Frase de rodriguesnutshell
Silêncio Músicas que ressoam o nada, gritam — o ouvido estraçalha. O meu cúmplice que vira, esse silêncio guardado. E esse silêncio rasga, atravessa a alma fraca, como penitência fria, quietinho me abraça. Silêncios que gritam, verdades caladas. Grito preso é silêncio armado, municiado e vestido de luto sagrado. Fala mais alto que o fôlego permite. Calado, ele grita; gritando, ele cala. Cárcere privado dentro de mim, confortável veneno. O silêncio revela o que o barulho disfarça, o que a palavra teme, o que o tempo guarda. E o que o silêncio guarda? Além de segredos, mentiras e piadas? E o que ele mata? Além das verdades, vontades e a alma? Guarda cartas nunca enviadas, guarda abraços negados, guarda beijos molhados, guarda o gosto amargo dos “nunca mais” e dos “quem sabe um dia”. Mata risos pela metade, mata sonhos no olhar cansado, mata desejos acorrentados, mata o amanhã no ontem enterrado. Não falo do silêncio externo, mas daquele interno, que a gente tranca e alimenta, pouco a pouco, com migalhas. Silêncio que abraça, engolindo palavras, sufocando pensamentos, despindo a alma. Como eu o calo? Escrevo em tormento nesse silêncio que me acompanha dia e noite, enquanto trabalho, enquanto rio, enquanto falo, enquanto disfarço. Ele se deita comigo, divide o travesseiro, morde o meu sono. É sombra no peito, é nó na garganta, é frio na barriga, é relógio parado. E quando penso que partiu, ele retorna, paciente, sentando-se à mesa com um prato vazio. (esperando as migalhas) Come do meu cansaço, bebe da minha espera, e ri sem fazer barulho. O silêncio não é ausência, é presença severa, é voz oculta, é juiz sem sentença. No fim, pergunto: se eu quebrar o silêncio, o que sobra de mim?
No pensador.ai desde