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Frase de Nerisírley Barreira do Nascimento

Por cada coisa que a gente passa nesta vida. Eu sempre gosto de conversar com as pessoas. Ainda acho que o melhor é conversar numa cidade pequena como Santa Terezinha, Pilar, Vila Boa ou minha amada Pirenópolis. Lá as conversas são olho-no-olho, algo prazeroso. Mas nesse dia em especial... eu não estava para papo. *** Fiquei irritada porque o voo duraria dez horas. E eu no assento do meio, dei o meu lugar para um senhor que nunca havia viajado de avião antes. De repente um outro senhor à minha direita do lado corredor começa um diálogo nada apropriado para quem estava no avião. Um homem de uns trinta anos, muito bonito, de terno e gravata, uma roupa nada adequada para viajar e que agarrava-se nos braços da poltrona: *** _ É a sua primeira viagem internacional? *** Abaixei o livro e olhei para ele. Mas além de irritada, eu tinha que terminar aquele livro para uma palestra na Universidade Politécnica de Valência. Eu não teria nem um dia para descansar antes da palestra. Já estava no sufoco! *** _ Não senhor. Faço esse trajeto sempre. Ele me olhou de cima abaixo. E fez uma careta. _ O que você faz? Não parece uma mulher de negócios. Pensei: _ Lá vem bomba! Reabri o livro e respondi tranquilamente: _ Nem todas as viagens internacionais são a negócio. Aliás, são bem cansativas. Por isso, se o senhor me der licença, vou continuar lendo o meu livro. *** Ele soltou um gemido. Notei que ele estava nervoso. Mas com certeza era arrogante. Como sou alérgica à arrogância, ignorei-o. Estava a postos, como passageira a decolagem. O comandante falou em Francês, Inglês e em Português como de costume. Eu não gosto dessa companhia francesa, principalmente quando ela fundiu-se com uma holandesa. Aí que a coisa degringolou. E eu lendo o meu livro quando... *** _ Você consegue ler voando? _ Hum... hum. _ Você não tem dificuldade? _ Não senhor. Eu tenho o costume de ler um livro por dia. Quero terminar este neste voo. _ Mensagem clara não é leitor? Mas para o bendito, não. *** O serviço começou a ser servido. E é lógico, que lá pelas tantas, viria aquele de vendas. A mesma coisa sempre. O mesmo cansativo estresse de ficar ao lado de estranhos enjaulada para cruzar o Atlântico. Aí começou a explosão de pérolas do passageiro do meu lado direito: *** _ Você voa muito neste voo? _ Só uma vez. _ Lógico, outro voo seria outro nome, outro dia. _ Ahhh... então você não estava naquele que caiu no mar... Abaixei o livro e o vi remexendo na poltrona. Aí entendi. _ Senhor. Se eu estivesse naquele, não estaria aqui conversando com o senhor. _ Não é claro! Estaria no fundo do mar! _ Bradou. *** Todos olharam para nós, já tínhamos passado da costa do Brasil. Mas aí eu continuei em voz baixa. Pausada e tranquila. *** _ Se o senhor acredita, sim. Mas eu não estaria nem aqui e nem no mar. Ele ergueu as sobrancelhas: _ Onde estaria então? _ Bom num lugar melhor que este mundo Adorando a Deus. _ Ahhh... você é uma daquelas religiosas. O que vai fazer na Europa? Procurar um emprego? Ele atravessou uma linha tênue. Não falo sobre minha vida particular. _ Não. _ Pois eu tenho uma reunião. _ Hummm. Voltei a ler meu livro. De repente ele me cutucou. _ Que livro é este? Um romancezinho? Sem tirar os olhos do livro: _ Sim um romance entre a Quântica e o cérebro humano. Os dois geram a simbiose da Ergonomia Cerebral. _ Você é médica? _ Não. _ Então porque diabos está lendo este livro? _ Falou alto, mas tão alto que o serviço de bordo todo olhou para mim. O passageiro da esquerda, um clérigo, ficou com dó da mim. Não houve jeito, tinha que explicar para amenizar a situação. *** _ Eu sou uma pesquisadora e estou fazendo um artigo científico sobre Psicologia Ambiental. _ Mas o que você faz afinal de contas? Eu sou advogado! Eu tentava manter a calma: _ Sou arquiteta e urbanista, mestre e doutora na área, sou filósofa, teóloga e também tenho formação em artes plásticas. Agora, sou cientista da Universidade Hebraica de Jerusalém. E se o senhor deixar, eu vou terminar o meu livro. *** Ele ficou me analisando por um tempo. Um comissário que fala Português já havia postando-se bem perto de nós para ouvir. Ninguém merece! *** _ Eu pensei que você era empregada doméstica. _ Hummm. Não tirei os olhos do livro. _ Muita gente pensa porque sou parda. Ou melhor, mulata, negra. _ Ao fundo, ouvi uma risada do comissário que traduzia em um Francês, quase sem sotaque, a outro. *** _ Mas me diga uma coisa? Aiiii... Fechei o livro. E olhei para o homem. _ Pois não! _ Esse não é o mesmo voo que caiu no mar? _ Não, aquele continua no mar. _ Mas você me entendeu. Este não faz o mesmo trajeto? _ Sim. _ Você acha que ele pode cair? _ Todo avião pode cair. _ Você acha que este pode cair então? _ Eu acho que ele disse isto a cento e oitenta decibéis. *** Todos olharam para nós. Aí eu perdi de vez a paciência. *** _ Senhor! O senhor acredita em Deus? _ Mais ou menos. _ Então ponha as suas contas em dia com Ele. *** _ Você é uma cientista e acredita em Deus? _ Sim. Como Albert Einstein. *** _ Mas se cair? *** Isso ele já falava, não me cutucando, mas sacudindo o meu braço. Chamei o comissário em Francês e pedi um uísque para o homem. De pronto, ele trouxe. *** _ Eu indico ao senhor beber toda a bebida e estar em dia com Deus. Porque se o avião cair o senhor vai morrer. Entendeu? _ MOR-RER. E dessa o senhor não passa! E nem eu. Portanto, beba o seu uísque e deixe-me ler o meu livro! *** Só ouvi umas risadas atrás. O senhor a minha esquerda, depois trocou de lugar comigo. Porque o digníssimo bebeu três garrafas _que eu não sabia que ele tinha consigo_ e tombou adivinha para onde? No meu ombro! 24/11/2016

Nerisírley Barreira do Nascimento

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Nerisírley Barreira do Nascimento

O doce amargo sabor da bela adormecida Era uma vez uma moça, no estilo dos sonhos norte-americanos. Loira, de longos cabelos que criavam cachos nas pontas, de bons modos, nariz fino e ingênua. Cantava de forma lírica e era tão submissa que quase não tinha imaginação ou senso de…
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O doce amargo sabor da bela adormecida Era uma vez uma moça, no estilo dos sonhos norte-americanos. Loira, de longos cabelos que criavam cachos nas pontas, de bons modos, nariz fino e ingênua. Cantava de forma lírica e era tão submissa que quase não tinha imaginação ou senso de humor. A princesa unigênita de um rico reino. Quão doce que era a linda moça! Inocente, um dia tocou uma agulha envenenada e caiu em sono profundo. Por séculos dormiu e tudo parou. Veio um príncipe e a beijou na esperança da moça acordar e se tornar a princesa dele, mas a moça não acordou. Veio outro príncipe e nada. Mais um. E outro. Vários outros. Todos saiam desencantados. O que havia de errado com eles? Nada! O nome da moça? O seu! O nome da agulha? Clonazepam. E o nome do príncipe, sabe? Também é o seu. Acontece que no mundo real, tudo muda. Aliás, a Física e a Química provam que tudo está em MOVIMENTO. Por isso, permanecer parado para fugir do amanhã é ilusão. E o sono profundo da doce Bela Adormecida causa uma dor profunda e num processo cíclico, ela em sua agonia, toca novamente na agulha. E ficamos como na música do Chico: “vendo pela janela a banda passar”. De tão bela, a princesa ficou feia. Até a beleza muda. Porque o senso estético transforma-se. Um dia ela acordou e viu as mudanças em torno de si. Desiludida, tornou a tocar na agulha. A moça vegeta legalmente aceita pela sociedade. Que condói-se, até taxar a esperança como fracassada. Esse é o doce amargo da Bela Adormecida. Uma medicação inocente que eu e você deveríamos usar pouco tempo e de vez em quando, com muita precaução recomendada por um médico, de preferência psiquiatra. Mas o Brasil tem tomado cada vez mais deste veneno. Seja você o autor da sua história e não a torne uma estória. Se um dia for a Bela, saiba que a dor faz parte do pacote vida. Torne-se seu príncipe salvador e deixe-se salvar!

O gringo no Café Central. Assim meu pai me contou, enquanto ria; a história de um gringo no Café Central. Era lá pelas bandas do final dos anos cinquenta, um gringo muito chique, metido à besta, resolveu vir à Goiânia para ganhar dinheiro. Mas como todo inglês que se preze, fez…
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O gringo no Café Central. Assim meu pai me contou, enquanto ria; a história de um gringo no Café Central. Era lá pelas bandas do final dos anos cinquenta, um gringo muito chique, metido à besta, resolveu vir à Goiânia para ganhar dinheiro. Mas como todo inglês que se preze, fez um curso de Português com um erudito de Portugal. E como todo homem prevenido, trouxe o professor com ele até o Rio de Janeiro. Três meses de viagem, o tal inglês hospedou-se no Grande Hotel. E hotel você já sabe... pagando bem... eles entendem até língua de cachorro! Lá eles ensinaram que um homem de “porte” como ele, deveria ir ao Café Central para fazer contatos. O homem se ajeitou. Colocou seu terno escuro, completinho. Até com colete e gravata com broche. Chapéu preto e sapato escuro. Tudo na risca de giz, fresquinho; para Londres. Saiu o cândido, rumo ao Café Central, a pé. Sentindo-se! Eram três da tarde, onde passava, os homens de chapéu branco olhavam para ele e o cumprimentavam. Logo, o gringo percebeu que talvez teria que ouvir com mais cuidado os cumprimentos porque os fonemas saiam todos iguais numa palavra só: _Bastard! Boatard! Quanto mais as pessoas o cumprimentavam, mais calor ele sentia. Era o meio de setembro. E... depois de encharcado de suor. O homem chega no aglomerado de pessoas, na esquina da Avenida Anhanguera com a Rua 7, que era o Café Central. Adentrando o gringo; meu pai, mocinho do Lyceu, que estava de fora do estabelecimento; olhou de soslaio aquele branco de dar dó. Preto riscado, empoeirado, com uma mistura de perfume e um “certo cheirinho”. Lá dentro, ninguém olhou para o homem. Todos absortos na sua própria conversa, em negociações. Um burburinho entre comerciantes de tudo. Conforme o recomendado pelo funcionário do Grande Hotel, o inglês foi de pronto ao balcão. Avistou um atendente, que abriu um sorriso quando olhou outro homem que chegou de terno de linho branco e botas de cano alto. Sem cerimônia, o intruso sentou-se no banco que, para o inglês era dele. Depois do susto, resignado diante de sua ansiedade, o protagonista acomodou-se ao lado do homem e pôs-se a observar. _ Bastardeee Tiaozim! Que vaicê ogi? _ Bastardiii! Demaisdaconta! Dissempri! _Intão-tá! O atendente virou-se todo feliz para trás e pegou um cestinha com pão-de-queijo e uma xícara de café. Voltou-se ao moço. Nisso, o inglês vendo a cena, já começava a sentir um certo frio na barriga. Pois não compreendia nada do que eles falavam. Fitava-os atentamente. Agora, nosso fidalgo, sentia-se um mero protagonista. O moço trouxe o café, colocou para o jovem ao lado e com um bule de leite numa mão, perguntou: _ Poçopô? _ Pó-pô! Ele colocou um pouco. O rapaz deu um gole e o atendente olhou para o inglês. Tudo pareceu em câmera lenta. Nisso, o homem já não suava de calor, mas frio de nervoso. Olhou atentamente para a boca do atendente tentado decifrar o que ele falava: _ Êita língua difícil! Ainda tem que mudar? O atendente meio que receoso que talvez o homem muito que arrumado estivesse a passar mal. Fitou-o esperando uma resposta, quando o nosso insigne ia responder...suspirou aliviado! O garçom voltou-se para o moço de branco. _ Tiaozim pó-pô mais? _ Mais é clar-que-sim! Colocou mais café na xícara e voltou com o “indigesto dialeto”: _ Quémais? _ Pó-pô! Colocou mais. _ Pó-pô-mais? _ Pó-pô-mais! _ Tá bãmassim? _Num tá-não! Pó-pô-mais! Nosso excelso ficou mais apreensivo. Compreendeu que o homem nativo, negou, afirmou para negar. E como se não bastasse, terminou afirmando novamente em imperativo! E o atendente nem achou ruim. Parece que agora ele sentia sua gravata muito apertada e sua boca extremamente seca. De repente, o atendente olha para ele e faz uma pergunta. Assustado o ingles respondeu: _I would like to a cup of tea and a glass of water, please. _ traduzindo: “Eu gostaria de tomar uma xícara de chá e um copo de água, por favor.” _ Of course! One moment please. _ traduzindo: Claro! Um momentim, por favor! E não era que o garçom falava o Inglês! O problema é que o inglês não sabia nada de Goianês. Êita sô! Tem base um troço desses? Nerisírley Barreira do Nascimento 2018.

Solidão de Maria **** ****
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Solidão de Maria **** **** Maria nasceu lá nas décadas de sessenta. Do século passado. **** Maria aprendeu que o sexo é proibido. ***** Maria também foi perseguida. Não por soldados, mas pela sempre pronta e atenta, nossa querida sociedade. **** Quem mandou Maria nascer Maria e não João? ****** _ Ela é que pague o preço de sua escolha! ****** Maria tem que ser calada, voluptuosa e burra. Porque Maria que é Maria, é mulher! ***** Mas Maria não foi nada disso. ***** E ainda teve a ousadia de nascer preta. Preta sim! Não sou de meias palavras. ***** Negro, não é nem raça. Preto é cor! **** Maria, além de negra, é preta. Não tem vida cor-de-rosa! **** Essa pobre coitada. Teve o desplante de perguntar. ***** Nasceu inteligente e não foi sábia de esconder sua mente. **** Maria percebeu o mundo. Não gostou! Mas as horas Maria não era para sexo? Não é para isso que o Brasil vende Marias e o mundo inteiro compra? ***** Oras! Maria era para ser enganada! Mulher e negra? É classe e situação permanente. É o regime de castas brasileiro. Que a gente age.... Mas psiu! É impróprio falar. **** Maria que é Maria, é pra usar. **** Mas Maria não aceitou. **** Maria... tola Maria! Questionou. **** E o tempo foi passando. Os anos se tornaram pesados. Maria ficou só. **** Sem homem. Sem sexo. Apenas com seu gênero, raça e inteligência. **** Maria que é Maria. Tem que se resignar. Porque Maria quando não é Maria... fica só, por questionar. **** E Maria ainda inventou de estudar. Teimosa, petulante e atrevida Maria! Como ousa? **** Vai chorar muito pra chegar lá. Mas num tenho pena! Nasceu assim, então tem que sofrer! Tenho nojo dessa cor. Detesto esse jeito sinuoso de mulher, que não se serve para os homens. E fico com raiva dela ser feliz! Ainda assim, Maria! **** Eu me alegro com cada sofrimento de toda Maria goiana. **** Êita! O que é que eu vejo ali? Mas não é que é Maria! Toda faceira. Solta, alegre a andar? Que absurdo! **** Sozinha e sem homem? Como pode? Toda aprumada, com documentos a carregar. **** Num é que Maria hoje, depois de muito sol, está estudada! **** Onde este mundo vai parar? Dar emprego para uma Maria se tem tanto José pra trabalhar?