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Frase de Eleni Mariana de Menezes

Irmã Doroty Irmã Doroty Tenta o silêncio para não deixares rastro Para os teus perseguidores. Busca a religiosidade dos conventos de clausuras Sem o contato com o mundo cão. Não! Não apares as arestas da sociedade sem lei E impiedosa para com teus pobres. Pára de falar mal dos maus. “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar.” Foge sim, irmã. Do contrário não verás “as águas de março” Enxurrarem as valas e o magnetismo das aluviões Arrebanhando tudo o que se lhes impedem o caminho. Não molharás mais os pezinhos ligeiros nas poças d’água Das ruas desnudas por onde trilhas para evangelizar. Senta irmã, Os meninos ainda precisam ouvir tuas estórias de amor Que contas nas aulas de catecismo E espalhar seus risos inocentes quando fazes cócegas Em suas orelhas pequenas. Os olhares deles não repousarão mais No semblante amoroso de mãe e amiga, E não terão mais o carinho da mulher solidária Que lhes levava alegria E amparo para atravessarem suas travessuras Com mais gosto. Ah! Não irmã. Quem irá lhes informar sobre O Sol do céu que solda os corações Em festa quando a primavera orquestrar No Paraíso as pegadas dos rebanhos do Senhor? Finge que não tem importância Os conflitos que trovejam aí no seu Xingu. O do Brasil dos brasileiros que só querem ver nascer A esperança de uma Pátria Gentil Com riquezas mil Para todos. Depois que será tão sombrio o amanhecer Sem a amiga e batalhadora. A orfandade desencadeará a morte Dos filhos também. Morte de sonhos, Morte das ilusões, Morte do alimento que lhes chegava à boca com fartura, Pois tinham Dorothy lutando braviamente por eles, Por geração de rendas e emprego. Suas bocas ficarão escancaradas à espera E famintos calarão o grito da desilusão e da revolta. Quem importa? Ninguém mais os ouvirá. Cadê a pastora que lhes conduzia pelos trilhos Da abundância E despejava nos seus corações A esperança de uma terra rica e generosa? Ouve irmã, O grito da araponga ressoando no sertão. Dizendo não. Não vás ainda, O teu rebanho se perderá sem o teu norte De tão grande porte, Que nem tem comparação com os outros que ficarão Chorando a verdadeira, A filha de Maria, A irmã da caridade que sem vaidade abarcou os pobres do Xingu com seus mil braços de perdão, Compaixão, generosidade, Piedade e de amor. O amor expandirá suas garras tentando em vão retê-la. Quem o usará com igual propriedade? Por caridade irmã, fica. Só mais um pouco, uns trinta ou menos, Vinte anos, É claro. Para que desprendas das mangas Tuas cartas contra a escravidão Dos corpos frágeis e necessitados de Anapu, Do Xingu, De toda a Amazônia e de Ohio também. Têm pobres lá, O rastro dos impiedosos atravessa fronteiras E atinge os extremos E até os ricos países gordos de mandos e desmandos. Tem também famintos na América? A tua que deixaste para trás para vires Para o fundo do mundo. Sim, irmã, ela os têm. Mas quiseste viajar numa caravana de bondade E adentrar a famigerada floresta com pertencimento Ao estrangeirismo. Que abismo! Estão levando-a como se leva algo insignificante E assim “como quem não quer nada”, Roubam-na a impenetrabilidade E a grande biodiversidade. Irão reduzi-la, nesse passo, ao nada absoluto E o pulmão do mundo morrerá. Junto com ele, também, a Stang. Que pena amiga! Saudade...

Eleni Mariana de Menezes

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Miligrama de verso XII Não fiquem penalizados com a imagem real da minha face, pois não tenho o menor pudor de me reinventar e de me imaginar princesas.
A Apedrejada Meu nome é Asho Tenho treze anos e vou morrer
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A Apedrejada Meu nome é Asho Tenho treze anos e vou morrer Por apedrejamento. Ao relento Dos corações endurecidos. Fui condenada por prevaricação. Num tribunal paralelo. Meu crime? Fui violentada, Estuprada. Rasgada na minha inocência Eu só tenho treze anos Acudam-me. Quem pode salvar-me? A primeira pedra feriu a minha cabeça. Pulei dentro do buraco, Cheio de pedras Tentando fugir. Eles vieram atrás 50 homens, Fortes e raivosos. Acossaram-me. Socorram-me. Agora me apedrejam sem parar. A dor é aguda e atroz Vomitei. Gritei. Urinei. Defequei. Inúmeras vezes de dor. Agonizei. Cadê a Anistia Internacional? Onde está a voz dos Direitos Humanos? Estou agonizante Só tenho treze anos. Não quero morrer. Muito menos agora, Por lapidação. Abriram vários buracos na minha cabeça. Esfacelaram-me. Estou sofrendo dores Do tamanho da maldade deles. Enfim, vou morrer Após duas horas dolorosas. Com a vergonhosa aquiescência do mundo Eleni Mariana de Menezes

1 - Poema para Chico Mendes Fala baixo Chico. Não grites.
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1 - Poema para Chico Mendes Fala baixo Chico. Não grites. As seringueiras irão chorar lágrimas brancas. Lágrimas grossas de saudade de Francisco. O Mendes. Aquele que as rasgavam com tanta mansidão E poesia para retirar-lhes a seiva Que mais parecia um rasgo de elogio. Um rasgo de amor. Uma carícia de irmão agradecido pelo sustento Que viria dali. Fica Chico. Senão o seringal não vai chorar apenas, Irá uivar o uivo doloroso do adeus ao amigo E companheiro. Irá gritar para o céu da Amazônia que a esperança morreu. Que o apelo do ativista parou. Tua boca calou para sempre. E seus olhos dormiram o sono do nunca mais. Ah, Francisco, Fala baixo para os gananciosos não o ouvirem. Eles não perdoam. Depois como vais peregrinar pela selva Com o coração de guerreiro? Nunca mais Chico, Andarás com essa alma de gigante Por entre os altos arbustos amazônicos E a floresta vai morrer um pouco. Elas sentirão falta do seu abraço protegido. Daqueles que distribuías para defendê-las Com teu corpo nos empates. Fica em silêncio Chico que teu hino De amor está ferindo interesses de alguns. Eles não têm piedade e vão determinar tua partida. Eterna. Sem retorno do Mendes. Nunca mais ouvirás o canto melodioso da cotovia. E o inhambu vai piar sem teus ouvidos para escutá-lo. Ouve Francisco, Deixa de bobagem e dorme mais um pouco. Não te levantes cedo demais para ires ao sindicato Bradar ao mundo que eles matam a mata. Eles irão te perseguir e a pontaria deles é tão certeira! Não erram. Vão disparar até que caias sem chance de levantar-te Para mais uma vez Penetrares nos caminhos recheados de folhas verdes E musgos. Melhor, não entres jamais no sindicato. Ele não precisa de Francisco. Volta a colher a borracha, Simplesmente, Assim como um seringueiro despretensioso e feliz. O mundo é assim mesmo companheiro. Queres mudá-lo para quê? Nem conseguirás ser eleito para o preito que pretendes. Tivesses sido talvez fosse outra a tua história. Seria? O cargo político te daria amparo? Se desse Chico seria interessante o povo eleger-te. Bem que mereceste! Levantaste a voz bem alta ao ponto de ferir ouvidos. Inquietar consciências. Incomodar pessoas. E quantas!... Espera Francisco, mais um pouco na cama, Hoje ainda são vinte e dois, Falta pouco para o Natal. Não queres ver mais uma vez o menino Que nasce da tua fala de valente? Depois os sapatinhos das crianças ficarão vazios, E sem os teus abraços, também os corações. Janeiro chegará com Lótus Se abrindo em adoração Divina. Estamos Francisco em 1988, Vem por aí a virada do milênio, O céu ficará cheio de rastros dourados E com tantas promessas de vitória que até acreditaremos. Então esquece um pouco esse seu caso de amor Com a natureza e sossega menino. Teu menino ficará sem o colo amigo do paizão querido. E a menina entrará sozinha pela igreja Ao som da Ave Maria. Cadê teu braço para apoiá-la companheiro? A mulher vai lamentar derramando água dos olhos tristes, O amor que lhe foi tudo, E a solidão será do tamanho da Amazônia. Não. Não abras a porta agora. Volta para a cama. Descobre que tens dor, qualquer uma. Permaneça quieto. Lá fora está tão sombrio e perigoso! Teu banho pode esperar. Tua vida pode prosseguir valente guerreiro. Só não saias agora pela porta. Talvez ele desista, vá embora e deixa para depois. Aí podes pegar a mulher e as crianças e fugires. Para onde? Depois que o mundo é tão pequeno! Que pena Chico! Então adeus meu camarada. Vai com Deus.

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