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Frase de Demétrio Sena - Magé-RJ.

RECRIME AMBIENTAL Demétrio Sena, Magé – RJ. Sem nenhuma intenção de ofensa, e sim, do reconhecimento e o elogio, classifico a arte do grafite, que é uma excelente arte, como praticada por pichadores evoluídos. Grandes artistas que não se acomodaram com a classificação e a sujeira de uma prática marginalizada e sem honra. Decidiram que desejavam mais, muito mais, e ganharam as ruas, os bairros, as cidades, o país e o mundo. Ainda existem os pichadores, como ainda existem animais bem próximos de como eram, em sua total natureza, na pré-história. Vejo da mesma forma os artistas que descobriram a prática de fazer do lixo algo precioso, belo e dignamente rentável, por transformá-lo em arte. Sei de muitos outros destinos nobres que o lixo ganha, inclusive no campo da indústria, mas hoje falo de arte. Quem recicla para produzir obras de fato criativas, dignas de apreciação, estudo, geração de renda e outros usos, passando pela durabilidade, pode se orgulhar de ser um artista. Os que utilizam o lixo para produzir lixo diferente, que logo será também atirado nos lugares de onde foram extraídos, voltando a poluir, talvez ainda mais, não são artistas. Na verdade, são como aqueles pichadores que não evoluíram. Não descobriram a arte genial do grafite, e por isso ficaram na idade média da criatividade. Existe muita matéria que a indústria reutiliza com sucesso, a exemplo das garrafas pet; mas para tanto, é necessário que as matérias estejam exatamente como saíram da própria indústria, para que os coletores a recolham e consigam vender. Quem faz uma florzinha que logo estará empoeirada, inválida e desagradável aos olhos, tira do coletor a chance de fazer renda, e da sociedade - da qual faz parte -, a chance de reduzir o acúmulo de lixo nos rios, mares, mangues e bueiros mundo afora. Com isso, diminuímos a chance de um mundo menos sujeito a doenças, enchentes e outros desastres que se unem aos naturais. A única justificativa cabe aos que não têm nada, nem mesmo a florzinha, e por isso a fazem para deleite próprio; quiçá para ganhar uns trocados. Qualidade de vida exige qualidade de tudo o que fazemos. Isso envolve critérios e projetos. E se vamos fazer arte reciclada, não cometamos o “recrime” ambiental - com requinte de crueldade - que será transformarmos lixo em arte para só depois concluirmos que nossa arte é um lixo a ser devolvido inútil, sem qualquer chance de reaproveitamento, aos lugares indevidos de onde vieram.

Demétrio Sena - Magé-RJ.

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SHOW DA FÉ Demétrio Sena, Magé - RJ. A fé que se tem num "Deus", num santo de argila, numa vaca ou numa casca de coco desperta no ser humano a capacidade fantástica de se recompor; se redimir; alcançar graças e às vezes banir doenças. Deus, o santo, a vaca e a casca não podem nada; o mérito é mesmo da fé ou de quem a possui. No entanto, quem a possui não pode se conscientizar disso, pois a fé não vive sem esses ícones reais ou imaginários; imateriais ou concretos. Quem tem fé, tem que tê-la em alguém ou algo, pois ela só se constrói sobre uma base; uma planta; um fundamento. Ter fé não combina com racionalidade à toda prova; com profundo aculturamento e vasta filosofia. Quanto maior a ingenuidade ou a escassês de conhecimento filosófico, intelectual; quanto menor a bagagem cultural ou a sapiência, maior é a chance de uma pessoa obter o que chamamos milagre. Se não creio na menagem central da bíblia, creio nas máximas periféricas como as que tratam das bem aventuranças, no que tange os puros e simples de coração. Eles são bem aventurados, porque têm essa fé que os capacita com a força e a coragem que não vejo nos doutos; nos letrados. Muito menos nos estudiosos e proclamadores da fé. Justamente os que se dedicam por vocação e solidariedade ou por interesses escusos; exploração do próximo. Estes podem suscitar ou promover a fé dos outros, mas não a têm... Pelos menos aquela que "remove montanhas", por ser imensa; do tamanho de um grão de mostarda. Não é na cabeça que a fé habita. Ela mora no coração, e como foi dito, no coração puro. Naquele que sabe crer com todas as forças da sua ingenuidade, até mesmo no desempenho dos falsos "representantes do reino dos céus". Representantes que arrotam como suas, as graças eventualmente alcançadas pelos bem aventurados, por obra e mérito deles próprios... Da sua fé... Não do simples desempenho de quem apenas realiza shows e arrecada cachês da boa, velha e generosa fé pública. Tenho saudades de ter fé. Daquele tempo em que fui sábio, porque não era sabedor. Hoje lamento, embora veladamente, por não ter tido equilíbrio para não deixar que o saber corroesse a sabedoria. Que a cabeça embotasse o coração. Queria pelo menos poder juntar as extremidades, para não ser escravo da crendice nem do ceticismo. Não ser dominado pela ingenuidade cega dos fiéis a todo o custo nem pela intransigência da erudição que também cega. No fundo, creio que fugi de um fanatismo para cair em outro, por ser incapaz de achar o meio termo. Acho que preciso de um "Deus", um santo de argila, uma vaca ou uma casca de coco.