A cegueira do radicalismo para a complexidade sistêmica, norteada pelo foco único colocado na própria trincheira, torna o convívio um permanente risco para os que o rodeiam, pelo fato do pensamento radical partir da premissa de que todos que não se unem a ele estão contra ele! Como pensa de forma linear, tendo um dos extremos como a única alternativa possível, o equilíbrio representado pela neutralidade se apresenta como uma posição mais próxima da do “inimigo” e que, por isso, também precisa ser destruída antes que se traduza em fortalecimento da “ameaça”.
Não há nada que me assusta mais do que o extremismo. Mais do que qualquer regime político, mais do que qualquer iniqüidade – que são temporais – o extremista me assusta pela perenidade do entendimento de que a coexistência com qualquer hipótese diferente da sua é inaceitável, e sua causa pessoal o transforma naquele tipo de gente para o qual o fim justifica todos os meios.
Todas as vezes em que me sinto no meio de um tiroteio de versões que partem de todos os lados vêm-me à consciência que não estive lá para conferir, e nem no coração dos envolvidos para julgá-los. A porta de saída é me lembrar que, para quem acredita, nenhum argumento é necessário, e para quem não acredita nenhuma evidência é suficiente. Esse entendimento me tira do sofrimento da batalha e me devolve a paz da solidariedade à parte injustiçada, mas sem armas na mão.
O erro de qualquer extremo é acreditar que os fins justificam os meios, quando os entricheirados negam a própria contribuição no resultado que atacam, imaginando só existirem mocinhos de um lado e vilões do outro. O distanciamento da visão sistêmica remete ao radicalismo, que não consegue ver benefício além do que o seu lado se acredita capaz de gerar, posição utópica respaldada por arrogância e incapacidade de autoanálise.
Não aceito ser chamado a ocupar trincheiras onde cada uma das partes quer me fazer acreditar que só existam mocinhos de um lado e vilões do outro. Tal percepção tendenciosa turva a visão sistêmica necessária a uma análise justa e nos arrasta para o radicalismo dos dois extremos, independente de qual se acredita o lado certo.
Se, em meu diálogo com meu Deus interno, ouvisse dele que, por algum mérito, eu teria direito a uma graça, vêm-me à consciência ter recebido muito mais créditos do que débitos em toda a história escrita até aqui, não havendo nada mais a pedir. Assim sendo, a única coisa que ainda me restaria esperar seria um último momento sereno, entendendo isso como livre de sofrimento para mim a para os que deixo ao transpor meu portal. Mas sou capaz de assimilar que pelo entendimento de Deus essa serenidade se apresente de uma forma diferente da que concebi.
Olhando pelo retrovisor de minha vida percebo que, diferentemente da maioria, nunca cultivei o hábito de buscar amparo na Força Superior para os meus momentos de angústia, escolhendo descobrir minha própria força para superá-los. Em contrapartida, todos os instantes de realização vêm acompanhados de uma mágica sensação de plenitude, como se invadido por uma estranha e, ao mesmo tempo, familiar presença divina, que transborda do meu íntimo na forma de um incomensurável agradecimento àquela Força que a enviou.
As pessoas que se sabem importantes na minha vida com certeza não estarão buscando nos meus espaços de contato mensagens alusivas ao “dia do amigo”. Acostumados que estão com meu pensar, entendem a ênfase que coloco nas posturas de essência do cotidiano se sobrepondo às manifestações ditadas pelos apelos pontuais de uma data pré-determinada. E justamente por me saberem livre do hábito de “panfletar” tais mensagens, quando algumas lhes chegam de surpresa – e da forma como me brotam – percebem que os sentimentos acumulados se fizeram superiores à minha capacidade de contê-las no íntimo, quando então simplesmente “eclodem”, buscando o caminho que as leve até eles. Dessa forma seguimos juntos em nosso permanente calendário de trocas sem datas marcadas.
Poucas coisas fazem que eu me irrite mais comigo mesmo do que quando compartilho informações minhas com pessoas que em seguida as usam contra mim, seja desvinculando-as do contexto em que aconteceram ou por uma cabeça pequena demais para entendê-las. É quando me descubro medíocre por não ter percebido antes sua mediocridade, de forma a não cometer tal estupidez.
Concluí que o mundo se divide em apenas duas classes de pessoas: as confiáveis e as não confiáveis. Estas últimas irão passar a maior parte de suas vidas convencendo um monte de gente de que são ótimas, e as primeiras até cometendo erros em incontáveis momentos. Contudo, a única certeza é a de que a rasteira levada de uma é questão de tempo, e as confiáveis, por mais que errem, estarão permanentemente atentas para que seus erros não atinjam ninguém à sua volta.
Por mais que os extremos insistam em me arrastar para suas respectivas trincheiras, é bom que saibam que minha cabeça estará sempre acima delas, e minha posição em relação à fronteira entre os territórios que se confrontam será sempre definida por cuidadosa análise dos fatos para uma escolha – sempre revisada – ditada pela minha consciência. Eventualmente me distancio, mas sempre a resgato! Não gastem comigo, portanto, mais energia do que a necessária, pois que a força maior a me mover será a que me garanta o retorno ao meu “greenwich” entre os hemisférios.
Existem dois tipos de erros: os de essência e os de percurso. Os de percurso podem acontecer até com alguma freqüência e produzir estragos significativos vez por outra, mas sua característica é a de ser percebido na fonte em algum momento, e abrir espaço para a necessária reparação. Erros de percurso enriquecem no momento em que se apresentam como referenciais de crescimento, além de oportunidades para resgate de marcos de partida, já que não são inerentes a quem os produz e suas seqüelas sempre se mostrarão reversíveis. Já os de essência não possuem esse potencial de transformação, repetindo-se de forma sistemática e perene, uma vez que integram a estrutura de seu produtor. Enquanto que os primeiros podem se transformar em maravilhosas oportunidades de recomeços maiores, a única forma de nos protegermos destes últimos é pelo distanciamento de sua fonte de origem. Tal atitude, em vez de se mostrar como capitulação diante de um desafio – ou de derrota frente à resistência para chegar-se à vitória – requer que seja vista como a mais inteligente das posturas por sua característica de empreitada inútil e sem a mínima chance de dar margem a avanços.