Frase de Marcelo Caetano Monteiro
PRINCESA DA NOITE E O TRÂNSITO DO INAUDÍVEL. Há uma noite que não começa no escuro. Ela principia no primeiro intervalo entre dois sons. Antes do acorde existir. Antes da mão tocar a matéria do mundo. Essa noite caminha em passos regulares. Não corre. Não implora. Ela avança como quem conhece o destino e mesmo assim aceita cada desvio. Seu pulso é constante como a respiração antiga da terra. Seu coração repete arpejos como quem recorda uma memória que nunca foi esquecida. Surge então a Princesa. Não coroada por ouro. Mas pelo silêncio que antecede cada nota. Ela não reina pelo poder. Reina pela permanência. Tudo passa ao redor. Ela permanece. Seu vestido é tecido de sombras móveis. Cada dobra nasce de um grave profundo que sustenta o mundo sem pedir reconhecimento. Os sons baixos são colunas invisíveis. São raízes que se enterram no tempo para que o céu não desabe. A melodia não se impõe. Ela se inclina. Desenha curvas como quem respeita a dor do existir. Há doçura em sua ascensão. Mas nenhuma ingenuidade. Toda nota sabe que cairá. E mesmo assim sobe. Quando a linha melódica se eleva. Não é fuga. É coragem. É o espírito ousando olhar acima da própria noite. Mas logo retorna. Porque sabe que a verdade não mora no excesso. Mora no equilíbrio entre desejo e limite. O tempo não se rompe. Ele se alonga. Cada compasso é um passo dado com reverência. Como antigos peregrinos que sabiam que chegar rápido era perder o sentido. Há um momento em que a música suspira. Não por cansaço. Mas por compreensão. Ali o som aprende que não precisa provar nada. Apenas ser. Os arpejos continuam. Pacientes. Persistentes. São como estrelas repetindo o mesmo gesto há milênios. Nunca cansadas. Nunca apressadas. E quando a intensidade cresce. Não se torna violência. Torna-se densidade. A noite se adensa. A Princesa caminha mais alta. Mas não mais distante. Ela conduz o ouvinte para dentro. Não para fora. Porque toda verdadeira epopeia não é conquista de terras. É travessia da alma. No trecho final não há triunfo ruidoso. Há aceitação elevada. O som repousa como quem cumpriu sua tarefa eterna. Nada foi perdido. Nada foi ganho em excesso. A noite fecha os olhos. A Princesa permanece de pé. Guardando o que não pode ser dito. Sustentando o mundo com a delicadeza de quem conhece o peso do silêncio. E quando o último som se dissolve. Não é fim. É retorno ao invisível. Pois a verdadeira música não termina. Ela continua onde o ouvido já não alcança.
No pensador.ai desde