Não havendo nada que perdure, é natural que a memória se esvaeça, porque ela não é uma planta aérea, precisa de chão.
Frases de Machado de Assis
519 frases
Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Cuido que não nasci para situações complexas.
Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
...preferi dormir, que é um modo interino de morrer.
O capitão fingia não crer na morte próxima, talvez por enganar-se a si mesmo.
...a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca.
Ao vencedor, as batatas! Machado de Assis Quincas Borba (1891). 76 A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão. Machado de Assis
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Ao vencedor, as batatas! Machado de Assis Quincas Borba (1891). 76 A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão. Machado de Assis Nota: Frase adaptada de um trecho do conto "O Alienista" (1882). O trecho original é: A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. ...Mais 251 Quando ela fala Quando ela fala, parece Que a voz da brisa se cala; Talvez um anjo emudece Quando ela fala. Meu coração dolorido As suas mágoas exala, E volta ao gozo perdido Quando ela fala. Pudesse eu eternamente, Ao lado dela, escutá-la, Ouvir sua alma inocente Quando ela fala. Minh'alma, já semimorta, Conseguira ao céu alçá-la Porque o céu abre uma porta Quando ela fala. Machado de Assis Falenas. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1870. 250 Não precisa correr tanto, o que tiver de ser seu às mãos lhe há de vir. Machado de Assis Dom Casmurro (1899). 488 O tempo é pouco para o muito que espero... Machado de Assis Nota: Autoria não confirmada. 65 Tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro. Machado de Assis Esaú e Jacó (1904). 142 Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico. A realidade pura é que eu almocei, como nos demais dias... Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881. ...Mais 33 Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados. Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1881. ...Mais 64 Círculo Vicioso Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume: – "Quem me dera que fosse aquela loura estrela, Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!" Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme: – "Pudesse eu copiar o transparente lume, Que, da grega coluna á gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" Mas a lua, fitando o sol, com azedume: – "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume!" Mas o sol, inclinando a rútila capela: – "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... Enfara-me esta azul e desmedida umbela... Porque não nasci eu um simples vaga-lume?" Machado de Assis Ocidentais (1901). 301 A primeira glória é a reparação dos erros. (Ressurreição, 1872) As ocasiões fazem as revoluções. (Esaú e Jacó, 1904) Não se perde nada em parecer mau; ganha-se tanto como em sê-lo. (Memorial de Aires, 1908) Também a dor tem suas hipocrisias. (Helena, 1876) O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito, desfaz-se; basta a simples reflexão. (Helena, 1876) Dormir é um modo interino de morrer. (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881) O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. (Esaú e Jacó, 1904) Matamos o tempo - o tempo nos enterra. (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881) Amor repelido é amor multiplicado. (Miss Dollar, 1869) De todas as coisas humanas, a única que tem o seu fim em si mesma é a arte. (A Semana. In: Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 29 set. 1895) O destino, como os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. (Dom Casmurro, 1899) Não se ama duas vezes a mesma mulher. (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881) A vaidade é um princípio de corrupção. (Dom Casmurro, 1899) Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular. (Memorial de Aires, 1908) Suporta-se com paciência a cólica dos outros. (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881) A fortuna troca às vezes os cálculos da natureza. (Iaiá Garcia, 1878) Machado de Assis 106 Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881. ...Mais 140 O coração humano é a região do inesperado. Machado de Assis Iaiá Garcia (1878). 103 Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881. ...Mais 205 Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la. Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881. ...Mais 318 Creiam-me, o menos mal é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881. ...Mais 44 Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1881. ...Mais 71 Livros e flores Teus olhos são meus livros. Que livro há aí melhor, Em que melhor se leia A página do amor? Flores me são teus lábios. Onde há mais bela flor, Em que melhor se beba O bálsamo do amor? Machado de Assis Falenas. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1870. 862 A uma senhora que me pediu versos Pensa em ti mesma, acharás Melhor poesia, Viveza, graça, alegria, Doçura e paz. Se já dei flores um dia, Quando rapaz, As que ora dou têm assaz Melancolia. Uma só das horas tuas Vale um mês Das almas já ressequidas. Os sóis e as luas Creio bem que Deus os fez Para outras vidas. Machado de Assis Poesias completas (1938). 164 No alto O poeta chegara ao alto da montanha, E quando ia a descer a vertente do oeste, Viu uma cousa estranha, Uma figura má. Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste, Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha, Num tom medroso e agreste Pergunta o que será. Como se perde no ar um som festivo e doce, Ou bem como se fosse Um pensamento vão, Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta. Para descer a encosta O outro lhe deu a mão. Machado de Assis Ocidentais (1880). 64 Relíquia íntima Ilustríssimo, caro e velho amigo, Saberás que, por um motivo urgente, Na quinta-feira, nove do corrente, Preciso muito de falar contigo. E aproveitando o portador te digo, Que nessa ocasião terás presente, A esperada gravura de patente Em que o Dante regressa do Inimigo. Manda-me pois dizer pelo bombeiro Se às três e meia te acharás postado Junto à porta do Garnier livreiro: Senão, escolhe outro lugar azado; Mas dá logo a resposta ao mensageiro, E continua a crer no teu Machado. Machado de Assis Obra Completa, vol. III. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994. ...Mais 74 Os dois horizontes Dois horizontes fecham nossa vida: Um horizonte, – a saudade Do que não há de voltar; Outro horizonte, – a esperança Dos tempos que hão de chegar; No presente, – sempre escuro, – Vive a alma ambiciosa Na ilusão voluptuosa Do passado e do futuro. Os doces brincos da infância Sob as asas maternais, O vôo das andorinhas, A onda viva e os rosais; O gozo do amor, sonhado Num olhar profundo e ardente, Tal é na hora presente O horizonte do passado. Ou ambição de grandeza Que no espírito calou, Desejo de amor sincero Que o coração não gozou; Ou um viver calmo e puro À alma convalescente, Tal é na hora presente O horizonte do futuro. No breve correr dos dias Sob o azul do céu, – tais são Limites no mar da vida: Saudade ou aspiração; Ao nosso espírito ardente, Na avidez do bem sonhado, Nunca o presente é passado, Nunca o futuro é presente. Que cismas, homem? – Perdido No mar das recordações, Escuto um eco sentido Das passadas ilusões. Que buscas, homem? – Procuro, Através da imensidade, Ler a doce realidade Das ilusões do futuro. Dois horizontes fecham nossa vida. Machado de Assis Crisálidas (1864). 147 Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Machado de Assis Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). 54 Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. Machado de Assis Quincas Borba (1891). 31 A amizade é como um círculo e como um círculo não tem começo nem fim. Machado de Assis Nota: Autoria não confirmada. 35 A primeira glória é a reparação dos erros. Machado de Assis Ressurreição (1872).
Mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume.
Dai à obra de Marta um pouco de Maria, Dai um beijo de sol ao descuidado arbusto; Vereis neste florir o tronco erecto e adusto,
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Dai à obra de Marta um pouco de Maria, Dai um beijo de sol ao descuidado arbusto; Vereis neste florir o tronco erecto e adusto, E mais gosto achareis naquela e mais valia. A doce mãe não perde o seu papel augusto, Nem o lar conjugal a perfeita harmonia. Viverão dous aonde um até ‘qui vivia, E o trabalho haverá menos difícil custo. Urge a vida encarar sem a mole apatia, Ó mulher! Urge pôr no gracioso busto, Sob o tépido seio, um coração robusto. Nem erma escuridão, nem mal-aceso dia. Basta um jorro de sol ao descuidado arbusto, Basta à obra de Marta um Pouco de Maria.
Tal é o vosso destino, Ó filhas da natureza; Em que vos pese à beleza,
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Tal é o vosso destino, Ó filhas da natureza; Em que vos pese à beleza, Pereceis; Mas, não... Se a mão de um poeta Vos cultiva agora, ó rosas, Mais vivas, mais jubilosas, Floresceis.
Lutar. Podes escachá-los ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.
Creia em si, mas não duvide sempre dos outros.
(…) era tão diversa de si mesma, ora isto, ora aquilo, que os dias iam passando sem acordo fixo, nem desengano perpétuo.
O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler.