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Frase de Felipe ARodrigues

"Eu nunca quis, não quero e nunca serei seu amigo" Eu transito. Entre países, fronteiras, bairros, cidades, entre uma fumaça e outra, entre amores que chegam e amores que viram saudade. Sou homem de passagem, de mala, de rua, de miragem, de beijo que acende a noite e de adeus que muda a paisagem. Acendo um cigarro no Hard Rock Café de Santa Cruz de la Sierra e, por alguns minutos, me sinto como um deus. Não porque conquistei alguém, mas porque ninguém me pertence e eu não pertenço a ninguém. Em Letícia, na Colômbia, danço cumbia amazônica entre mulheres, fumaça e madrugada, e descubro, mais uma vez, que há coisas que acabam sem jamais terem sido fracassadas. Pedalo por São Paulo e sou imbatível. A cidade passa por mim, os carros passam por mim, as pessoas passam por mim, e eu continuo. Acendo um cigarro diante da Fundação Mario Benedetti e a poesia me satisfaz. Porque aprendi alguma coisa sobre o amor, sobre a vida e sobre essa estranha mania humana de chamar de definitivo aquilo que nasceu transitório. Eu sou rei na arte de transitar. Sei chegar. Sei partir. Sei encontrar pessoas. Sei reconhecer seus rostos anos depois e fingir que o tempo não fez seu trabalho. Grande parte das mulheres que conheci dividiu comigo uma cama. Hoje, muitas são estranhas. E tudo bem. Não transformo o passado em mentira só porque ele passou. Houve amor. Houve desejo. Houve pele, risada, cigarro, madrugada, promessa que parecia eterna até a manhã seguinte provar o contrário. E depois? Depois, seguimos. Distintos. Como duas gotas de água. É assim que a vida me ensinou. Eu não preciso possuir o que amei para admitir que amei. Não preciso voltar para reconhecer que estive lá. Não preciso transformar uma mulher que foi amor em amiga só para fingir que alguma coisa permaneceu. E é aqui que você entra. Porque eu nunca quis ser seu amigo. Não naquela noite. Não depois daquele beijo. Não quando deitei ao seu lado. Não quando imaginei você ao meu lado para além de uma noite, de um bar, de uma cidade, de uma estação. Eu queria você. Não sua amizade. E eu não vou cometer agora a covardia elegante de chamar de amizade aquilo que um dia chamei de amor. Eu já tenho amigos. Tenho muitos. Tenho amigos suficientes para encher uma mesa de bar. Não me faz falta mais uma cadeira. Estou acostumado à solidão. A solidão nunca me assustou. Já atravessei fronteiras sozinho. Já atravessei cidades sozinho. Já atravessei países sozinho. Já atravessei amores sozinho. E sobrevivi. Então não me ofereça o prêmio de consolação. Eu não quero. O amor é arrogante. Tão arrogante que prefere perder a fingir que ganhou. Ele não aceita sobras. Não aceita redução. Não aceita que aquilo que desejou inteiro seja apresentado depois em pequenas porções com o nome bonito de amizade. Eu não quero a sua amizade como quem recebe uma medalha por ter perdido a guerra. Prefiro a derrota limpa. Prefiro a ausência verdadeira. Prefiro que você passe por mim num bar acompanhada ou desacompanhada, com alguém segurando sua mão ou segurando apenas o próprio copo. Já não me importa. Você pode me cumprimentar. Pode não cumprimentar. Pode sorrir. Pode seguir reto. Pode estar com outro homem, com outro amor, com outra vida. Nada disso me abala. Porque o que me importa agora não é ter você. É não mentir sobre você. Eu quis sua boca. Quis sua presença. Quis você ao meu lado. E não vou fingir que queria apenas uma amizade porque foi isso que restou. Não. Te ganhar ou te perder. Mas sem engano. Sempre sem engano. Porque a maior vitória não é possuir aquilo que se deseja. A maior vitória é não se possuir pela mentira. É poder perder alguém sem perder a própria verdade. Então vá. Atravesse a rua. Atravesse a cidade. Atravesse a fronteira. Faça da sua vida o que quiser. Eu farei da minha o que sempre fiz: transitarei. Com meu cigarro. Minha bicicleta. Minha poesia. Meus bares. Minhas cidades. Minhas mulheres. Minha solidão. E essa estranha capacidade de amar profundamente sem precisar transformar todo amor perdido em amizade. Porque algumas pessoas não foram feitas para permanecer. Foram feitas para passar. E algumas histórias não precisam de amizade depois do fim. Precisam apenas de honestidade. Por isso, se algum dia você me encontrar naquela mesa de bar, não procure uma cadeira vazia para mim. Eu já aprendi a sentar sozinho. E se quiser me chamar de amigo, não. Eu nunca quis. Não quero. E nunca serei. Porque entre te perder e me enganar, eu escolho perder. Entre a sua amizade e a minha verdade, eu escolho a verdade. Entre ter você pela metade e não ter você de jeito nenhum, eu escolho o vazio. Porque o vazio passa. A mentira fica. E eu, que sou tão acostumado a partir, não tenho medo de partir de você. Tenho medo apenas de permanecer onde nunca quis estar. Te ganhar ou te perder. Mas sem engano. Essa é a vitória.

Felipe ARodrigues

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