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Frases de José Saramago

286 frases

A vida é uma aprendizagem diária. Afasto-me do caos e sigo um simples pensamento: Quanto mais simples, melhor!
Com o andar dos tempos, mais as atividades da convivência e as trocas genéticas, acabamos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de…
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Com o andar dos tempos, mais as atividades da convivência e as trocas genéticas, acabamos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca.

Há mentiras de mais e compromissos (Poemas são palavras recompostas) E por tantas perguntas sem respostas
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Há mentiras de mais e compromissos (Poemas são palavras recompostas) E por tantas perguntas sem respostas Mascara-se a verdade com postiços. Não vida, nem sombra, nem razão, É jaula de doidice furiosa, Eriçada de gritos, angulosa, Com estilhaços de vidro pelo chão. E carrego de mais esta jornada E protestos não servem, nem suores, Já mordidos os membros de tremores, Já vencida a bandeira e arrastada. Depois se me apagaram os amores Que a viagem fizeram desejada.

Posso falar de morte enquanto vivo? Posso ganir de fome imaginada? Posso lutar nos versos escondido?
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Posso falar de morte enquanto vivo? Posso ganir de fome imaginada? Posso lutar nos versos escondido? Posso fingir de tudo, sendo nada? Posso tirar verdades de mentiras, Ou inundar de fontes um deserto? Posso mudar de cordas e de liras, E fazer de má noite sol aberto? Se tudo a vãs palavras se reduz E com elas me tapo a retirada, Do poleiro da sombra nego a luz Como a canção se nega embalsamada. Olhos de vidro e asas prisioneiras, Fiquei-me pelo gosto de palavras Como rasto das coisas verdadeiras.

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: Mil camadas de pó disfarçam, véus, Estes quarenta rostos desiguais.
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Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: Mil camadas de pó disfarçam, véus, Estes quarenta rostos desiguais. Tão marcados de tempo e macaréus. Eu sou. Mas o que sou tão pouco é: Rã fugida do charco, que saltou, E no salto que deu, quanto podia, O ar dum outro mundo a rebentou. Falta ver, se é que falta, o que serei: Um rosto recomposto antes do fim, Um canto de batráquio, mesmo rouco, Uma vida que corra assim-assim.

Poeta não é gente, é bicho coisa Que da jaula ou gaiola vadiou E anda pelo mundo às cambalhotas,
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Poeta não é gente, é bicho coisa Que da jaula ou gaiola vadiou E anda pelo mundo às cambalhotas, Recordadas do circo do circo que inventou. Estende no chão a capa que o destapa, Faz do peito tambor, e rufa, salta, É urso bailarino, mono sábio Ave torta de bico e pernalta. Ao fim toca a charanga do poema, Caixa, fagote, notas arranhadas, E porque bicho é bicho, lá fica, A cantar às estrelas apagadas.

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto. Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os
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Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto. Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos. É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo. É um rio. Corre-me nas mãos, agora molhadas. Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem. Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio. Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos. Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória. Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga. Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar do coração. Agora o céu está mais perto e mudou de cor. É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves. E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas. Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro. Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco. Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumorosas as suas folhas. Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam. Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva. Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos. Depois saberei tudo.

Aqui, na Terra, a fome continua, A miséria, o luto, e outra vez a fome. Acendemos cigarros em fogos de napalme
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Aqui, na Terra, a fome continua, A miséria, o luto, e outra vez a fome. Acendemos cigarros em fogos de napalme E dizemos amor sem saber o que seja. Mas fizemos de ti a prova da riqueza, E também da pobreza, e da fome outra vez. E pusemos em ti sei lá bem que desejo De mais alto que nós, e melhor e mais puro. No jornal, de olhos tensos, soletramos As vertigens do espaço e maravilhas: Oceanos salgados que circundam Ilhas mortas de sede, onde não chove. Mas o mundo, astronauta, é boa mesa Onde come, brincando, só a fome, Só a fome, astronauta, só a fome, E são brinquedos as bombas de napalme.

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja Um poço mais remoto, e habitado De cegas criaturas, de histórias e assombros.
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Eu luminoso não sou. Nem sei que haja Um poço mais remoto, e habitado De cegas criaturas, de histórias e assombros. Se, no fundo poço, que é o mundo Secreto e intratável das águas interiores, Uma roda de céu ondulando se alarga, Digamos que é o mar: como o rápido canto Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável O movimento de asas. O musgo é um silêncio, E as cobras-d´água dobram rugas no céu, Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

Os deuses, noutros tempos, eram nossos Porque entre nós amavam. Afrodite Ao pastor se entregava sob os ramos
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Os deuses, noutros tempos, eram nossos Porque entre nós amavam. Afrodite Ao pastor se entregava sob os ramos Que os ciúmes de Hefesto iludiam. Da plumagem do cisne as mãos de Leda, O seu peito imortal, o seu regaço, A semente de Zeus, dóceis, colhiam. Entre o céu e a terra, presidindo Aos amores de humanos e divinos, O sorriso de Apolo refulgia. Quando castos os deuses se tornaram, O grande Pã morreu, e órfão dele, Os homens não souberam e pecaram.