O Intervalo
Sou o intervalo
entre o que o mundo espera
e o que eu escolho ser.
Nem rótulo, nem roteiro,
sou a pausa entre o verbo
e a vontade.
Carrego silêncios que ninguém lê,
e ecos que não cabem nas vitrines.
Não me visto de conveniências,
prefiro o incômodo da verdade
à paz dos moldes prontos.
Se esperam que eu siga,
aprendo a desviar.
Se esperam que eu cale,
transformo em voz.
Sou o que cresce no entre,
no quase,
no ainda não.
E é ali nesse intervalo
Verdade
Não busco certezas fáceis,
nem respostas que se vão.
Quero a verdade antiga,
a que resiste ao tempo,
calada e firme,
como raiz que não se quebra.
Aceito o caos,
contanto que ele me diga a verdade.
Que venha nu, sem véus ou promessas,
sem perfume de conforto,
nem máscaras de ordem.
Não fujo do abismo
olho dentro.
Vejo espelhos quebrados,
e em cada caco,
um reflexo meu que ainda resiste.
Não quero mapas seguros,
quero as rotas onde o erro dança,
onde a dúvida acende a chama
de uma lucidez que sangra,
mas cura.
Porque há mais vida no descompasso
do que no silêncio ensaiado.
E se a verdade mora no caos,
então que desabe
eu saberei ficar.
Vontade Turva
Quero me dopar,
fugir desse peso que me prende,
embriagar a mente,
escapar do silêncio que grita.
Busco o esquecimento,
um alívio que dura pouco,
um fogo que consome,
mas que promete calor.
Sei que é estrada frágil,
que a névoa engana os passos,
mas a vontade pulsa,
como um grito calado no peito.
Entre a razão e o desejo,
danço essa luta sombria,
na esperança de encontrar
algum pouco de paz.
Aceito o caos
Aceito o caos,
contanto que ele me diga a verdade.
Prefiro ruínas sinceras
a castelos de ilusão.
Se é no fogo que se revela,
queime —
mas não minta.