Frase de Daniel Müller
Só há dois instantes reais: aquele em que nascemos e aquele em que percebemos que vamos morrer. O resto é intervalo.
No pensador.ai desde
Só há dois instantes reais: aquele em que nascemos e aquele em que percebemos que vamos morrer. O resto é intervalo.
No pensador.ai desde
"Sou vários espelhos em revezamento leio de novo e mudo o leitor o texto me troca de eixo
"Sou vários espelhos em revezamento leio de novo e mudo o leitor o texto me troca de eixo o eu se refrata no ato de ler. No jogo de linguagem existir cobra senha de identidade pede critérios e reidentificação não aceita só o brilho do instante. Penso é ato existo soa estado quando o verbo encena substância escorrega a gramática do ser. O cogito acende presença não decreta essência há pensamento logo há um alguém em ato. Heráclito passa sou rio no próprio leito cada papel é uma margem cada respiração um começo. Enquanto vivo sou processo sou rastro que se redesenha a definição chega tarde quando a narrativa congela. Não me encontro me construo em variáveis o encontro pertence ao que é eu opero no que devém. Assim falo ao cartógrafo cartesiano: tua bússola marca o ato não o continente confundes faísca com metal. Conclusão cantada em pedra líquida: penso logo apareço sou em ato cogito ergo fluo. Tradução precisa do evento pensar não se segue substância segue presença identidade é narrativa em curso." – Daniel A. K. Müller
Abro o livro como quem abre uma cela e a gramática entra com chaves de prata. "Existo", diz o guarda. Eu assinto e, sem notar,
Abro o livro como quem abre uma cela e a gramática entra com chaves de prata. "Existo", diz o guarda. Eu assinto e, sem notar, já aceitei que existir é estado. Pergunta primeira, feita em voz de ponte: quem fala quando digo "eu"? Ato que cintila ou coisa que permanece? Nomear é pôr moldura onde só há clarão. Repito: penso. E o verbo, inquieto, não se deita em camas de mármore. Ele passa. Ele acontece. O sujeito que o monta é aparição, não peça de museu. No jogo de linguagem, a regra é simples e feroz: "existir" cobra documentos de continuidade, pedem-se sinais de reidentificação, pedem-se cicatrizes que atravessem anos. Mas o pensar não traz carteira; traz pulso. A cada batida ele inaugura um quem, um rosto-em-ato que se desarma com o próprio eco. Olha a armadilha: quando digo "existo" após "penso", troco o brilho pelo bloco, confundo faísca com minério. Se existir é ser algo, dize que algo és sem congelar o rio. Dize quem retorna intacto do atravessamento. A palavra "eu" acena, mas não garante o passageiro; é índice, não monumento. Releio e o leitor que sou me contradiz com elegância: cada leitura me inventa um autor anterior. Logo, o eu que decide entender é posterior ao entendimento, e o entendimento, anterior ao eu que o celebra. A gramática faz truques. Transforma atos em estados, eventos em essências. É ventríloqua do ser: põe voz de mármore no que é água. Heráclito entra, enxuto: o nome é margem, o ser é curso. Quem bebe duas vezes no mesmo "eu"? Quem devolve a gota ao desenho antigo? Então aperfeiçoo o silogismo como quem desarma um dispositivo: se penso, há presença sem propriedade, há comparecimento do sujeito-em-ato, há luz que não promete estátua. Daqui não se segue substância, segue cena. Não se prova o dono, prova-se o surgimento. O cogito é bilhete de entrada, não escritura do terreno. E se me pedem definibilidade, aponto o necrotério das narrativas: o corpo já cessou, logo o relato pode fixá-lo. No arquivo, sim, há estados; na vida, há verbos. Portanto, conduzo-te pelo corredor das palavras até a célula onde "existo" queria trancar o ato. Abro a porta pelo lado do uso e deixo o ar entrar: o que havia ali era só o brilho do acontecimento. Conclusão, escrita na água com letra firme: penso, logo apareço. Sou em ato, não como estado. Cogito, ergo fluo. – Daniel A. K. Müller
A vida é o único empréstimo que nunca aprendemos a quitar
A vida não é sobre descobrir verdades, mas sobre sobreviver às perguntas que permanecem abertas.