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Frases de Thiago de Mello

46 frases

O mar, sempre desperto, na verde espera da barca mensageira.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas.
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Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem. Santiago do Chile, abril de 1964

Ainda Não é o Fim Escondo o medo e avanço. Devagar. Ainda não é o fim. É bom andar,
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Ainda Não é o Fim Escondo o medo e avanço. Devagar. Ainda não é o fim. É bom andar, mesmo de pernas bambas. Entre os álamos, no vento anoitecido, ouço de novo (com os mesmos ouvidos que escutaram “Mata aqui mesmo?”) um riso de menina. Estou quase canção, não vou morrer agora, de mim mesmo, mal livrado de recente e total morte de fogo. A vida me reclama: a moça nua me chama da janela, e nunca mais e lembrarei sequer dos olhos dela. Posso seguir andando como um homem entre rosas e pombos e cabelos que em prazo certo me devolverão ao sonho que me queima o coração. Muito perdi, mas amo o que sobrou. Alguma dor, pungindo cristalina, alguma estrela, um rosto de campina. Com o que sobrou, avanço, devagar. Se avançar é saber, lâmina ardendo na flor do cerebelo, porque foi que a alegria, a alegria começando a se abrir, de repente teve fim. Mas que avançar no chão ferido seja também saber o que fazer de mim.

Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro,
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Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar. Vale a pena não dormir para esperar a cor do mundo mudar. Já é madrugada, vem o sol, quero alegria, que é para esquecer o que eu sofria. Quem sofre fica acordado defendendo o coração. Vamos juntos, multidão, trabalhar pela alegria, amanhã é um novo dia.

E Resistentes como a água… Ser capaz, como um rio que leva sozinho a canoa que se cansa, de servir de caminho para a esperança.
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E Resistentes como a água… Ser capaz, como um rio que leva sozinho a canoa que se cansa, de servir de caminho para a esperança. E de lavar do límpido a mágoa da mancha, como o rio que leva, e lava. Crescer para entregar na distância calada um poder de canção, como o rio decifra o segredo do chão. Se tempo é de descer, reter o dom da força sem deixar de seguir. E até mesmo sumir, para, subterrâneo, aprender a voltar e cumprir, no seu curso, o ofício de amar. Como um rio, aceitar essas súbitas ondas de águas impuras que afloram a escondida verdade nas funduras. Como um rio, que nasce de outros, saber seguir, junto com outros sendo e noutros se prolongando e construir o encontro com as águas grandes do oceano sem fim. Mudar em movimento, mas sem deixar de ser o mesmo ser que muda. Como um rio.

Fio de vida Já fiz mais do que podia Nem sei como foi que fiz.
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Fio de vida Já fiz mais do que podia Nem sei como foi que fiz. Muita vez nem quis a vida a vida foi quem me quis. Para me ter como servo? Para acender um tição na frágua da indiferença? Para abrir um coração no fosso da inteligência? Não sei, nunca vou saber. Sei que de tanto me ter, acabei amando a vida. Vida que anda por um fio, diz quem sabe. Pode andar, contanto (vida é milagre) que bem cumprido o meu fio.

Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo,
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Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar. É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos. Se trata de ir ao encontro. (Dura no peito, arde a límpida verdade dos nossos erros.) Se trata de abrir o rumo. Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.

⁠A luz que me abriu os olhos para a dor dos deserdados e os feridos de injustiça,
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⁠A luz que me abriu os olhos para a dor dos deserdados e os feridos de injustiça, não me permite fechá-los nunca mais, enquanto viva. Mesmo que de asco ou fadiga me disponha a não ver mais, ainda que o medo costure os meus olhos, já não posso deixar de ver: a verdade me tocou, com sua lâmina de amor, o centro do ser. Não se trata de escolher entre cegueira e traição. Mas entre ver e fazer de conta que nada vi ou dizer da dor que vejo para ajudá-la a ter fim, já faz tempo que escolhi.