Foi Deus quem escreveu. Não eu. Não tu. Um som. Um timbre. Tão baixinho como o canto dos anjos. Passe-se o tempo que se passar, venham as alegrias que vierem, sucedam os temporais que se sucederem. Eu sou una, verdadeira e imperfeita, mas se não me vês com o mesmo olhar com que te sinto, afasto-me, não para desistir, mas para não continuar a sofrer. Eu posso não fazer parte de ti, mas tu sempre estiveste dentro de mim. A minha eternidade é a Deus e Ele é bondoso na saudade que tem de nós e no Seu amor mágico pelos valores de cada um e de ambos.
O azul índigo que antecedia o céu da noite entrou em mim em alguma parte, algures no limite da memória, e senti-me como se tivesse saído de uma tempestade e a caminho de outra. Tudo o que tenho é o dia de hoje, este momento real que amanhã já terá deixado as minhas mãos. Nada me pertence. Nada de mim faz parte. Escolhas foram feitas e metade de uma vida já passou, talvez um denso tempo sobre a totalidade do passado, em que fervi uma silenciosa intensidade de mim e em que teci uma verdadeira gargalhada que ri comigo.
Tu não és quem queres mostrar ser.
Tu és um homem que ama, de tanto sofrer, um menino que brinca, de tanto chorar, e um rapaz que sonha, de tanto perder.
Podes não ser nada para ninguém, mas para mim és o tudo e o mais.
Podes não ter nada de ninguém, mas de mim tens o todo sem nunca ser demais.
Quando as nossas testas se tocarem e as nossas almas se fundirem, Deus poderá finalmente adormecer e descansar.
Tive de respirar lentamente para o ar chegar aos meus pulmões. A verdade penetrava-me como uma mentira. Outras emoções na invasão de mim e a dificuldade em concentrar-me por sentir o meu bom senso ser sugado para o estômago. Olhei os meus dedos longos, tentando recuperar alguma tranquilidade. As pessoas são más e ainda não perceberam que nada quero delas. O vazio de cada uma ainda consegue espantar-me e o meu pensamento até a mim me choca. Lamento. Lamento imenso. Por muito que se tente, nunca se encontra o fundo. As suas profundezas apenas são contidas pelo encerramento de cada um e a visão somente se desanuvia para o amor, um poço tão fundo como a nossa persistência em existir. E, sem o querer, sem o pretender, perco-me e acho-me no debate entre a dor e a perplexidade, antes de sorrir e desaparecer.