"Conselhos de minha mãe foram apenas silêncios. Suas falas tinham o sotaque de nuvem”. ( em "O ultimo voo do flamingo". Lisboa: Editorial Caminho, 2000.)
Frases de Mia Couto
165 frases
Beber toda a ternura Não ter morada habitar
Continuar lendo
Beber toda a ternura Não ter morada habitar como um beijo entre os lábios fingir-se ausente e suspirar (o meu corpo não se reconhece na espera) percorrer com um só gesto o teu corpo e beber toda a ternura para refazer o rosto em que desapareces o abraço em que desobedeces (Em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999. Fonte: elfikurten.com.br)
"Andemos, meu amor, de coração descalço sobre o sol". (in 'Raiz de Orvalho)
Nesse outro tempo, o seu livro era o chão imenso por aí afora. Quem lhe virava as páginas eram as estações do ano. (Em "O outro pé da sereia". Lisboa: Editorial Caminho, 2006. Fonte: Templo Cultural Delfos)
"Os outros passam a escrita a limpo, Eu passo a escrita a sujo. Como os rios que se lavam em encardidas águas.
Continuar lendo
"Os outros passam a escrita a limpo, Eu passo a escrita a sujo. Como os rios que se lavam em encardidas águas. Os outros tem caligrafia, eu tenho sotaque. O sotaque da terra." (Em "O outro pé da sereia". Lisboa: Editorial Caminho, 2006. Fonte: elfikurten.com.br)
" Na veia rasgada se confirma: nenhuma vida é alheia. E todo o sangue é sempre nosso". (Vagas e Lumes)
"Não durma perto da estrada que as poeiras irão sujar seus sonhos. E aconteceu. Mas eu..., eu sempre gostei de poeira porque me traz ilusão dos caminhos que não conheço". (Na berma de nenhuma estrada)
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios. (em "Antes de Nascer o Mundo". São Paulo: Editora Companhia…
Continuar lendo
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios. (em "Antes de Nascer o Mundo". São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2009. – Fonte: elfikurten.com.br)
" O homem sabe os segredos do mundo: o rio verdadeiro não mexe. Flui, deixado e desleixado. Quem faz mover as águas são os rabos dos peixes, inumeráveis leques que nunca pausam. Como nós. Deixemo-nos quietos como pedras e o tempo não anda". (Na berma de nenhuma estrada - p.50)
A Demora O amor nos condena: demoras
Continuar lendo
A Demora O amor nos condena: demoras mesmo quando chegas antes. Porque não é no tempo que eu te espero. Espero-te antes de haver vida e és tu quem faz nascer os dias. Quando chegas já não sou senão saudade e as flores tombam-me dos braços para dar cor ao chão em que te ergues. Perdido o lugar em que te aguardo, só me resta água no lábio para aplacar a tua sede. Envelhecida a palavra, tomo a lua por minha boca e a noite, já sem voz se vai despindo em ti. O teu vestido tomba e é uma nuvem. O teu corpo se deita no meu, um rio se vai aguando até ser mar. ,
Esperto é o mar que, em vez da briga, prefere abraçar o rochedo.
Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo.
Tenho duas pernas: uma de santo, outra de diabo. Como posso seguir um só caminho?
História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, tem todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens.
Os vindouros, esses que aguardam por corpo, são quem mais deveríamos temer. Porque deles sabemos o quase nada. Dos mortos ainda vamos recebendo recados, afeiçoamo-nos a suas familiares sombras.
"A morte se tornara tão frequente que só a vida fazia espanto."
O suficiente é para quem não ama. No amor, só existem infinitos." Mia Couto
Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças.
O voar não vem da asa. O beija-flor tão abreviadinho de asa, não é o que voa mais perfeito?
sou um soldado que se apaixona
Continuar lendo
sou um soldado que se apaixona pelo inimigo que vai me matar
*São Demasiado Pobres os Nossos Ricos* A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinhe…
Continuar lendo
*São Demasiado Pobres os Nossos Ricos* A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos «ricos». Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem. O maior sonho dos nossos novos-rícos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas, muito convexos e estradas muito concavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade. As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. Por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam. O fausto das residências não os torna imunes. Pobres dos nossos riquinhos! São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam de ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído. Mia Couto, in 'Pensatempos'
E o tempo comeu o chão. Sem terra, sem rio, sem céu, não me restou senão o vislumbrar
Continuar lendo
E o tempo comeu o chão. Sem terra, sem rio, sem céu, não me restou senão o vislumbrar de um sonho. E o sonho foi ave e peixe, foi tempo e foi céu. Depois, aos poucos, o sonho me devorou a vida. E, assim, em mim, nasceram todas as vidas.
Hoje acordei sem mim. Saí à rua, para me deixar possuir
Continuar lendo
Hoje acordei sem mim. Saí à rua, para me deixar possuir pela simples leveza de existir.
Dentro de mim o universo se dissolveu e um respirar de céu
Continuar lendo
Dentro de mim o universo se dissolveu e um respirar de céu em meu peito se inundou. Seria a Vida, seria o Tempo sem nostalgia, ou seria, apenas, a poesia? Sei que havia um fluir de rio lavando antiquíssimas dores. E do cristal de tristeza que antes me negava o ar, desse nó de vazio, voltou a nascer o mar.