Frase de Eu mermo
Se o arrependimento matasse, não restaria sopro algum sobre a terra — nem vento, nem voz, apenas o silêncio pesado de tudo o que poderia ter sido diferente. Carrego comigo essa estranha sina: a de nunca pisar sem antes duvidar do chão, a de nunca falar sem antes ensaiar o eco do erro. Cada gesto meu nasce já cansado, como se soubesse que será revisto, revirado, remoído até perder o nome. Penso antes, durante, depois — e, ainda assim, falho na paz. Há sempre um segundo pensamento que corrói o primeiro, um sussurro tardio que diz: “não era isso”, “não assim”, “não deveria ter tentado”. Minhas palavras saem vestidas de despedida, como se cada uma carregasse em si um pequeno morrer — o morrer daquilo que poderia ter sido dito melhor, ou calado por inteiro. E então me recolho, refaço diálogos que já não existem, reescrevo frases em um tempo que não volta, tentando salvar, em atraso, o que nunca esteve seguro. Se o arrependimento matasse, eu já teria partido incontáveis vezes. Mas permaneço: erguendo versões de mim sobre os escombros do que pensei ter errado, pintando o quadro da aquarela de meu engano e soprando o vento do meu amago. E, ainda assim, há um sopro teimoso em mim que insiste em continuar, mesmo sabendo que amanhã também haverá dúvida, e então depois, e depois.
No pensador.ai desde