Pular para o conteúdo

Frases de Pablo Neruda

194 frases

O Poço Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio,
Continuar lendo

O Poço Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio, em teu abismo de orgulhosa cólera, e mal consegues voltar, trazendo restos do que achaste pelas profunduras da tua existência. Meu amor, o que encontras em teu poço fechado? Algas, pântanos, rochas? O que vês, de olhos cegos, rancorosa e ferida? Não acharás, amor, no poço em que cais o que na altura guardo para ti: um ramo de jasmins todo orvalhado, um beijo mais profundo que esse abismo. Não me temas, não caias de novo em teu rancor. Sacode a minha palavra que te veio ferir e deixa que ela voe pela janela aberta. Ela voltará a ferir-me sem que tu a dirijas, porque foi carregada com um instante duro e esse instante será desarmado em meu peito. Radiosa me sorri se minha boca fere. Não sou um pastor doce como em contos de fadas, mas um lenhador que comparte contigo terras, vento e espinhos das montanhas. Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom. Não te firas em mim, seria inútil, não me firas a mim porque te feres.

Não... Depois de te amar, Eu não podria amar mais ninguém.
Continuar lendo

Não... Depois de te amar, Eu não podria amar mais ninguém. De que me importa se as ruas esntão cheia de homens, esbanjando beleza e promessas ao alcance das mão. Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão. Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo. Quantas vezes ouvi teu riso, rindo feliz Como um guizo em tua boca. E a todo momento sem te beijar, eu estava te beijando; Com as mãos, com os olhos, com o pensamento numa ansiedade louca.

Não estejas longe de mim um só dia, porque como, porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia, e te estarei esperando como nas estações
Continuar lendo

Não estejas longe de mim um só dia, porque como, porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia, e te estarei esperando como nas estações quando em alguma parte dormitaram os trens. Não te vás por uma hora porque então nessa hora se juntam as gotas do desvelo e talvez toda a fumaça que anda buscando casa venha matar ainda meu coração perdido Ai que não se quebrante tua silhueta na areia, ai que não voem tuas pálpebras na ausência: não te vás por um minuto, bem-amada, porque nesse minuto terás ido tão longe que eu cruzarei toda a terra perguntando se voltarás ou se me deixarás morrendo

Não te quero senão porque te quero, e de querer-te a não querer-te chego, e de esperar-te quando não te espero,
Continuar lendo

Não te quero senão porque te quero, e de querer-te a não querer-te chego, e de esperar-te quando não te espero, passa o meu coração do frio ao fogo. Quero-te só porque a ti te quero. Odeio-te sem fim e odiando te rogo, e a medida do meu amor viajante, é não te ver e amar-te como um cego. Talvez consumirá a luz de Janeiro, seu raio cruel meu coração inteiro, roubando-me a chave do sossego, Nesta história só eu me morro, e morrerei de amor porque te quero, porque te quero amor, a sangue e fogo.

Depois de tudo te amarei como se fosse sempre antes como se de tanto esperar
Continuar lendo

Depois de tudo te amarei como se fosse sempre antes como se de tanto esperar sem que te visse nem chegasses estivesses eternamente respirando perto de mim. Perto de mim com teus hábitos, teu colorido e tua guitarra como estão juntos os países nas lições escolares e duas comarcas se confundem e há um rio perto de um rio e crescem juntos dois vulcões. Perto de ti é perto de mim e longe de tudo é tua ausência e é cor de argila a lua na noite do terremoto quando no terror da terra juntam-se todas as raízes e ouve-se soar o silêncio com a música do espanto. O medo é também um caminho. E entre suas pedras pavorosas pode marchar com quatro pés e quatro lábios, a ternura. Porque sem sair do presente que é um anel delicado tocamos a areia de ontem e no mar ensina o amor um arrebatamento repetido.

Quero que saibas uma coisa. Tu sabes como é: se olho a lua de cristal, os galhos vermelhos do outono em minha janela,
Continuar lendo

Quero que saibas uma coisa. Tu sabes como é: se olho a lua de cristal, os galhos vermelhos do outono em minha janela, se toco junto ao fogo as impalpáveis cinzas no corpo retorcido da lenha, tudo me leva a ti, como se tudo o que existe: aromas, luz, metais, fossem pequenos barcos que navegam em direção às ilhas tuas que esperam por mim. Agora, bem, se pouco a pouco tu deixares de me querer pararei de te querer pouco a pouco. Se de repente me esqueceres não me procure, pois já terei te esquecido. Se consideras violento e louco o vento das bandeiras que passa por minha vida e decidires me deixar às margens do coração no qual tenho raízes, lembra-te que nesta dia, a esta hora levantarei os braços e minhas raízes partirão em busca de outra terra. Mas se em cada dia, cada hora, sentires que a mim estás destinado com implacável doçura, se em cada dia levantares uma flor em teus lábios para me buscares, oh meu amor, oh minha vida, em mim todo esse fogo se reacenderá, em mim nada se apaga ou se esquece, meu amor se nutre do seu, amado, e enquanto viveres estará em teus braços sem deixar os meus.

Angela Adonica Hoje deitei-me junto a uma jovem pura como se na margem de um oceano branco,
Continuar lendo

Angela Adonica Hoje deitei-me junto a uma jovem pura como se na margem de um oceano branco, como se no centro de uma ardente estrela de lento espaço. Do seu olhar largamente verde a luz caía como uma água seca, em transparentes e profundos círculos de fresca força. Seu peito como um fogo de duas chamas ardia em duas regiões levantado, e num duplo rio chegava a seus pés, grandes e claros. Um clima de ouro madrugava apenas as diurnas longitudes do seu corpo enchendo-o de frutas estendidas e oculto fogo.

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem.
Continuar lendo

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem. Todavia, seria delicioso assustar um notário com um lírio cortado ou matar uma freira com um soco na orelha. Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde e aos gritos até morrer de frio. (...) Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com fúria e esquecimento, passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas, e pátios onde há roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram lentas lágrimas sórdidas.

XLVIII Dois amantes ditosos fazem um só pão, uma só gota de lua na erva,
Continuar lendo

XLVIII Dois amantes ditosos fazem um só pão, uma só gota de lua na erva, deixam andando duas sombras que se reúnem, deixam um só sol vazio numa cama. De todas as verdades escolheram o dia: não se ataram com fios senão com um aroma, e não despedaçaram a paz nem as palavras. A ventura é uma torre transparente. O ar, o vinho vão com os dois amantes, a noite lhes oferta suas ditosas pétalas, tem direito a todos os cravos. Dois amantes felizes não tem fim nem morte, nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem, tem da natureza a eternidade.

O pé da criança não sabe que é pé E quer ser borboleta ou maçã... Pois logo... os vidros e as pedras, as ruas, as escadas e os caminhos de terra dura,
Continuar lendo

O pé da criança não sabe que é pé E quer ser borboleta ou maçã... Pois logo... os vidros e as pedras, as ruas, as escadas e os caminhos de terra dura, Vão ensinando ao pé que não pode voar, então foi derrotado, Caiu na batalha, Foi prisioneiro E condenado a viver no sapato.

Soneto XVII No te amo como se fueras rosa de sal, topacio o flecha de claveles que propagan el fuego:
Continuar lendo

Soneto XVII No te amo como se fueras rosa de sal, topacio o flecha de claveles que propagan el fuego: te amo como se aman ciertas cosas oscuras, secretamente, entre la sombra y el alma. Te amo como la planta que no florece y lleva dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores, y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo el apretado aroma que ascendió de la tierra. Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde, te amo directamente sin problemas ni orgullo: así te amo porque no sé amar de otra manera, sino así de este modo en que no soy ni eres, tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía, tan cerca que se cierran tu ojos con mi sueño.

Quero quando eu morrer, tuas mãos em meus olhos: quero a luz, quero o trigo de tuas mãos amadas passar uma vez mais sobre mim essa doçura:
Continuar lendo

Quero quando eu morrer, tuas mãos em meus olhos: quero a luz, quero o trigo de tuas mãos amadas passar uma vez mais sobre mim essa doçura: sentir tua suavidade que mudou meu destino. Quero que vivas enquanto, adormecido, espero que teus olhos sigam ouvindo o vento, que sintas o perfume do mar que amamos juntos e que sigas pisando a areia que pisamos. Quero que o que amo siga vivo e a ti amei e cantei sobre todas as coisas, por isso segues florescendo, florida, para que alcances tudo o que meu amor te ordena, para que passeie minha sombra por teus cabelos, para que assim conheçam a razão de meu canto.

Amazonas Amazonas, capital das sílabas da água,
Continuar lendo

Amazonas Amazonas, capital das sílabas da água, pai patriarca,és a eternidade secreta das fecundações, te caem os rios como aves, te cobrem os pistilos cor de incêndio, os grandes troncos mortos te povoam de perfume, a lua não pode vigiar-te ou medir-te. És carregado de esperma verde como árvore nupcial, és prateado pela primavera selvagem, és avermelhado de madeiras, azul entre a lua das pedras, vestido de vapor ferruginoso, lento como um caminho de planeta.

Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força que acordarás as fúrias do pálido e do frio, de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,
Continuar lendo

Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força que acordarás as fúrias do pálido e do frio, de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis, de sol a sol sonha através de tua boca cantante. Não quero que tua risada ou teus passos hesitem. Não quero que minha herança de alegria morra. Não me chames. Estou ausente. Vive em minha ausência como em uma casa. A ausência é uma casa tão rápida que dentro passarás pelas paredes e pendurarás quadros no ar. A ausência é uma casa tão transparente que eu, morto, te verei, vivendo, e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.