Pessoas entram e saem da nossa vida, mas a gente sempre se pergunta: Por que ela foi embora? E a gente nunca diz: Que bom que você surgiu em minha vida. E é o que eu tenho feito. Tenho sido grata por cada pessoa que entrou em minha vida e por cada lembrança boa que essa pessoa me deixou.
Eu gostava tanto de ouvir o silêncio, mas naquela casa nunca se ouvia. Quando ligavam a televisão, ficava eu irritada. Só se via e ouvia notícia ruim. Eu preferia o barulho de meus livros e minhas músicas que me embalavam a alma. Eu preferia meu mundo de paz. Talvez um dia eu vá sentir falta do barulho daquela casa. Talvez quando eu ficar velha e só.
Nós estávamos na quadra conversando com uns amigos, quando ele me perguntou:
- Por que tanta tristeza, Sabrina?
- Um dia eu te conto.
Eu havia demorado alguns segundos para responder àquela pergunta. "Você sabe", pensei comigo mesma.
Ultimamente eu não tenho conseguido fazer mais nada. Não tenho mais estudado para as provas escolares, não tenho feito minhas tarefas, não tenho mais lido meus livros, não tenho mais escutado minhas músicas, não tenho mais escrito, nem tenho mais pensando em nós. Ultimamente tenho estado mais vazia que pacote de bolacha inútil.
Então eu era jovem. Então eu estudava numa escola qualquer de uma pequena cidade. Então eu tinha um professor. Então eu me apaixonei por ele. Então não contei nada há ele. Então alguns anos se seguiram e eu continuei amando-o. Então ele arranjou uma namorada e ela engravidou dele. Então ele próprio me disse que seria papai. Então eu disfarcei meu horror, dei-lhe os parabéns e vim embora. Então, ao chegar em casa, desabei no meu quarto. Então eu morri por dentro, e naquele instante eu soube que eu estava morta pelo resto de minha vida e que nada nem ninguém me faria reviver. Então eu vivo morta por dentro. Então essa é a porcaria de vida que eu levo.
Vida sem sentido
Caminho por todos os lados
Não encontro nenhum abrigo
Nenhuma rua, nenhum amigo
Vivo sem sentir, sem viver
Apenas existo por aí
Como um sopro de vento
Quando bate por bater
Me arrasto por obrigação
Existo porque é minha opção
Não parto por medo
Mesmo que eu negue
Nem sequer tento, pois não quero
Magoar os parentes e uns poucos amigos
Eu gostaria de tentar, sim
Queria receber um beijo da morte
Queria vê-la perto
Sem vê-la à me velar
Queria engolir umas cápsulas
Junto com uns goles de uísque
Mas eu queria ficar ali para sempre
Eu não queria morrer
Mas eu também não queria voltar à vida
E ainda ter que me explicar
E ouvir: Por quê?
Os filósofos são racionais porque não querem ser sentimentais para então não sentirem dor. Para não se machucar. Eu poderia ser racional, mas prefiro continuar sendo sentimental demais e, assim, sofredora demais. Não tenho medo de sofrer mais do que já sofri. Pelo menos assim eu sei que estou viva.
E então ele veio me dizer que seria papai. Ele próprio, minha alegria, veio me trazer a tristeza. Veio me contar que teria um filho com outra mulher. E eu? Eu só tive tempo de olhar para o chão enquanto uma colega dava-lhe os parabéns. Eu só tive tempo tempo de sentir que eu estava morrendo. Eu mal conseguia respirar. Mas, ainda assim, eu consegui, de algum lugar, tirar forças para dar-lhe os parabéns e desejar-lhe toda a felicidade do mundo. E saibas, caro leitor, que eu estava sendo a pessoa mais sincera deste mundo. Eu queria que ele fosse feliz, mesmo que isso custasse a minha felicidade. E pelo visto custou.
Hoje eu observei crianças. Vi fotos de crianças e vi-las correr com a maior inocência do mundo. E eu vi seus pais felizes. E eu vi seus pais cuidando de seus filhos com todo o amor do mundo. E então eu me lembrei que em breve você também será papai. E você também vai se sentir feliz ao lado de sua namorada e de seu filho. E eu me lembrei que vocês serão felizes, e você vai ter um filho que não vai sair de meu ventre, como um dia eu sonhei. Mas ainda assim, espero que saibas que desejo a você a sua família todo a alegria desse mundo.