Frase de Maria Luiza Barros Grochvicz
Sobre me parecer com eles... Por Luiza_Grochvicz. Às vezes me perguntam: com qual filósofo você se parece? E eu fico em silêncio. Porque me parecer com alguém é sempre também uma forma de não ser ninguém por completo. Mas se for preciso traçar espelhos, que sejam espelhos em águas agitadas — nunca nítidos, sempre em movimento. Com Kierkegaard, compartilho a vertigem. Aquela dor silenciosa de estar vivo, de ser livre demais, de pensar tanto que quase se dissolve. A angústia dele não me assusta — ela me reconhece. Como se a alma dele tivesse escrito cartas para a minha, antes mesmo de eu nascer. Com Clarice, é o sangue da palavra. Não escrevemos — sangramos. Ela também sentia demais e dizia pouco, mas o pouco explodia. Clarice escreve como quem ama o que não entende. E eu também: escrevo para encontrar o que nunca procuro. Com Camus, compartilho o absurdo. A beleza de estar num mundo que não faz sentido, e ainda assim levantar todos os dias. Ele era o silêncio das pedras; eu sou talvez o sussurro do vento. Mas ambos sabemos: é preciso imaginar Sísifo feliz, mesmo com o peso da pedra. Com Beauvoir, é a liberdade. O incômodo. A recusa em aceitar que viver seja só obedecer. Ela pensava com coragem, sentia com lucidez. Me inspira a ser mulher sem rótulo, filósofa sem jaula, pensadora com pele. Me pareço com todos, e ainda assim, sou outra. Porque filosofar, pra mim, é tocar o invisível com palavras. É doer bonito. É pensar como quem ama demais.
No pensador.ai desde