Frase de Nelson Rodrigues da Costa
A Cruz e o Silêncio Na tarde que se deita sobre o mundo, o silêncio pesa mais que a pedra do sepulcro. Há um homem suspenso entre o céu e a terra, e o seu corpo é a ponte entre o abismo e o eterno. Sexta-feira, dia sem cor, em que o sangue se torna verbo e o madeiro, altar de um sacrifício antigo como o tempo que nos escapa dos dedos. Não é a dor que nos salva — é o amor que aceita a dor sem exigir resposta, sem exigir justiça. Cristo não grita contra os pregos, não amaldiçoa os que o erguem ao vento: olha-os como quem compreende que só o amor cego pode ver o mundo claro. E morre, não como quem perde, mas como quem entrega. Entrega-se ao Pai, entrega-se ao silêncio, entrega-se a nós. A cruz, então, já não é castigo, mas espelho: e nele vemos o que somos quando deixamos de fingir. Na Sexta-feira Santa, não se celebra a morte, mas a entrega. Não se chora o fim, mas o princípio escondido na última palavra: “Está consumado.” E o mundo, suspenso com Ele, aguarda o terceiro dia em que a pedra será rolada e o silêncio se fará luz.
No pensador.ai desde