Vontade faminta é assim,
Devoro a carne,
Pedaço por pedaço,
Engulo a vontade,
Beiço defumado,
Dedos lambidos pela metade,
Corpo alimentado,
Prazer de verdade,
Contigo é assim,
Bem mais alto,
Que os pássaros,
Dos terraços dos prédios,
Estão três rapinas,
Que planam em círculos,
Parecem vontades,
Que ficam girando,
Nos cantos da mente,
Sonhos coloridos,
E a chuva?
Ela veio,
E não caiu sozinha,
Sei que lágrimas caíram também,
E são suas,
Então,
Chore Maria,
Faz bem,
Logo passa,
Mas saiba,
As ações soluçam as reações,
A vida mole não é nobre,
Como é bom ser valente,
Então,
Sorria Maria!
Cuspimos no prato que lambemos – prato nosso,
Comemos cru – aqui na terra,
Sorrimos – nos sentimos como no céu,
Brindamos e bebemos - sem cair em tentação,
Repetimos – livres do maligno,
E depois, dormimos como sempre – Amém,
Meus olhos de vaga-lumes,
Andam apagados,
Nada que miro acende-me,
Tudo me vê,
Mas nada vejo,
Me foge a pluralidade,
Do olhar que sopra,
E reacende o sonhar,
Asas de borboletas pretas numa tarde de domingo,
Dinah Washington perfumando os ouvidos bem baixinho,
Risos molhados e paladar com gosto de camafeu numa longa noite,
Imagem na parede que fala como gente,
Ventania dos dias,
Que leva o bem pra todos os cantos,
E leva o mal também,
Num tempo,
Uns seguem pela rua,
Outros ficam pelo chão,
Noutro tempo,
O chão dorme com uns,
E a rua acorda com outros da multidão
Lasque-se,
Lasque-se,
Não maldiz,
Nasce do regaço,
Feliz,
Morre no cangaço,
Infeliz,
Como a bala da arma,
Maria Bonita,
Como a pólvora clarão,
Capitão Lampião,
Lasque-se,
Lasque-se,