Eu cansei de ver você se desculpar por não dar conta de tudo enquanto carrega no colo quem nunca te perguntou se você estava bem. Solta esse choro que está arranhando a sua garganta faz meses, porque o teu valor não diminui só porque hoje você precisa de colo para não sumir no escuro.
Esconde o rosto no meu peito e chora aquele choro entalado que você engole todo dia para os outros não verem que você está sangrando por dentro. Você passou tanto tempo sendo o porto seguro de todo mundo que esqueceu que também tem o direito de desabar; deixa eu segurar o teu mundo um pouquinho, porque a tua dor não te faz fraca, ela só prova o tamanho da força que você teve que ter até aqui.
Eu fui trocar a lâmpada queimada do corredor ontem à noite e, quando fiquei ali no topo da escada, no escuro absoluto, percebi que o meu maior medo não era cair dali, mas sim o fato de que eu já não lembro se você preferia a luz quente ou a luz fria para a nossa casa; desci os degraus tateando a parede, sentei no chão e chorei feito um menino ao entender que o tempo está apagando os seus detalhes de mim, e que eu estou perdendo você de novo, só que agora dentro da minha própria cabeça.
Guardei nossa história no avesso do meu peito, naquele universo bonito que só a gente entendia. Perder você não foi ver o amor acabar; foi ver o amor virar saudade viva, dessas que caminham comigo pela casa, tomam o café frio e me lembram, a cada segundo, que o coração até continua batendo, mas agora bate sem ritmo, tentando imaginar os passos de alguém que nunca mais vai voltar.
Eu sei que o teu peito está sangrando e que engolir o choro para parecer forte tem rasgado a tua alma por dentro. Mas me dá a tua mão: você não precisa carregar o peso do mundo sozinha só porque aprendeu a aguentar a dor em silêncio; a tua sensibilidade não é fraqueza, é o lugar de onde a tua reconstrução vai começar.
O mundo capota tão rápido que o mesmo braço que hoje serve de abrigo e faz uma mulher se sentir a pessoa mais segura do universo, amanhã pode ser o mesmo que puxa o gatilho ou aperta o pescoço. A lição mais dolorosa e urgente que a vida nos esfrega na cara é que o monstro nunca avisa quando vai chegar; ele entra fantasiado de amor da sua vida, e a nossa maior fraqueza é sangrar por quem jurou que morreria por nós.
Muitas vezes, confundimos maturidade com permanência. Julgamos quem se afasta, exigimos justificativas e transformamos o silêncio do outro em uma ofensa pessoal. Mas a verdade é que o desinteresse também é uma resposta honesta, ainda que dolorosa. Forçar a barra para caber na rotina ou na atenção de alguém é desandando a própria dignidade.