Frase de Edder Alexandre
Papai Noel que nunca chega (Carta de um menino zimbabuano) Papai Noel, Onde é que está você? É verdade que sua barba é branca, Feito algodão-doce, sem sabor colorido? Que você existe mesmo eu sei... No Natal, eu quero um pacote de bolacha E um ainda maior de pipoca, bem grande, Que é para dar pros meus oito irmãozinhos, Barrigudinhos como eu. E a titia... minha tia precisa, Somente ela, porque minha mãe morreu, Pai já não tinha – e morreram mais crianças, Muitos vizinhos, morreram meus irmãozinhos, afinal, Por enquanto, só eu fiquei, Eu, minha tia e meu primo do meio. Papai Noel, será que é possível passar por aqui, Quero dizer (se não for pedir muito) Aqui primeiro, aí depois visitar o resto do mundo, Mundo que nos esqueceu neste lugar Onde as estrelas se escondem atrás de nuvens marrons, Marrom-escuras, estacionadas sobre nossas almas. Querido Papai, velho Noel, se tiver de vir, vem logo, Não nos deixa para depois dos outros... Se não quiser sujar o trenó de poeira ou cinza, Faz uma coisa prática, vem de carroça, Mas enche a carroça de bolacha, por favor. (Nossos corações não estão vazios, até que existe esperança, E existe agonia; e não falta união, falta alegria Porque nossas barrigas estão ocas. Ocas, Simplesmente assim, ocas. Nem os vermes sobrevivem.) Aliás, por falar em união da família, Pelo menos aqui, a fome é que tem desfeito essa união: Deixando filhos sem pais, pais que perdem seus filhos; Netos que não têm sequer a bênção dos avós, Avós que nunca nanam seus netinhos; Tios e tias, sobrinhos, madrinhas... todos, Todos de mãos dadas, unidos, Mas unidos num vasto e acolhedor leito de morte – Morte que se apresenta aqui pausadamente, Separando um do outro, Deixando tempo demais para a despedida, Tempo que a gente nem queria ter. Por isso, Papai Noel, não demore tanto para chegar... Já estamos cheios de bolachas de barro, Bolinhos de barro, torrões... Faz um esforço e vem com algo de verdade, Qualquer sabor, bolachas e mais bolachas, O melhor presente da vida. Faz um pouco de esforço e vem, Vem antes de o pôr do sol, Não dá meia-volta de novo, Não deixa a gente para trás, Vem, mas vem antes de o sol se pôr, Ninguém mais pode ficar de fora, Vem, vem logo, vem, Vem e traz bolacha pra todos, Traz o sorriso. Edder Alexandre é jornalista e escritor, autor do romance Silêncio na Marcha – O Drama do Homem na Ponte do Milagre; também escreveu o infantojuvenil As Gêmeas de Getsêmani.
No pensador.ai desde