Frase de Marcelo Caetano Monteiro
NO INTERIOR DA SOMBRA. Há um quarto dentro de mim onde a luz entra devagar como quem pede licença ao sofrimento. Ali guardo versões antigas de mim mesmo rostos que sorriam por dever silêncios que sangravam por dentro. Carrego uma ternura exausta que não aprendeu a abandonar mesmo quando tudo já havia partido. Existe um cansaço que não vem do corpo mas da consciência. É o peso de perceber-se falível e ainda assim desejar ser digno. Às vezes sinto que sou feito de ausências. Caminho entre pessoas como quem atravessa corredores de vidro temendo quebrar-se ao menor toque. O coração não grita. Ele pensa. E ao pensar recorda cada gesto omitido cada afeto não entregue cada palavra que poderia ter salvado uma tarde. Sou delicado demais para o ruído do mundo e severo demais comigo mesmo. Habito essa contradição como quem aceita morar em ruínas elegantes. Há beleza na tristeza quando ela não se torna espetáculo mas reflexão. Ela ensina a ouvir o invisível a reconhecer a fragilidade como matéria nobre. Não quero aplausos quero coerência. Não desejo fuga quero compreensão. Se sou feito de sombras que sejam sombras conscientes. Se falhei que o erro me eduque. Se doeu que a dor refine. Porque a verdadeira grandeza não está em nunca cair mas em transformar cada queda em consciência mais lúcida e seguir.
No pensador.ai desde