O pensamento voa longe
rumo às campinas e às montanhas.
Nas paisagens verdejantes
repousam as vozes do lugar.
As ovelhas na estrada
passeando em desalinho,
sem cercas ou obstáculos,
serenas pelo caminho.
Eis que de repende,
o cenário se transforma
e nos causa comoção.
Surgem abismos gigantes,
pedras muito grandes
e caminhos sem direção.
Na estrada é só barreira
e na vida solidão.
Aperto os olhos novamente
na esperança de mudar
toda aquela imagem tosca
que me segue sem parar.
Rogo a Deus por piedade,
suplico por caridade
do pesadelo acordar.
A porteira enfim se abre
para a ovelha atravessar.
Ouço o canto das aves.
Sinto o toque do plantar.
Cheiro o perfume das flores
Que enfeitam o lugar.
Respiro aliviado.
Já chegou o amanhecer.
Levanto ligeiro da rede
para o santo agradecer.
Pés calcados, corpo vestido,
destino a se desenhar.
O esboço se alinha
com o desejo de mudar.
.
Com meu melhor sorriso e um brilho no olhar,
caminho ao lado do tempo
instigando o semear.
Hoje, ensaio os traços no vento
Amanhã, pinto estrelas ao luar.
Valnia Véras
A cortina de seda marinho cobre os sonhos da menina, provocando lamentos sentidos e tristes melodias pelo ar.
Eis que bem na pontinha do tecido, um belo bordado branco se desnuda tímido ante os raios do luar.
O semblante inteiro muda o tecido furta-cor, as figuras transmutando, saltitando dor e cor...
E os pontilhados insistentes pingam no coração da gente nos fazendo um sonhador.
Muitas cores no caminho
Inúmeros espinhos entre as belas flores...
Faces ocultadas por tirânicas verdades
Lágrimas vertidas em nome de um conceito vazio...
Diante do belo arco-íris a vida se renova
trazendo à tona tesouros inestimáveis...
Retratos de Amor e de Inclusão.
Valnia Véras
As horas passam vagarosamente,
fazendo do silêncio o meu fiel companheiro.
Diante do relógio mudo,
ouço apenas o ressonar do tempo ao meu ouvido...
No filme, escondido na fita cassete,
registros das lamúrias e dos sorrisos
perdidos no tempo timoneiro,
que já cansado voa em direção ao infinito.
Ouço a melodia do vento
Vejo os lampejos no ar
Canto com os passarinhos
Espalho os véus ao luar
Com o vento vêm os amores
Em lampejos de luz cintilar
Nos ninhos, ausentes pudores
Uníssonos …
Em flor rutilar.
Uma paleta de cores.
Sem amores.
Uma paleta de aparência.
Sem essência.
Engessada!
Cansada!
Esgotada!
Gravada.
No fundo de uma caixinha compartimentada.
Rascunhada ...
Num leque sem flores.
Valnia Véras
A lágrima repousa diante do pequenino espelho
ensaiando, espreitando-se...
Face a surpresa da menina.
No cristalino cintila a notícia televisiva
APRISIONANTE, indigna de um relance,
QUIÇÁ de um breve olhar.
Os vagalumes chegam tímidos diante da escuridão,
mas pouco a pouco, corpo a corpo traçam um caminho de estrelas,
enfeitando a amplidão.
Tal qual os vagalumes, transmuta-se meu coração,
que sentindo tua presença, os teus passos na estrada...
Alumia de alegria, registrando poesia
e soprando pra bem longe minha imensa solidão
Os gritos do vento assolam a alma em acordes inquietantes, cintilantes, desnudando o instante num piscar de olhos.
Os cenários parecem descrever o futuro de incertezas que chega ululante, insistente, desafiador.
Os sonhos uivantes anunciam liberdade, transformação, um novo mundo descortinando-se.
Premonição? Ou apenas os lamentos do vento?
Osssss....
No meu eu, há um encontro de almas, de sorrisos e de amores.
No meu eu, repousa um grito de alegria embrulhado num restinho de amor.
No meu eu de muitas moradas, ensaio o desvendar das faces dispostas no espelho.
No meu eu, as vezes trago interrogações, exclamações e reticências, jamais um ponto final.
No meu eu, jazem todas as dúvidas e algumas poucas descobertas.
No meu eu, repousam os sonhos quase impossíveis.
O olhar perdido na imensidão...
Sem esperança.
Sem brincadeira.
Apenas labuta.
EXPLORAÇÃO.
No brotar de um novo dia,
vem também a ilusão.
Na mente infantil, o jargão repete-se frenético:
“O trabalho dignifica o homem”
e se transforma em pão.
Mas para a criança franzina,
que apenas sobrevive
nesse mundo
de violência e exclusão,
DIGNIDADE, TRANSFORMAÇÃO, são palavras vazias
Que reforçam a exploração.
As horas perdidas com o trabalho precoce
criam fantasmas assustadores
diante da escola e da diversão.
O jovem sofrido, faminto...
Culpa-se por sonhar
nos raros instantes de descanso...
Com uma partida de futebol
Com um pedaço de bolo
Com uma roupa de segunda-mão.
Vestindo diariamente
a mortalha na vida e no coração.
Ao mirar-se no espelho se contorce livre e bela,
com passos elegantes, sempre a rodopiar.
Saltos livre e imprecisos.
Num cenário a ensaiar.
Com a vida, chegam os anos e também o despertar
para mistérios instigantes e desafios a superar.
Mas para quem não entende nada, o remédio é só calar.
O espelho cintilante mostra a figura altiva,
que outrora lhe sorria, mas agora é só chorar.
A história contada é triste,
com gritos roucos, abafados, que não cansam de chegar.
O espelho amigo, entretanto, que não desiste jamais,
desperta
descortina e
mostra
uma existência fugaz.
Passos, valsas, cantigas de ninar.
Ao vento poemas e músicas.
Em frente ao pequenino espelho…
Toda a vida se reflete na palavra transformar.
Eu vejo nos olhos seus uma imensa escuridão
Apresso- me junto ao tempo para tocar sua mão.
Mas, estas já tão enrugadas,
jazem vazias,
perdidas sem direção.
Nas vozes mudas que ecoam por toda parte
ouço os gritos de exclusão.
Em cada esquina
um lamento
um suspiro sem emoção.
De longe, sinto o peito cansado.
Sem ar
Sem vida
Sem coração.
Valnia Véras
Poemas são álbuns de fotografias que contam histórias de existências.
Cada verso perfuma uma vida,
enfeita um vaso com flor.
As rimas são livres...
Entre as metáforas jogadas ao vento,
repousa
um retalho multicor...
Em cada mulher que habita meu ser,
reflete-se-se o desejo de discursar,
debulha-se a certeza do semear,
registra-se a força do querer...
Transsss formar
a vida em flor,
em liberdade
e amor.
Valnia Véras
Ser mulher num corpo, ainda diz pouco sobre a alma feminina.
Ser mulher é pensamento em
construção,
desabrochar em existência,
embrenhar-se em poesia,
perfumar o coração.
Quando o vento me soprar para longe,
procure-me no canto dos passarinhos,
nas poças de lama pelo caminho,
em cada sorriso roubado
nos parapeitos das janelas...
Diante do espelho, ouço os gritos de socorro da menina,
que ainda acredita num punhado de esperança,
soprado ao luar.
Diante do espelho, vejo a súplica no olhar da moça,
que ainda semeia verdades numa cova de aparências,
sem cor, desbotada, falseada...
Diante do espelho, sinto a angústia da mulher,
que ainda ousa pensar diferente em meio as caixas e padrões da existência.
Ponto a ponto, lado a lado, sem frestas de liberdade...
Diante do espelho, uma vida passa e algumas lagartas viram borboletas...
Nas ruas da cidade nua
Sob o frio orvalho da noite,
sombreiam-se os meus cabelos brancos,
cansados da vida severina,
pingada nas ruas da cidade nua...
Vagueiam infinitos fantasmas,
repousam castelos assombrados,
escondem-se os gritos de medo por entre
as ruínas dos sonhos que não brotaram...
Quando o sol chega no horizonte.
É hora de levantar...
Recolher o papelão,
esconder o lençol da miséria
e Zumbitear pela vida.