O amor é uma ferida que dói, e não se sente;
Frases de Luís de Camões
101 frases
Eu cantarei de amor tão docemente, Por uns termos em si tão concertados, Que dois mil acidentes namorados
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Eu cantarei de amor tão docemente, Por uns termos em si tão concertados, Que dois mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente.
Um baixo amor os fortes enfraquece.
Ah o amor... que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Raquel Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela;
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Raquel Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assi negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo: – Mais servira, se não fora Para tão longo amor tão curta a vida!
Canção Se este meu pensamento, como é doce e suave,
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Canção Se este meu pensamento, como é doce e suave, de alma pudesse vir gritando fora, mostrando seu tormento cruel, áspero e grave, diante de vós só, minha Senhora: pudera ser que agora o vosso peito duro tornara manso e brando. E eu que sempre ando pássaro solitário, humilde, escuro, tornado um cisne puro, brando e sonoro pelo ar voando, com canto manifesto pintara meu tormento e vosso gesto. Pintara os olhos belos que trazem nas mininas o Minino que os seus neles cegou; e os dourados cabelos em tranças d'ouro finas a quem o Sol seus raios abaixou; a testa que ordenou Natura tão formosa; o bem proporcionado nariz, lindo, afilado, que a cada parte tem a fresca rosa; a boca graciosa, que querê-la louvar é escusado; enfim, é um tesouro: os dentes, perlas; as palavras, ouro. Vira-se claramente, ó Dama delicada, que em vós se esmerou mais a Natureza; e eu, de gente em gente, trouxera trasladada em meu tormento vossa gentileza. Somente a aspereza de vossa condição, Senhora, não dissera, porque se não soubera que em vós podia haver algum senão. E se alguém, com razão, — Porque morres? dissera, respondera: — Mouro porque é tão bela que inda não sou para morrer por ela. E se pola ventura, Dama, vos ofendesse, escrevendo de vós o que não sento, e vossa fermosura tão baixo não descesse que a alcançasse um baixo entendimento, seria o fundamento daquilo que cantasse todo de puro amor, porque vosso louvor em figura de mágoas se mostrasse. E onde se julgasse a causa pelo efeito, minha dor diria ali sem medo: quem me sentir, verá de quem procedo. Então amostraria os olhos saudosos, o suspirar que a alma traz consigo; a fingida alegria, os passos vagarosos, o falar, o esquecer-me do que digo; um pelejar comigo, e logo desculpar-me; um recear, ousando; andar meu bem buscando, e de poder achá-lo acovardar-me; enfim, averiguar-me que o fim de tudo quanto estou falando são lágrimas e amores; são vossas isenções e minhas dores. Mas quem terá, Senhora, palavras com que iguale com vossa fermosura minha pena; que, em doce voz, de fora aquela glória fale que dentro na minh'alma Amor ordena? Não pode tão pequena força de engenho humano com carga tão pesada, se não for ajudada dum piedoso olhar, dum doce engano; que, fazendo-me o dano tão deleitoso, e a dor tão moderada, que, enfim, se convertesse nos gostos dos louvores que escrevesse. Canção, não digas mais; e se teus versos à pena vêm pequenos, não queiram de ti mais, que dirás menos.
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram,
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Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente. Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa (a) que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças. De amor não vi senão breves enganos. Oh! Que tanto pudesse que fartasse Este meu duro Gênio de vinganças!
Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio,
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Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio, agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando, num'hora acho mil anos, e é de jeito que em mil anos não posso achar um' hora. Se me pergunta alguém porque assim ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora.
Anda sempre tão unido o meu tormento comigo que eu mesmo sou meu perigo.
O fraco rei faz fraca a forte gente.
Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente;
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Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É um cuidar que se ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Amor... É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor;
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Amor... É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade.
Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano
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Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram, Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Netuno e Marte obedeceram; Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta.
1 As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados
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1 As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando: Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (Os Lusíadas canto primeiro - 1 e 2)
154 Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado?
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154 Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado; Nem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente.
E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando: Cantando espalharei por toda a parte,
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E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando: Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente;
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Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer.
O amor é uma dor que desatina sem doer.
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.
No mundo não tem boa sorte, senão quem teve por boa a que tem.
Se no que tenho dito vos ofendo, Não é a intenção minha de ofender-vos, Qu'inda que não pretenda merecer-vos,
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Se no que tenho dito vos ofendo, Não é a intenção minha de ofender-vos, Qu'inda que não pretenda merecer-vos, Não vos desmerecer sempre pretendo.
E ponde na cobiça um freio duro, E na ambição também, que indignamente Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
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E ponde na cobiça um freio duro, E na ambição também, que indignamente Tomais mil vezes, e no torpe e escuro Vício da tirania infame e urgente; Porque essas honras vãs, esse ouro puro, Verdadeiro valor não dão à gente: Milhor é merecê-los sem os ter, Que possuí-los sem os merecer.
Pois meus olhos não cansam de chorar Tristezas não cansadas de cansar-me; Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me
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Pois meus olhos não cansam de chorar Tristezas não cansadas de cansar-me; Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me Pôde quem eu jamais pude abrandar; Não canse o cego Amor de me guiar Donde nunca de lá possa tornar-me; Nem deixe o mundo todo de escutar-me, Enquanto a fraca voz me não deixar. E se em montes, se em prados, e se em vales Piedade mora alguma, algum amor Em feras, plantas, aves, pedras, águas; Ouçam a longa história de meus males, E curem sua dor com minha dor; Que grandes mágoas podem curar mágoas.