Frase de IvoMattos
O Sapo-Boi da Geladeira A fazenda era cinematográfica. Enorme. Tinha cerca de 15 mil alqueires, grande parte deles preservados. O proprietário era o senhor José Cândido Teixeira, cunhado do meu cunhado e primeiro prefeito de Santa Mariana. Ele não morava na fazenda, mas estava sempre por lá. A casa-sede era dividida em três corpos. Em um deles ficavam a cozinha e a despensa. Em outro, totalmente aberto e bem ventilado, havia um salão enorme com uma grande mesa onde fazíamos as refeições. Era também o lugar de jogar conversa fora, contar causos e passar o tempo. Na terceira parte ficavam os dormitórios: duas suítes e mais dois quartos. Nesse salão, apesar de não haver energia elétrica na fazenda, existia uma geladeira movida a querosene. Como funcionava, eu não sei explicar. Só sei que funcionava muito bem. Debaixo dela morava um tremendo de um Sapo-Boi — assim mesmo, com letras maiúsculas, em homenagem ao tamanho do bicho. Ele só saía durante a noite. Imagino que fosse procurar comida e cuidar dos seus afazeres de sapo. Mantínhamos uma relação baseada em respeito mútuo e distância regulamentar. Numa tarde de calor escaldante, eu estava sem camisa, parado no salão, olhando distraidamente para o lado de fora da casa. De repente, senti algo gelado e úmido grudando nas minhas costas. No mesmo instante ouvi a voz do meu cunhado: — Adivinha quem está nas suas costas? Meu Deus... o Sapo! Disparei numa correria desesperada. Corri tanto que levei o infeliz grudado em mim por um bom pedaço do caminho. Passados alguns dias, lá estava ele novamente, vivendo sua rotina normal, acomodado sob a geladeira, em sua confortável casa refrigerada. Quanto a mim, nunca mais fiquei parado perto daquele lugar sem antes conferir quem estava atrás de mim.
No pensador.ai desde