Frase de Gabriel Hayashida de Aruda
Hoje, fui até a janela... E lá estava ela, tão perto, mas tão distante, entre o vidro e a luz que entra pela fresta. A vi. Jovem, bonita, como quem não quer ser vista, mas é vista. Sorriu. Acenou. Acenou para mim, ou talvez para alguém que eu não sou, alguém que ela inventou, ou apenas imaginou do outro lado da rua, junto a tantos outros que não significam nada. Quantas janelas existem, e quantas são abertas? E por um momento, me vi em outra vida: um homem com coragem, um homem que caminha até ela, que diz o que nunca sei dizer. Talvez um "como vai?", ou apenas um olhar — silencioso, sem palavras, sem promessas. Mas não sei. Nunca soube. Eu sou só o homem do outro lado da rua, um qualquer, um ninguém. Quantos outros existem, em cada janela, em cada lado, em cada rua? E ela, tão real quanto o impossível, como o céu, como as estrelas, como esta metafísica que nos envolve, que permeia o que somos e o que vemos, mas que jamais entenderemos. Como o mistério das coisas, que olhamos e pensamos entender, mas que nunca saberemos. E eu, o estranho do outro lado da rua, sem coragem de atravessar, sem palavras, sem ousadia de ser: um ninguém. E ela, com aquele sorriso, me vê por um segundo. Mas será que me vê de verdade? Ou será que me inventa, como todos inventam a si mesmos, como eu invento o que sou? Então ela se vira. Ela se vira e vai embora. E com ela, meus pensamentos, meus sonhos, minha vida. E eu, aqui, do lado de cá da rua, vendo a vida passar — a vida vivida e sonhada — sabendo que nunca farei parte de nada disso. Nunca farei parte de nada disso, nem daquilo outro. Nunca farei parte.
No pensador.ai desde