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Frase de Gabriel Chalita

ANTÍDOTO CONTRA A VIOLÊNCIA Guimarães Rosa, o revolucionário das palavras, dizia isto: "Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?" Nós nos gabamos de sermos diferentes dos animais, porque pensamos e porque sorrimos, duas coisas que os irracionais não conseguem fazer. Mas estamos perdendo a ternura coletiva, num processo de anodinia animalizante, bem ao contrário do que pregava o revolucionário de outras trincheiras, Che Guevara. Violência atrai violência, é o que dizem psicólogos, sociólogos, educadores e outros estudiosos da alma humana. Sob a comoção da violência, no entanto, a resposta inicial costuma ser de endurecimento. Violenta. A mesma violência que deverá voltar, em círculo vicioso, como resposta. Isto é o que sabemos sobre os conflitos. Mas o que fazer? Guimarães Rosa também dizia outra coisa: "Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa". O recado é claro. Temos que reaprender. Principalmente as atitudes que nos despertem sentimentos opostos àqueles que compõem o vício da violência. A essência da existência humana está nas coisas mais singelas. É preciso aprender a ver essas coisas. E é preciso aprender a compreender os valores. Se eu não der passagem, a reação do outro de também não dar passagem tem como resultado um trânsito congestionado e mal-humorado. Se eu não respeito a fila, devo admitir que possivelmente outros também não a respeitem. Se eu me aproveito da fraqueza física de um colega de escola, posso estar abrindo a guarda para a violência física e outras formas mais cruéis da violência. Alguém precisa começar a ceder. Alguém precisa começar a revolução da resistência contra a violência. Ronald Reagan, ex-presidente dos Estados Unidos, fez em outras circunstâncias duas perguntas: "Se não nós, quem? Se não agora, quando?" Aristóteles dizia que felicidade é a associação da prosperidade com a virtude. Essas duas coisas se integram, porque o virtuoso se eleva para a prosperidade moral - que por sua vez induz quase compulsoriamente à felicidade material. Ao contrário, o medo mantém o homem na caverna - Platão já discorria sobre isso. O medo cria mitos. O medo cria idolatrias. O medo cria alienações. Uma abordagem da questão da convivência social, na ética, conduz necessariamente ao entendimento do outro. E o entendimento traz consigo o respeito. O antídoto do medo é a gentileza. Em todas as suas formas sinonímicas: respeito, afeto, solidariedade. Ou na sua morfologia metafísica: o bem, o transcendente, o elevado, e (por que não?) o divino. O educador deve propiciar aos seus aprendizes, não a doutrina, mas a consciência. A consciência do que é o bem, o bom e o belo. Até porque essa tríade, capaz de dotar o espírito e a mente humana do viço e da energia essenciais à edificação de ideais nobres, cria um círculo virtuoso fundamental à convivência social pacífica, ao desenvolvimento do caráter ético e ao fortalecimento de valores como honestidade, lealdade, respeito, civilidade, fraternidade, solidariedade e senso de justiça. Os conceitos filosóficos descritos por Platão a respeito do belo, estão bem evidentes em dois textos (um em Fedro, outro em República). No primeiro, o filósofo nos diz: "(...) na beleza e no amor que ela suscita, o homem encontra o ponto de partida para a recordação ou a contemplação das substâncias ideais". Já em sua República, Platão compara o bem ao Sol, que dá aos objetos não apenas a possibilidade de serem vistos, como também a de serem gerados, de crescerem e de nutrir-se. O pensamento filosófico e a poesia não oferecem mapas ou guias para a felicidade. Muito melhor do que isso, apontam caminhos para que possamos ter o prazer de encontrá-la pelos nossos próprios esforços. Cada um de nós tem, portanto, um bom combate para lutar, modernamente. E o desafio do educador é este: combater a violência com a gentileza. Talvez um pouco como Gandhi, na sua resistência passiva. Ou então como as formigas de uma colônia, cada uma fazendo a sua pequena parte para que a coletividade avance. E não é verdade que uma colônia de formigas desperta, pela sua organização e espírito de solidariedade, a ternura que nos falta? Nesse caminho, é principalmente à escola que cabe ser o espaço da redenção. A escola é um local seguro, onde as pessoas convivem, a salvo de influências malévolas, e onde o refinamento do espírito é a proposta e o propósito. Na escola pode, e deve, imperar a ternura. Ali, naquele terreno fértil, pode crescer a planta de onde a civilização retira a essência do melhor antídoto contra a violência: a gentileza. (Revista Profissão Mestre, edição de abril de 2007)

Gabriel Chalita

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Gabriel Chalita

O outro não é uma coisa que existe para nos servir. Ninguém é coisa de ninguém.
Febem - Um desafio possível Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus - sucesso adaptado com genialidade por Fernando Meirelles para as telas do cinema -, captou com maestria a realidade cruel e dolorosa de crianças e jovens que, corrompidos pelo meio (leia-se ausência total d…
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Febem - Um desafio possível Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus - sucesso adaptado com genialidade por Fernando Meirelles para as telas do cinema -, captou com maestria a realidade cruel e dolorosa de crianças e jovens que, corrompidos pelo meio (leia-se ausência total de oportunidades, incentivo, educação e estruturação familiar), ingressaram no universo da marginalidade e da violência. O mesmo teria acontecido, provavelmente, à pequena e indefesa "Negrinha", personagem imortalizada pelo conto homônimo de Monteiro Lobato, caso a menina tivesse nascido no final do século 20, longe dos resquícios da escravidão das fazendas, mas próximo à escravidão social dos ambientes urbanos. Mais uma vez, a ficção - seja literária, seja cinematográfica - nos dá uma lição de vida imprescindível: ou a sociedade compreende a necessidade premente de romper o ciclo vicioso da criminalidade ou estaremos condenando o futuro do Brasil e do mundo de forma irreversível. Somente a mobilização social, por meio da união de esforços entre governos e demais instituições da sociedade civil organizada, pode reverter o rumo caótico que os acontecimentos vêm tomando. Em todo o mundo, os altos índices de violência, que agora se expandem em ritmo acelerado das metrópoles em direção às cidades do interior, compõem um quadro dramático cujos desenhos dantescos nos convidam à tomada de ações imediatas. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin demonstrou total sintonia com a urgência dessa situação. Por meio de uma atitude corajosa e inovadora, integrou a Febem aos quadros da Secretaria de Estado da Educação, uma iniciativa fundamentada sobre os pilares de um conceito básico para a recuperação dos adolescentes em conflito com a lei: a ressocialização via aprendizado, preparo psicológico, acesso à informação, à cultura, ao esporte e ao lazer. Um método que resulta na aquisição da auto-estima e da autoconfiança, provenientes da descoberta gradativa dos talentos e das potencialidades dos educandos - da mesma forma que deve ocorrer com os alunos do ensino regular, nas escolas. Assim é que se adquire consciência crítica, capacidade de discernimento e, enfim, se constrói a cidadania. É essa a nova proposta da Febem, totalmente condizente com os projetos e ações da Secretaria de Estado da Educação. Temos um enorme desafio pela frente. E, para que possamos superá-lo de forma eficaz, precisaremos do apoio, do incentivo e da colaboração de todos os segmentos sociais. Nesse sentido, gostaríamos de convidar empresas, ONGs, igrejas, universidades e demais instituições para nos auxiliar na missão instigante que é reescrever o roteiro desse filme grandioso e, por isso mesmo, complexo em toda a sua estrutura. Se assumirmos os papéis de diretores, cenógrafos e produtores que essa grande obra requer, poderemos mudar a história de milhares de jovens atores que necessitam de uma orientação mais cuidadosa na concepção, na criação e, finalmente, na concretização de cenas que viabilizem finais mais felizes para suas vidas reais. A ampliação dos programas de liberdade assistida e a construção de unidades menores da Febem, tanto na Capital quanto no Interior, privilegia essa nova realidade e tem possibilitado às equipes da instituição a realização de um trabalho mais produtivo e bem-sucedido, capacitando esses jovens e transformando-os em protagonistas aptos a exercerem sua plena cidadania. Milhares de jovens atores estão aprimorando suas habilidades por meio de aulas do ensino regular e profissionalizante, diversas oficinas de arte, cultura (teatro, dança, artesanato) e, ainda, 32 modalidades esportivas que abrangem do futebol ao xadrez. E isso é só o começo. De nossa parte, garantimos total dedicação e empenho para dar a este enredo um desfecho verdadeiramente alegre, bem diferente dos finais da maioria dos personagens da obra de Paulo Lins e da protagonista do conto de Lobato. Acreditar que é possível é essencial. Vamos seguir à risca a cartilha de Victor Hugo - outro grande ficcionista que retratou em seus livros as injustiças e problemas sociais de seu tempo - que já alertava: "Nada melhor do que um sonho para criar o futuro". Publicado no jornal Diário de S.Paulo