O tempo sem pressa
Não me pergunte que horas são
mas me diga, que oração devo fazer
para que o tempo passe mais devagar
para que a vida ande em câmera lenta
para que todos os bons momentos
passem bem devagarzinho
como um barquinho
deslizando lentamente no mar
Me diga que oração devo fazer
Para que meus olhos não ceguem
para que meu corpo não pare
para que as coisas melhorem
para que o tempo não passe
sem antes eu amar tudo que queira
sem antes eu sonhar tudo que deva
sem antes eu viver uma vida inteira
me diga que oração devo fazer
Para que eu consiga realizar tudo
que gostaria
para que eu consiga vencer
os obstáculos, as armadilhas
para que eu possa ver os filhos
dos filhos da minha filha
para que eu possa envelhecer
ao lado da minha mulher
e ainda poder dizer eu te amo
sem se importar com as rugas no rosto e
os cabelos brancos
A vida é passageira para quem tem pressa
Eu não tenho, quero que ela passe
bem devagarzinho
como um barquinho deslizando lentamente no mar
Então não me pergunte que horas são
me diga que oração devo fazer
para que o tempo passe bem devagar
A lei de Dom Casmurro
A dúvida me assombra
E a certeza me corrói
Não quero ver com os olhos vendados
O que está tão claro diante de nós
A incerteza de Dom Casmurro
É o que mais me dói
Seja ele um cego ou um mudo
Ama cegamente o que lhe destrói
Assim como eu neste amor profundo
Mergulho intensamente nesse mar de nós
É a tal beleza que nos fascina
Nos encanta, nos cega, e nos domina
É sentir o aperto de um coração que grita
Aceitamos as levezas da alma
Quem não ama aponto de aceitar?
Na pior das hipóteses é melhor ficar com a dúvida
A certeza é fulminante
Pois quem culpa, julga e tortura
Pelos simples capricho de não aceitar
Nobres anzóis
Com os olhos vendados eu posso ver
Minha carne pendurada em arpões
Como anzóis que brilham no escuro
Cortejando bocas de dragões
É um sofrer que castiga e que dói
Rasgando lentamente o que se foi
Quero o colo de minha mãe para me deitar
Quero o abraço de meu pai para me abraçar
Já que não tenho teus lábios
Tua boca
Tua língua louca
Para me beijar
Talvez eu desça desses arpões
E volte a andar
O que me espera depois?
Talvez um novo amor
Para amar
Oráculo dos tigres
As patas dos tigres sangraram
Impregnando de sangue a terra vermelha
Enquanto o vento soprava no sertão seco
E o sol rachava no meio da cabeça
Dei-me um pouco de água, tu que nunca choraste
Se a lágrima não fosse salgada eu bebia
Matava minha sede com a dor da minha agonia
Não tenho água pra beber!
Nem esperança para esperar
Desde criança meus pés fritam neste chão ardido
Minhas sementes não crescem
Minha cabra não dá leite
Fico aqui observando os urubus
Que esperam ansiosamente a hora de me devorar
No sertão não existe paraíso
No sertão só existe a dor
É como um templo sem igreja
E ovelhas sem pastor
Segui a sina nordestina
De morrer com os olhos secos de sol
Ou seriam de mar?
Depois de tanto chorar
Depois de tanto sofrer
Quero um pouco de água pra beber
Quero um pouco de vida pra viver
E mais um homem bom morreu na terra dos tigres
Depois de tanto sangrar..................