Frase de Juliano Lamounier Rossi
A Herança do Silêncio Nasci entre multidões, todavia jamais encontrei morada. As vozes entrelaçavam-se em incessante rumor, mas nenhuma aspirava ao peso das ideias. Celebravam efêmeros esplendores, como se o transitório bastasse à existência; enquanto a contemplação, a filosofia e a memória das civilizações definhavam na penumbra do esquecimento. Percorri incontáveis caminhos em busca de um destino compartilhado, sedento pelo mistério das origens, pela arquitetura do pensamento, pela grandeza que transcende o instante. Encontrei apenas superfícies. Sorrisos sem permanência. Palavras sem substância. Encontros destituídos de comunhão. Descobri, então, que a mais severa das solidões não floresce na ausência de companhia. Ela habita a convivência quando nenhum destino alcança a profundidade do outro. Minha morada converteu-se em refúgio. A cidade tornou-se território estranho. E até o vínculo consanguíneo passou a recordar um antigo monumento: permanece erguido, mas há muito deixou de ser habitado. À mesa, os corpos persistem; os afetos, contudo, dissipam-se na sucessão das horas indiferentes. Cada qual encerra-se na fortaleza invisível de si mesmo, onde nenhuma palavra atravessa os muros e nenhum silêncio encontra tradução. Compreendi, por fim, que o verdadeiro exílio não se mede em léguas, nem se escreve nos mapas. Ele principia quando o destino já não encontra outro destino capaz de partilhar a mesma reverência pelo conhecimento, pela beleza, pela reflexão e pelo infinito. Desde então, caminho. Não à procura de um lugar, pois os lugares pertencem ao mundo. Procuro um destino no qual o pensamento não seja estrangeiro. E enquanto ele não se revela, permaneço habitando a mais vasta das distâncias: aquela que separa dois destinos incapazes de reconhecer-se.
No pensador.ai desde