Frase de David Rocha
Ciclo de Desperdício Se o sopro do vento da vida se esvair, Se a chama do desejo se extinguir, Se o contorno da tua alma se dissolver, Se até a lembrança de ti morrer — Nada do que foi voltará a ser. Como as ondas, condenadas a morrer na praia, Num ciclo silencioso que alimenta outros seres, Como as tartarugas que, do fim daquelas, fazem nascer possibilidades. Mas isto não é sobre “uma porta que se fecha e outra que se abre”. Essa frase é pequena demais para o que fere. Isto é sobre o fim do que não deveria findar, Sobre o que, injustamente, a força maior encerra. Há começos que sequer respiram: Morrem ainda na intenção. A natureza cumpre seu rito — Cruel, insensata, soberana — E recorda que não há vontade acima da sua, Onipotente em sua alma selvagem. Não reclamo de sua franqueza. Mas como ensinar um coração que nasceu para amar A aceitar que, nesse decreto imperativo, Reside também o impulso para sobreviver Neste ambiente hostil Que pune, substitui e não hesita? Ainda assim, há uma misericórdia escondida na tragédia: A dor do fracasso se dissolve com o próprio sujeito, Que se torna apenas mais um elo da regra biológica, E, ao desaparecer, abre espaço — Como as ondas, como a vida — Para que outro ser comece. DRAL
No pensador.ai desde