Frase de Oliver Crusinski
Dia de faxina Havia tempos eu precisava fazer uma faxina em mim. Me desfazer daquelas coisas que vamos acumulando nas gavetas e prateleiras, tralhas socadas numa caixa jogada no chão. Jogar na lata do lixo pensamentos, mágoas, tristezas e falsas esperanças. Tirar o pó do sorriso, a ferrugem de sonhos adormecidos e limpar as vidraças da alma, para ver o mundo com clareza. No fundo de uma gaveta, achei a carta de amor que nunca enviei, aquele adeus que nunca esqueci e algumas lembranças que não quero lembrar. Na prateleira superior no meio de um livro que nunca li, as pétalas da rosa murcha pelo rancor, lembretes de dividas de amor – e uma foto – que lembrou um tempo de sorrisos largos e tardes de sol. Na fotografia encontrei o sorriso que virá, e numa caixinha no fundo do armário, meus sonhos esquecidos e alegrias pretendidas. Fui tirando tudo que não prestava e colocando num saco de lixo, desejos contidos, palavras rudes, gestos fúteis, solidão, desamores, arrependimentos, ódio e um amontoado de mágoas. Um a um, prontos para partir rumo ao nada. No meio de tantas coisas encontrei preciosidades, um por de sol a beira mar, aquela música que faz chorar, um afago do pai, um colo de mãe, o primeiro beijo. Olhando e lembrando de cada um daqueles momentos, fui selecionando e fazendo minhas escolhas. Abri a gaveta especial, aquela onde se guarda o que se tem de melhor. Comecei a arrumar e limpar, com cuidado acomodei o amor, dei um brilho no olhar, e arejei a fé, os desejos foram passados a limpo e alojados junto com a pasta das metas. E antes de fechar apliquei algumas gotas de esperança. Algumas lembranças, medos, ansiedades e sofrimentos, coloquei em uma caixa pra avaliar melhor, mas acho que amanhã o destino dela. Será o lixo também. Aquelas preciosidades deixei bem a mostra, com as lembranças de infância, bem ao lado da minha capacidade de amar e recomeçar.
No pensador.ai desde