E então, eu me encontrei. Perdida. Não tão perdida quanto aqueles olhos que derramavam doçura a cada piscar. Eu me joguei numa ilusão de realidades, caindo da nuvem mais alta. Era aquilo o que eu queria. E então, eu me encontrei. Feliz. Já não sabia se aquilo ela alegria, alívio ou tortura, talvez por pensar toda a noite nos olhos profundos que cedo viriam me acordar. E então, eu me encontrei. Sonhando. E já não sabia se aquele filme onírico faria parte da minha realidade, eu detestei a realidade...desde que ela me levou àqueles olhos que só pude encontrar depois de cair da nuvem mais alta. E então, eu me encontrei. Com as mãos suspendidas e cheia de súplicas, no meio de uma multidão que não parecia me ouvir. E então, eu te encontrei. Calando meu grito, erguendo-me do chão, clareando o céu e me olhando com aqueles olhos profundos. Os olhos dos meus sonhos eram os olhos de um anjo. Mas o filme onírico depois que eu te encontrei, eu o vivo a cada dia.
Um dia eu sentei ao lado do meu avô e ele me disse "Não posso partir sem te ver lá em cima.", e eu achei que ele estava gagá. Era quase meia noite e estávamos na varanda. O céu sem estrelas da metrópole cedia lugar às nuvens acinzentadas. Eu aguardava meu pai. Meu avô é um homem sábio...sábio até demais. Mas eu ainda não entendia o que ele quis dizer. Insistiu em esconder.
Naquela noite discutimos política, ciência, história e geografia. Falamos mal dos latifundiários e endeusamos os filósofos gregos. "Que gagá, que nada?!" - retruquei em pensamento - ele sabe mais que eu, e nem pisa os pés numa escola.
Era 1:15 da manhã e a porta se abriu. Me levantei da cadeira da varanda, lhe dei um beijo pedindo a benção e me retirei. Quase passando pela porta da sala ele me gritou. Fiquei de pé ao seu lado, ele não desviou seu olhar que estava fixado no horizonte dos arranha-céus. "Eu quero te ver no lugar mais alto do pódium. Quero te ver com um papelzinho enrolado nas mãos levantando de uma forma ridícula enquanto as pessoas aplaudem, e posso até lhe permitir uma valsa. Mas só quero te ver feliz. E me prometa uma coisa..." "Seja o que for, diga" "Cuida da nossa família, ela é a sua base - você sabe que eu sei - não se desprenda do que é forte e verdadeiro. Afinal, é pra isso que você está neste mundo.". Fixou-se nos arranha-céus mais uma vez, acendeu seu cigarro,golou a cerveja e eu parti. Naquela noite, os meus sonhos me levaram onde eu nunca imaginava poder estar.
Não. Eu não sou perfeita. Nem pretendo ser. Sou um pouco curiosa demais, ciumenta demais, exagerada demais, dramática demais, sensível demais, feliz demais - até isso incomoda as pessoas - relevo. Mas não sou pequena. Eu sou de um tamanho que ninguém pode ver... pequena para o mundo e gigante demais pra todo mundo. O meu maior defeito pode ser a bondade, a ternura e paciencia que tenho até com aqueles que não merecem. E eu não sou nada perfeita. Nem pretendo ser.
Eu olho em seus olhos e nunca consigo mentir. Eu confesso que viajo assombrosamente naquele olhar. Eu confesso que vejo um filme passar quando vejo aquele olhar, eu não decifro aquele sorriso mas sei que ele sempre me pertenceu, eu sei que ele sempre me fez feliz. E alguma melodia soa quando me abraça, e quando me tocas uma voz me chama e diz : não deixe partir. E eu obedeço.
Não tenho forças longe de você, é como um anjo sem asas, é como... eu sem você. Já não existe, já não faz sentido, já não da pra acreditar e muito menos imaginar. É impossível.
Eu encontrei no seu abraço a minha respiração, eu encontrei nos seus olhos tudo o que eu queria enxergar. Eu enxerguei nos meus erros tudo o que eu queria ser. Eu enxerguei na saudade você. Eu enxerguei em você um amor. Que não se explica, nem se resume. E agora eu só sinto. Sinto sua voz, sinto você nos meus sonhos. Eu ouço seus passos chegando com o pôr-do-sol gritando que milhas de distância só nos faz crescer. E eu te amo, mais que nunca, através do sempre, além da vida.