Nas praias desertas onde mar junta ciscos, para castiçal do inferno, o cão é melhor do que cristo.
Frases de Luís de Camões
101 frases
Ao desconcerto do mundo Os bons vi sempre passar No mundo graves tormentos;
Continuar lendo
Ao desconcerto do mundo Os bons vi sempre passar No mundo graves tormentos; E para mais me espantar, Os maus vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim O bem tão mal ordenado, Fui mau, mas fui castigado: Assim que só para mim Anda o mundo concertado.
De quantas graças tinha, a Natureza De quantas graças tinha, a Natureza Fez um belo e riquíssimo tesouro,
Continuar lendo
De quantas graças tinha, a Natureza De quantas graças tinha, a Natureza Fez um belo e riquíssimo tesouro, E com rubis e rosas, neve e ouro, Formou sublime e angélica beleza. Pôs na boca os rubis, e na pureza Do belo rosto as rosas, por quem mouro; No cabelo o valor do metal louro; No peito a neve em que a alma tenho acesa. Mas nos olhos mostrou quanto podia, E fez deles um sol, onde se apura A luz mais clara que a do claro dia. Enfim, Senhora, em vossa compostura Ela a apurar chegou quanto sabia De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Amor, que o gesto humano n'alma escreve, Vivas faíscas me mostrou um dia, Donde um puro cristal se derretia
Continuar lendo
Amor, que o gesto humano n'alma escreve, Vivas faíscas me mostrou um dia, Donde um puro cristal se derretia Por entre vivas rosas e alva neve. A vista, que em si mesma não se atreve, Por se certificar do que ali via, Foi convertida em fonte, que fazia A dor ao sofrimento doce e leve. Jura Amor que brandura de vontade Causa o primeiro efeito; o pensamento Endoudece, se cuida que é verdade. Olhai como Amor gera, num momento De lágrimas de honesta piedade, Lágrimas de imortal contentamento.
Verdes são os campos Verdes são os campos, De cor de limão:
Continuar lendo
Verdes são os campos Verdes são os campos, De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração. Campo, que te estendes Com verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o Verão, E eu das lembranças Do meu coração. Gados que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendereis; Isso que comeis Não são ervas, não: São graças dos olhos Do meu coração.
Amor é um brado afeito Que Deus no Mundo pôs e a Natureza Para aumentar as coisas que criou.
Continuar lendo
Amor é um brado afeito Que Deus no Mundo pôs e a Natureza Para aumentar as coisas que criou. De amor está sujeito Tudo quanto possui a redondeza; Nada sem este efeito se gerou. Por ele conservou A causa principal o Mundo amado Donde o pai famulento foi deitado. As coisas ele as ata e as conforma Com O Mundo,e reforma A matéria. Quem há que não o veja? Quanto meu mal deseja, sempre forma.
Se noutro corpo tua alma se traspassa, não, como quis Pitágoras, na morte mas como manda Amor na vida escassa;
Mas, conquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê.
Continuar lendo
Mas, conquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que n'alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como, e dói não sei porquê.
Amar e saber amar... amar com o coração e não com a cabeça.
Amor é fogo que arde sem se ver.
Prometeis, e não cumpris? Pois sem cumprir, tudo é nada. Não sois bem aconselhada;
Continuar lendo
Prometeis, e não cumpris? Pois sem cumprir, tudo é nada. Não sois bem aconselhada; que quem promete, se mente, o que perde não o sente.
Amor é fogo que arde sem se ver. É ferida que dói e não se sente.
No mundo quis um tempo que se achasse o bem que por acerto ou sorte vinha; e, por experimentar que dita tinha,
Continuar lendo
No mundo quis um tempo que se achasse o bem que por acerto ou sorte vinha; e, por experimentar que dita tinha, quis que a Fortuna em mim se experimentasse. Mas por que meu destino me mostrasse que nem ter esperanças me convinha, nunca nesta tão longa vida minha cousa me deixou ver que desejasse. Mudando andei costume, terra e estado, por ver se se mudava a sorte dura; a vida pus nas mãos de um leve lenho. Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado, já sei que deste meu buscar ventura, achado tenho já, que não a tenho.
Aqui é onde acaba a terra e começa o mar.
Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia o pai, servia a ela,
Continuar lendo
Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia o pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia.
Ditoso seja aquele que somente Se queixa de amorosas esquivanças; Pois por elas não perde as esperanças
Continuar lendo
Ditoso seja aquele que somente Se queixa de amorosas esquivanças; Pois por elas não perde as esperanças De poder n'algum tempo ser contente. Ditoso seja quem estando ausente Não sente mais que a pena das lembranças; Porque, inda que se tema de mudanças, Menos se teme a dor quando se sente. Ditoso seja, enfim, qualquer estado, Onde enganos, desprezos e isenção Trazem o coração atormentado. Mas triste quem se sente magoado De erros em que não pode haver perdão, Sem ficar na alma a mágoa do pecado.
Coitado! que em um tempo choro e rio Coitado! que em um tempo choro e rio; Espero e temo, quero e aborreço;
Continuar lendo
Coitado! que em um tempo choro e rio Coitado! que em um tempo choro e rio; Espero e temo, quero e aborreço; Juntamente me alegro e entristeço; Du~a cousa confio e desconfio. Voo sem asas; estou cego e guio; E no que valho mais menos mereço. Calo e dou vozes, falo e emudeço, Nada me contradiz, e eu aporfio. Queria, se ser pudesse, o impossível; Queria poder mudar-me e estar quedo; Usar de liberdade e estar cativo; Queria que visto fosse e invisível; Queira desenredar-me e mais me enredo: Tais os extremos em que triste vivo!
Extremos são de amor os que padeço, Ó humano tesouro, ó doce glória; E se cuido que acabo então começo.
Continuar lendo
Extremos são de amor os que padeço, Ó humano tesouro, ó doce glória; E se cuido que acabo então começo. Assim te trago sempre na memória; Nem sei se vivo, ou morro, mas conheço, Que ao fim da batalha é a vitória
Quando da bela vista e doce riso Tomando estão meus olhos mantimento, Tão enlevado sinto o pensamento,
Continuar lendo
Quando da bela vista e doce riso Tomando estão meus olhos mantimento, Tão enlevado sinto o pensamento, Que me faz ver na terra o Paraíso. Tanto do bem humano estou diviso, Que qualquer outro bem julgo por vento; Assi[m] que, em caso tal, segundo sento, Assaz de pouco faz quem perde o siso. Em vos louvar, Senhora, não me fundo, Porque quem vossas cousas claro sente, Sentirá que não pode conhecê-las. Que de tanta estranheza sois ao mundo, Que não é de estranhar, Dama excelente, Que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
Amor com seus contrários se acrescenta.
Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.
Continuar lendo
Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades.
É covardia ser leão entre ovelhas.
Verdadeiro valor não dão à gente; Essas honras vãs, esse ouro puro melhor é merecê-los sem os ter
Continuar lendo
Verdadeiro valor não dão à gente; Essas honras vãs, esse ouro puro melhor é merecê-los sem os ter que possuí-los sem os merecer.
Endechas a Bárbara escrava Aquela cativa Que me tem cativo,
Continuar lendo
Endechas a Bárbara escrava Aquela cativa Que me tem cativo, Porque nela vivo Já não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves molhos, Que pera meus olhos Fosse mais fermosa. Nem no campo flores, Nem no céu estrelas Me parecem belas Como os meus amores. Rosto singular, Olhos sossegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. U~a graça viva, Que neles lhe mora, Pera ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabelos, Onde o povo vão Perde opinião Que os louros são belos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, Que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não. Presença serena Que a tormenta amansa; Nela, enfim, descansa Toda a minha pena. Esta é a cativa Que me tem cativo; E. pois nela vivo, É força que viva.