O jarro
Às vezes sinto que sou como um jarro cheio de água límpida pronta para saciar gargantas secas;
Outrora um jarro de barro pesado e sem serventia;
Jarro vazio já fui um dia;
Hoje somente trago a certeza de que vazio não sou mais.
Fome
Sentíamos fome, todos juntos, dividíamos o pouco que possuíamos em total harmonia como se nada nos faltasse.
Apesar de tentar ignorar, ela doía e incomodava. Causava uma sensação de despertar o espírito e para enganar eu fumava, bebia café preto e água.
Na comunidade disfarçávamos, todos a conheciam, mas a verdade é que o que eu comia me dava somente mais fome!
E os dias se passavam, mas na ilusão de ter o amor em mãos seguras, eu era feliz
Encaixe
Ficar anos a fio do lado de fora batendo numa porta que nunca se abriu;
Todas as tentativas foram em vão!
É como chegar à mesa para fazer a refeição e na hora de sentar-se perceber que seu lugar simplesmente não está posto.
Você se encontra fora do contexto, não se encaixa e o ambiente te rejeita, a cabeça pesa e por alguns instantes consegue sentir a própria respiração, a ansiedade aflora numa tentativa alucinante de agradar.
Tem que se vigiar, calar, nunca ousar...
Mas, como obter êxito se somente sua presença já causa entojo?
O passado não se apaga e a consciência está presente no silêncio mortal.
Um ar sombrio e carregado aparente na feição, o que se esconde atrás daquele olhar opaco? Coisas boas certamente não!
Sem querer, percebo carimbada a estampa dos meus antepassados; todos os erros e mágoas me foram cobrados!
Mas eu não sou os outros, sou eu mesma!
Nunca houve uma avaliação, tudo foi previamente traçado num plano de exclusão que somente veio à tona após muitos anos de reflexão.
Antes tarde do que nunca.