. Empilharam outros. Os livros que ainda estavam nas caixas abertas foram parar no chão. Fizeram castelos. Muralhas. Fortalezas. Durante alguns minutos, aquela pilha de livros que eu passei anos tentando conservar em ordem parecia ter encontrado uma função muito mais honesta. Servia para brincar. No pátio, havia três balanços presos às duas árvores. Nunca tinham parecido um playground. Naquele sábado, pareciam. Havia caixas de madeira, pedaços de tábua, coisas esquecidas na garagem. Então meu neto olhou para um tambor velho e decidiu que aquilo era um foguete. Um foguete. Fiquei olhando para ele. Ele não precisava de tecnologia. Não precisava de combustível. Não precisava de autorização da NASA. Precisava apenas de um tambor velho, algumas tábuas e uma noite estrelada. E então me lembrei de uma coisa que eu havia esquecido. Eu também já quis ir para o espaço. Houve um tempo em que eu acreditava que pisaria num foguete. Não porque entendesse de ciência. Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena. O foguete nunca foi um veículo. Era uma mentira bonita. Daquelas que a gente conta para si mesmo antes de descobrir que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres. Depois vieram os quarenta. A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas. Foi quando percebi que nenhum foguete pisou no quintal daquela casa. O que chegou foram contas. Responsabilidades. Cansaço. Algumas mulheres que passaram como chuva de verão. Amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir. Eu ainda procurava alguma coisa. Não sabia exatamente o quê. Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia. Aos quarenta ainda existe uma certa arrogância. A gente acredita que está atrasado, mas que ainda dá tempo. Aos sessenta e dois, a conta fica diferente. Não dói apenas o corpo. Doem também as expectativas que sobreviveram tempo demais. Os dias começam a parecer copos vazios esperando uma bebida que ninguém serve. Não é exatamente tristeza. É um cansaço antigo. Uma coisa que dorme no peito e acorda antes da gente. Às vezes olho para uma folha caindo de uma árvore e tenho vontade de colocá-la de volta no galho. É um impulso ridículo. Mas compreensível. Porque a gente passa boa parte da vida tentando devolver as coisas ao lugar. Um casamento ao começo. Uma amizade ao primeiro abraço. Um pai à juventude. Um amor ao instante anterior à despedida. Só existe um problema. Folhas não voltam. Pessoas também não. E o tempo é o sujeito mais mal-educado que conheço. Ele não pede licença. Não negocia. Não aceita pagamento parcelado. Enquanto isso, o mundo continua vendendo a mesma velha mentira. Todo mundo merece um dia melhor. É bonito dizer isso. O problema é que ninguém ensina o caminho. Ensinaram-me a trabalhar. A competir. A produzir. A acumular. A parecer bem. Ninguém ensinou a existir. Talvez por isso tanta gente tenha aprendido a construir uma vida que parece ótima por fora e não serve para morar por dentro. Basta abrir qualquer tela. Casas perfeitas. Viagens perfeitas. Corpos perfeitos. Casamentos perfeitos. Famílias sorrindo diante de uma paisagem que provavelmente alguém levou vinte minutos para escolher. A vida virou vitrine. E ninguém quer aparecer com a mercadoria quebrada. Eu olho para antigos amigos. Alguns parecem ter vencido. Casas maiores. Carros melhores. Viagens. Fotografias. Sorrisos impecáveis. Mas já não acredito muito nessa luz. Existe um sol artificial iluminando a terra da normalização. É uma luz forte. Só não aquece. Ali, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter. As pessoas compram identidades em prestações. Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação. Sorriem como quem cumpre expediente. Abraçam como quem assina contrato. A empatia virou artigo de luxo. A delicadeza passou a parecer fraqueza. A verdade tornou-se inconveniente. E talvez seja por isso que eu viva dentro de uma espécie de bolha. De um lado, o mundo do faz de conta. Do outro, o mundo real que quase ninguém parece querer habitar. Eu ainda acredito em coisas que parecem ter ficado velhas. Palavra. Lealdade. Silêncio. Afeto. Presença. Acredito que uma pessoa pode sentar ao lado da outra sem precisar fotografar o momento. Acredito que carinho não precisa de testemunhas. Acredito que uma amizade não deveria depender de utilidade. Talvez eu esteja errado. Aos sessenta e dois, já aprendi que estar errado é uma das poucas coisas que ainda podemos fazer de graça. Durante muitos anos procurei minha rainha da beleza. Não a mulher das revistas. Essa desaparece quando a maquiagem encontra a primeira lágrima. Eu procurava outra coisa. Uma beleza sentimental. Uma mulher cuja inteligência soubesse abraçar sem tocar. Que pudesse permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância. Alguém cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências. Ainda procuro. Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar. Talvez esteja cansada. Talvez tenha desistido. Talvez tenha encontrado alguém. A vida não costuma prestar contas. Naquela tarde, porém, havia outras coisas acontecendo. Meu neto continuava construindo o foguete. Pegou uma caixa. Depois uma tábua. Depois o tambor. Pediu ajuda para amarrar uma coisa na outra. Disse que precisava ficar pronto antes da noite. Queria olhar as estrelas de dentro dele. Eu ajudei. Não porque acreditasse que aquilo fosse realmente um foguete. Mas porque, naquele momento, percebi que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando provar que os foguetes não existiam. Talvez essa seja uma das doenças da idade. A gente descobre como o mundo funciona e começa a desprezar quem ainda acredita que ele pode funcionar de outra maneira. Olhei para aquelas crianças correndo pelo pátio. O gato fugindo de um lado para outro. Os livros espalhados. As migalhas da torta. As caixas. As tábuas. O tambor. A casa completamente fora do lugar. E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me incomodou. Talvez porque o caos deles tivesse alguma coisa que o meu mundo organizado perdeu. Vida. Não a vida vendida nas fotografias. A outra. A que grita. Que suja. Que derruba. Que quebra. Que pergunta. Que inventa foguetes com um tambor velho. Fiquei pensando que talvez envelhecer seja descobrir que o mundo nunca prometeu salvação. O foguete não veio. Aos quarenta, eu descobri. Aos sessenta e dois, aceitei. Mas naquele sábado alguma coisa mudou. Porque o foguete não precisava mais ser meu. Ele estava ali. No quintal. Construído pelas mãos pequenas de quem ainda não sabia que o mundo cobra caro pelos sonhos. E talvez seja isso que eu queira para eles. Que demorem muito para descobrir. Que tenham coragem de olhar para as estrelas sem perguntar quanto custa. Que não confundam sucesso com felicidade. Que não entreguem a própria autenticidade em troca de aplausos. Que saibam amar sem transformar o amor em vitrine. Que tenham amigos capazes de permanecer quando não houver fotografia. Que aprendam a sentir a dor sem fazer dela uma identidade. Que não tenham vergonha da delicadeza. Que não deixem ninguém convencer que possuir é mais importante do que ser. E, principalmente, que vivam. De verdade. Porque talvez a grande tragédia não seja envelhecer. Talvez seja chegar aos sessenta e dois, olhar para trás e perceber que passamos a vida inteira tentando parecer vivos. Naquela noite, meu neto entrou no tambor. Olhou para o céu. Perguntou se eu achava que dava para chegar até as estrelas. Eu olhei para ele. Depois olhei para o foguete improvisado. E disse que sim. Olhe bem para o infinito, feche os olhos e demore um pouco. Abra, feche e demore. Isso irá fotografar o céu. Depois, ligue a inguinação e voe. Ele sorriu. Foi um sorriso verdadeiro. Sem câmera. Sem postagem. Sem filtro. E foi provavelmente a coisa mais verdadeira que vi naquele sábado. Fiquei na varanda enquanto as crianças brincavam. O sol já tinha ido embora. As estrelas começaram a aparecer. E, por alguns minutos, eu não pensei nos quarenta. Nem nos sessenta e dois. Nem nas coisas que não voltam. Nem nos amigos que se perderam. Nem nas mulheres que foram embora. Nem nos boletos. Nem nesse mundo que aprendeu a vender felicidade em prestações. Fiquei apenas ali. Ouvindo meus netos. E percebi uma coisa que talvez eu tenha levado sessenta e dois anos para entender: alguns foguetes não foram feitos para sair do chão. Foram feitos para nos lembrar de olhar para cima. E talvez seja isso que importa. Não chegar às estrelas. Mas não perder a capacidade de procurá-las.

Paulo H Salah Ad din

No pensador.ai desde

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Pensador.com

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Outras frases de Paulo H Salah Ad din

Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não…
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Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não percebi que escolher ser imperfeito eventualmente se tornaria parte do por vir. E agora que ela está aqui, ela não anda na ponta dos pés. Ela (idade/mente) não pergunta se é demais. Ela simplesmente chega — crua, firme, despreocupada — como se estivesse esperando que eu parasse de me moldar em formas que deixavam todos os outros confortáveis. E quando ela avança, ela não apenas sobe ao palco — ela o preenche, como se finalmente se lembrasse de que nunca deveria ter vivido à margem da própria vida. Ela permanece ali com essa certeza silenciosa, daquela que não precisa provar nada, daquela que faz você perceber que ela nunca foi o problema — o espaço é que era pequeno demais e me fazia me preocupar, me sentir pressionado. E talvez seja essa a parte que ainda estou aprendendo: que tenho permissão para viver uma vida que me encaixe. Que não preciso me retrair para ser compreendido. Que posso querer mais espaço sem sentir que estou pedindo demais. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser quem eu sempre tentei proteger. E é isso que estou aprendendo agora: tenho permissão para crescer (ainda da tempo) além dos limites de quem eu costumava ser. Não preciso me retrair para ser compreendido e nem preciso que alguém me compreenda se esse alguém pretende caber na mesmice do cotidiano orientado por “influencer´s. Posso querer uma vida que me encaixe sem me desculpar por isso. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser eu mesmo. E quanto mais me permito crescer, mais percebo o quanto eu me reprimia sem nem notar. Quantas vezes tentei me tornar mais fácil de carregar, mais fácil de entender, mais fácil de amar. Mas não farei mais isso. Nesta idade, a idade do pôr do sol da vida, estou aprendendo a me aceitar como sou — não como um projeto, não como um problema, mas como uma pessoa que merece o espaço que preciso conquistar. Há uma estabilidade nisso. Uma espécie de confiança tranquila que eu não sabia que podia ter. E é nisso que me apego agora — na compreensão de que não preciso me diminuir para me manter amistoso. Posso crescer – ainda que nesta idade o corpo encolha e se curve - sem me perder. Posso ocupar espaço sem sentir que estou tirando algo de alguém. Esta versão de mim não é uma partida; é um retorno – talvez seja isso, quando envelhecemos, retornamos para quem fomos um dia, quando crianças puras. Uma expansão. Uma acomodação na vida que venho construindo silenciosamente. Pela primeira vez, parece menos que estou me desvencilhando de quem eu era e mais que finalmente estou me tornando quem sempre fui.

*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como s…
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*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais. Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia. Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída. Fiquei algum tempo olhando aquilo. Não sei por quê. Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada. Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo. Ela subia. De costas. Não dava para saber quem era. Nem precisava. O que importava era que ainda estava subindo. Pedi outra dose. O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse: — Lugar perigoso. Eu disse que sim. Mas não era a escada que me preocupava. Era reconhecer a casa. A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida. Depois começam as rachaduras. Primeiro ninguém percebe. Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar. Depois vem o resto. A casa começa a perder pedaços. Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo. O corpo diminui um pouco. A paciência também. A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás. Olhei novamente para a mulher. O vestido branco destoava daquela destruição toda. Aquilo me incomodou. Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar. Não é. Você pode estar cansado e continuar. Pode ter perdido gente e continuar. Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho. E continuar. A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada. Isso bastava. A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir. Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender. Eu não sou a casa. Passei muito tempo confundindo as duas coisas. Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim. Talvez não. Talvez algumas coisas apenas precisem cair. Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las. A música terminou. O dono do bar não colocou outra. Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia. Paguei a conta e saí. Na calçada, o ar estava frio. Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas. Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença. Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim. Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre. E então sobe. Mesmo descalço. Mesmo tarde. Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima. Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha. E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria.
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*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria. Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor. O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei. A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados. Eu tinha um cigarro aceso. Não lembrava por que tinha ido fumar. Isso me pareceu mais importante do que deveria. Sentei. Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez. Não consegui. Deixei de volta. O gato abriu um olho. — Também não sabe? Ele fechou o olho novamente. Talvez estivesse dormindo. Talvez apenas não tivesse interesse na conversa. Eu respeitei. Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los. Eu não estava. Ainda não estou. Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas. Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar. Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim. Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado. Mas a frase ficou. Algumas frases fazem isso. A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as. Levantei para buscar mais uísque. Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali. Voltei para a varanda com a garrafa. O gato tinha mudado de posição. Só isso. Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição. Talvez fosse esse o problema. Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão. Ele não produziu. Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes. Talvez tenham sido. Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo. Um homem de vinte anos. Um homem de trinta. Outro aos quarenta. Todos com o mesmo nome. Nenhum deles me pediu autorização. Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim. Eu tive a impressão de que olhou para mim. Ela continuou. Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto. Não voltou. Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando. Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia. Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada. Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim. Mas não havia plateia. Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina. O gato levantou. Caminhou até a borda do jardim. Parou. Olhou para o outro lado da rua. Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa. Ele não fez. Depois entrou em casa. Fiquei sozinho. Pensei novamente naquela frase antiga. Rascunho. Plano. Tempo. Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final. Não sei se isso é covardia. Talvez seja. Também pode ser apenas hábito. Acendi outro cigarro. Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore. Pensei nas coisas que deixei pela metade. Algumas por falta de coragem. Outras porque perderam o sentido. Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho. Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas. Não para entrar. Só para verificar se continuavam fechadas. Achei isso ridículo. Depois pensei que talvez fosse apenas humano. O céu começou a escurecer. A luz da varanda acendeu sozinha. A caixa de fósforos continuava sobre a mesa. Peguei-a novamente. Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha. Coloquei no bolso. O cigarro terminou. Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução. Não veio. Joguei no cinzeiro. Eu poderia ter ido para dentro. Não fui. Talvez ainda esperasse alguma coisa. Não sei o quê. Uma resposta. Uma lembrança. Uma vontade antiga. Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa. Nada aconteceu. E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali. Sem resolver. Sem concluir. Sem transformar a tarde em uma explicação. A rua continuou. A árvore continuou. Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa. Fui ver. Era apenas um copo vazio no chão. Peguei o copo. O gato já estava no corredor, indo embora. Fiquei olhando. Depois apaguei a luz da varanda. A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem. E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado. Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mo…
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*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço. A estrada de serra estava quase vazia. Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem. Eu gostava disso. Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário. Atualizando. Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo. Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira. Dizem para estudar. Trabalhar. Construir. Casar, talvez. Ter filhos. Comprar uma casa. Ser alguém. A gente acredita. Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele. Eu cumpri algumas partes. Outras fiz pela metade. E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido. Foi só muito depois que percebi isso. Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia. A gente sofre. Depois chama aquilo de experiência. É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada. Continuei subindo. Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais. Ele não tinha pressa. Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores. Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida. Homens cansados. Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar. Gente que bebia todos os dias. Gente que trabalhava todos os dias. Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo. Eu costumava olhar para essas pessoas de fora. Agora começo a reconhecê-las por dentro. Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer. Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando. O homem que você julgava acomodado. Você. A mulher que você achava que tinha desistido. Você. O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida. Você. É uma espécie de justiça tardia. A vida não manda boleto. Manda espelho. Voltei para a estrada. Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra. Parei. Fiquei olhando. Não senti nenhuma revelação. Ainda bem. Tenho desconfiança de revelações. Quase sempre elas duram até o próximo problema. O que senti foi uma coisa mais simples. Cansaço. Um cansaço antigo. Não do corpo. O corpo estava funcionando. Era outro. O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir. Quando somos jovens, procuramos respostas. Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores. E algumas perguntas não querem resposta. Querem companhia. Segui pela estrada litorânea. Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum. Talvez ele soubesse alguma coisa. Talvez não. Essa é outra mentira da idade. A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais. Nem sempre. Às vezes só chegou mais longe. Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás. Não pessoas exatamente. Momentos. A adolescência. Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta. Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes. Uma rua. Um quarto. Uma conversa idiota. Uma música tocando num rádio ruim. Uma tarde sem obrigação. A sensação de que ainda havia muito tempo. É curioso. Quando temos tempo, queremos futuro. Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes. Não quero voltar a ser adolescente. Isso seria uma estupidez. Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente. Não necessariamente melhor. Diferente. Talvez seja isso que eu tenha perdido. Não a juventude. A capacidade de acreditar antes de exigir garantias. Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto. E algumas coisas corretas fizeram estragos. Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi. Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece? Você trabalha. Paga contas. Cumpre compromissos. Evita escândalos. Engole algumas vontades. Adia outras. Diz “depois”. Diz “agora não”. Diz “é o melhor”. E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era. Não houve uma explosão. Não houve música triste. Ninguém percebeu. Foi acontecendo. Depois que sangra, seca. O problema é que a pele fica diferente. Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido. Uma relação. Uma amizade. Uma possibilidade. Uma versão de mim. Aquilo não me matou. Mas algo naquele dia morreu em mim. Demorei para entender. Ou talvez ainda não tenha entendido. A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo. Porque existe gente madura. E existe gente apenas cansada. Existe gente tranquila. E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida. Existe gente que aprendeu a viver. E existe gente que aprendeu a não reclamar. Às vezes eu não sei em qual grupo estou. Talvez nos dois. Continuei rodando. O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado. Foi bom. Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável. Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos. Nunca fui exatamente uma pessoa simples. Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito. Hoje já não sei. Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender. Eu sempre vou ser uma confusão. Não digo isso com orgulho. Também não digo com vergonha. É apenas um diagnóstico sem médico. No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena. Não havia quase ninguém. Tirei o capacete e sentei num banco. O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada. Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida. Talvez a amnésia resolvesse o problema. Esquecer algumas coisas. Esquecer algumas pessoas. Esquecer certas versões de mim. Mas logo percebi que seria inútil. Porque não é o passado que continua nos perseguindo. Somos nós que continuamos voltando até ele. Voltei para a moto. Ainda não sabia para onde iria dormir. Também não sabia o que faria no dia seguinte. Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça. Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada. Tudo correu como eu não planejei. E, apesar disso, cheguei até aqui. Não é uma vitória. Também não é uma derrota. É apenas o lugar onde estou. A estrada continuava pela costa. Eu podia seguir. Podia parar. Podia voltar. Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta. Ainda bem. Passei anos demais obedecendo placas. Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro: eu me quero de volta. Não o homem que fui. Isso seria impossível. Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo. Antes de transformar desejo em obrigação. Antes de confundir responsabilidade com abandono. Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”. Talvez viver seja justamente isso. Perder algumas versões de si. Encontrar outras. E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento. Parar. Olhar. Não tentar trazê-la de volta. Apenas agradecer. Depois subir na moto e continuar. Porque existir é pouco. É preciso viver. Mesmo sem saber exatamente como. Mesmo carregando perguntas. Mesmo fazendo errado. Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos. Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo. O motor pegou na primeira tentativa. Pus o capacete. Acelerei. Vamos, vida. Me surpreenda. Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.