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Frases de José D'Assunção Barros

118 frases

⁠A ideia de que um dia se concebeu a existência de raças dentro da espécie humana provavelmente parecerá muito estranha e primitiva em um futuro no qual se tenha realizado algo mais próximo a uma verdadeira justiça social, pois no seu aspecto mais irredutível o que existe é uma s…
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⁠A ideia de que um dia se concebeu a existência de raças dentro da espécie humana provavelmente parecerá muito estranha e primitiva em um futuro no qual se tenha realizado algo mais próximo a uma verdadeira justiça social, pois no seu aspecto mais irredutível o que existe é uma só raça: a raça humana. [trecho extraído do livro 'A Construção Social da Cor". Petrópolis: Editora Vozes, 2009, p.218]

⁠A História é a ciência dos seres humanos no espaço-tempo. Nela, tanto são estudados homens e mulheres bem situados em um momento e em um lugar social muito bem definidos [e não necessariamente um só espaço-tempo, pois no caso da História Comparada podemos analisar simultaneament…
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⁠A História é a ciência dos seres humanos no espaço-tempo. Nela, tanto são estudados homens e mulheres bem situados em um momento e em um lugar social muito bem definidos [e não necessariamente um só espaço-tempo, pois no caso da História Comparada podemos analisar simultaneamente diversos lugares-tempo], como também devemos considerar que os próprios historiadores que realizam esta ciência estão eles mesmos situados no seu próprio espaço-tempo. O espaço-tempo dos homens e mulheres define a História nas suas duas pontas

IANOMÂMI ⁠Ianomâmi, Procura-se quem te ame.
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IANOMÂMI ⁠Ianomâmi, Procura-se quem te ame. Quem mergulhe nas tuas folhas Quem respire nas tuas águas Quem perceba nos teus frutos A natureza que se perde E que se ganha Em quem te chame, Ianomâmi Procura-se governante Que abra mão de governar O índio, a criança, o amante. Procura-se represa Que não mais impeça o rio De correr seu livre curso. Ianomâmi, Procura-se quem te ame, Procura-se quem te chame. Quem te chame, Procura-se Ianomâmi. Não mais para enfeitar gaiola Que se mostre em ave-rara Nas coloridas feiras de Antropologia. Procura-se, quem tocado Pelo Sol e pela Lua Te liberte feito um pássaro Ianomâmi, Procura-se quem te chame Quem depois de percorrer Tantas estradas de pedra morta Prefira as trilhas da floresta Vivas, úmidas, sonoras Procura-se tal caminhante A quem, nu e luminoso, Se transforme em Ianomâmi [Publicado na revista Entreletras, vol.12, n°01, 2021] .

⁠Como muitas coisas na história, a História Científica também teve os seus começos pequenos, por vezes mesquinhos, as suas concessões ao poder, suas articulações a projetos de dominação, suas acomodações, ambiguidades, hesitações e recuos. Seja através do Positivismo ou do Histor…
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⁠Como muitas coisas na história, a História Científica também teve os seus começos pequenos, por vezes mesquinhos, as suas concessões ao poder, suas articulações a projetos de dominação, suas acomodações, ambiguidades, hesitações e recuos. Seja através do Positivismo ou do Historicismo, podemos vislumbrar o curioso paradoxo de que a ‘revolução historiográfica’ do século XIX não deixa de ter em seus inícios alguns aspectos bastante conservadores. Seu mundo contextual será o do assentamento da burguesia pós-revolucionária no poder, após os fracassos do projeto mais radical da Revolução Francesa e da derrocada definitiva da expansão napoleônica, sem mencionar o contexto decisivo da consolidação dos grandes estados nacionais que precisavam agora exercer um controle mais efetivo sobre a sua população, sobre o seu território e sua imagem. O ambiente político e social que oferecerá uma confortável base de assentamento para o novo tipo de historiografia é aquele gerado pelo compromisso entre a burguesia industrial, as monarquias constitucionais e os setores aristocráticos que conseguiram se adaptar à nova sociedade industrial, de modo a conservar ao menos alguns privilégios. Além disso, de agora em diante já não será mais possível, à nova coligação de poderes políticos, ignorar os setores populares, ao menos como uma força social que precisa ser adequadamente manipulada e conduzida. Os sistemas disciplinares e as tecnologias de controle precisarão ser cada vez mais aperfeiçoados, de modo a atingir maior eficácia com mais sutileza. Mais do que nunca, o Poder precisa se assenhorear do Discurso. É neste grande contexto que a nova historiografia encontrará seu especial momento de fecundidade, e as possibilidades de estender sua permanência para o futuro. É claro que, ao lado destes começos pequenos e por vezes mesquinhos, a nova História Científica também surge em um momento histórico no qual começam a aflorar pequenas centelhas de esperanças partilhadas pelos mais diversos grupos sociais que haviam conseguido se fazer ouvir nos movimentos revolucionários iniciados na França e nos Estados Unidos da América, e que depois se expandem para o resto da Europa e para a América Latina. Vive-se também, neste momento, uma nova fase de confiança no Progresso da humanidade, tão bem expresso pelas novas descobertas científicas e invenções tecnológicas. A História Científica, se de um lado se liga à realidade política através de liames por vezes conservadores, é por outro lado um produto da segunda Modernidade europeia. [texto extraído de 'Teoria da História, vol.2 - os primeiros paradigmas: Positivismo e Historicismo'. Petrópolis: Editora Vozes, p.12-13].

⁠Um livro, não importa qual seja, insere-se necessariamente em uma complexa rede de poderes e micropoderes. Como texto literário, torna-se facilmente espaço de acesso e de interdições a competências leitoras várias - fechando-se àqueles que não compreendem seus códigos ou que não…
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⁠Um livro, não importa qual seja, insere-se necessariamente em uma complexa rede de poderes e micropoderes. Como texto literário, torna-se facilmente espaço de acesso e de interdições a competências leitoras várias - fechando-se àqueles que não compreendem seus códigos ou que não compartilham o idioma comum à comunidade lingüística de seus leitores preferenciais, ao mesmo tempo em que se entreabre, nos seus diversos níveis, àqueles que podem apreender alguns de seus sentidos possíveis. Como objeto mesmo, o livro se oferece menos ou mais generosamente àqueles que podem adquiri-lo ou tomá-lo emprestado, ou àqueles que podem suportar ou sentir-se confortáveis diante das estratégias editoriais que lhe dão forma e materialidade. Como depositário de um discurso, na verdade de muitos discursos, o objeto-livro mostra-se por fim interferente e interferido, relacionando-se ao jogo de poderes e micropoderes que afetam a sociedade que contextualiza a sua produção e circulação. [parágrafo inicial do artigo 'Um livro manuscrito e seu sistema de poderes e micropoderes'. revista Em Questão, vol.12, n2, 2006, p.273-296]

⁠A palmeira, já a encontraram pronta. Tornou-se o imponente símbolo da conquista da libertação; Espalhadas no segredo da Serra da Barriga, as palmeiras se transfiguraram em fortificações naturais e simbólicas para proteger todos os negros que lutavam pelo direito de serem livres,…
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⁠A palmeira, já a encontraram pronta. Tornou-se o imponente símbolo da conquista da libertação; Espalhadas no segredo da Serra da Barriga, as palmeiras se transfiguraram em fortificações naturais e simbólicas para proteger todos os negros que lutavam pelo direito de serem livres, e que morreram por isso - transformando-se, como Zumbi dos Palmares, em símbolos eternamente vivos da consciência negra. As camélias tiveram de ser construídas - ou importadas. Eram exóticas flores trazidas do Oriente e que foram cultivadas por negros aquilombados nos solos do Novo Mundo. A liberdade respira por todas as suas pétalas - inclusive a liberdade de se recriarem em uma terra que terá lhes parecido estranha. Liberdade construída sobre o desafio de se familiarizarem com esta terra, de torná-la sua. De a transformarem em uma outra terra. [trecho extraído do livro 'A Construção Social da Cor". Petrópolis: Editora Vozes, 2009, p.222-223]

⁠O Cinema é interdisciplinar - e interartístico - por excelência. Dificilmente poderia ser de outra maneira. Ainda que excepcionalmente tenha contado com cineastas interdisciplinares - como o multiartista britânico Charles Chaplin, que foi diretor, roteirista, ator, músico e prod…
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⁠O Cinema é interdisciplinar - e interartístico - por excelência. Dificilmente poderia ser de outra maneira. Ainda que excepcionalmente tenha contado com cineastas interdisciplinares - como o multiartista britânico Charles Chaplin, que foi diretor, roteirista, ator, músico e produtor de suas realizações - o modelo essencial do Cinema é certamente o da equipe interdisciplinar. Enquanto um laboratório de Microbiologia costuma contar com uma equipe formada exclusivamente por microbiologistas, já o set cinematográfico congrega necessariamente uma grande equipe formada por artistas, profissionais e técnicos ligados às mais diversas especialidades, sem contar o trabalho prévio realizado pelo roteirista e o trabalho posterior do montador e de outros profissionais que trabalham na edição da obra fílmica. No set, teremos também a presença de certos campos artísticos e técnicos criados ou aperfeiçoados especialmente para o Cinema, como a Fotografia. A isso tudo se junta a Cenografia, a Música, e outros campos artísticos já tradicionais, quando não a Literatura, nos casos em que o roteiro é extraído de alguma obra literária. Se o filme é histórico ou biográfico, também incluirá o trabalho de pesquisadores. Por fim, os atores e atrizes! - e toda a equipe de diferentes profissionais que se responsabilizam pelas suas imagens, indumentária, maquiagem, e tantas outras coisa mais. [extraído de 'Interdisciplinaridade - na História e nos demais campos de saber'. Petrópolis: Editora Vozes, 2019, p.98]

⁠As revoluções são sempre rápidas, intensas, extensas, irresistíveis e decisivas. Podem se dar em cinco anos, como ocorreu com a Revolução Digital, ou se alongar por mais de dois mil anos até concluírem o seu espraiamento definitivo, como se deu com a Revolução Agrícola. O tempo,…
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⁠As revoluções são sempre rápidas, intensas, extensas, irresistíveis e decisivas. Podem se dar em cinco anos, como ocorreu com a Revolução Digital, ou se alongar por mais de dois mil anos até concluírem o seu espraiamento definitivo, como se deu com a Revolução Agrícola. O tempo, nestes e em outros casos, é sempre relativo. O que foram os dois mil anos de espraiamento planetário da Revolução Agrícola, para a humanidade, diante dos dois milhões de anos de economia meramente apropriativa que a precederam no período paleolítico?

⁠Um conceito é uma representação complexa, elaborada e abstrata da realidade percebida - habitualmente evocada através de uma simples expressão verbal, imagem ou fórmula - e capaz de funcionar simultaneamente como unidade de conhecimento e unidade de comunicação [extraído do liv…
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⁠Um conceito é uma representação complexa, elaborada e abstrata da realidade percebida - habitualmente evocada através de uma simples expressão verbal, imagem ou fórmula - e capaz de funcionar simultaneamente como unidade de conhecimento e unidade de comunicação [extraído do livro 'O Uso dos Conceitos - uma abordagem interdisciplinar'. Petrópolis: Editora Vozes, 2021, p.36]

⁠ENCRUZLIHADA a vida tem uma encruzilhada: Hora de empunhar espada
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⁠ENCRUZLIHADA a vida tem uma encruzilhada: Hora de empunhar espada de dizer um grito de espremer o chão Hora de usar os braço sou cruzá-los em vão Esta hora de decisão nos apanha de emboscada (:) Já não é mais possível escapar da estrada Já não é mais possível esperar alheio à multidão que passa A Alma queria deitar-se cedo? Mas o Corpo quer uma coisa só: caminhar com a multidão!

⁠'Fonte histórica' é tudo aquilo que - por ter sido produzido pelos seres humanos ou por trazer vestígios de suas ações e interferência - pode nos proporcionar um acesso significativo à compreensão do passado humano e de seus desdobramentos no Presente. As fontes históricas são a…
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⁠'Fonte histórica' é tudo aquilo que - por ter sido produzido pelos seres humanos ou por trazer vestígios de suas ações e interferência - pode nos proporcionar um acesso significativo à compreensão do passado humano e de seus desdobramentos no Presente. As fontes históricas são as marcas da história. Quando um indivíduo escreve um texto, ou retorce os galhos de uma árvore de modo a que este sirva de sinalização aos caminhantes em certa trilha; quando um povo constrói seus instrumentos e utensílios, mas também nos momentos em que modifica a paisagem e o meio ambiente à sua volta - em todas essas situações, e em muitas outras, homens e mulheres deixam vestígios, resíduos ou registros de suas ações no mundo social e natural. Esse imenso conjunto de vestígios - dos mais simples aos mais complexos - constitui o universo de possibilidades de onde os historiadores irão constituir suas fontes históricas

⁠Se um dia tivermos tecnologias como as 'máquinas do tempo' e os 'visores do tempo', os historiadores terão outras possibilidades de visitar o passado das diversas sociedades que lhes interessam, ou talvez a oportunidade de vislumbrar em telas de computador ou de TV imagens perti…
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⁠Se um dia tivermos tecnologias como as 'máquinas do tempo' e os 'visores do tempo', os historiadores terão outras possibilidades de visitar o passado das diversas sociedades que lhes interessam, ou talvez a oportunidade de vislumbrar em telas de computador ou de TV imagens pertinentes aos vários processos históricos que atravessaram o tempo da vida humana sobre a Terra, e mesmo antes. à semelhança de um astrônomo que olha no céu noturno as estrelas, e nesta operação captura com seus telescópios o brilho de astros que já desapareceram há milhões de anos, não acho impossível que se desenvolvam no futuro tecnologias capazes de apreender as luzes do nosso próprio passado planetário e humano. [...] Neste momento, no entanto, os historiadores não possuem outro visor do tempo que não sejam as próprias fontes históricas com as quais já estão tão acostumados a lidar desde os primórdios da historiografia. Para olhar o passado e apreendê-lo de alguma forma - mas, sobretudo, para compreendê-lo por dentro, permitindo-nos fazer interpretações adequadas sobre as relações humanas e sociais -, precisamos analisar atentamente os vestígios e tudo o mais que tal passado nos deixou. Estes vestígios, evidências, textos escritos e objetos materiais - capazes de registrar tanto rupturas do passado em relação ao presente como de manifestar continuidades entre as duas temporalidades sob formas as mais diversas - são as chamadas 'fontes históricas'.

⁠A linguagem humana, e os discursos por ela produzidos, são necessariamente polifônicos - mesmo naqueles momentos em que pensamos que estamos emitindo uma ideia única e unidirecional, a uma só voz. Podemos compreender isto a partir de um exemplo simples. Suponhamos que historiado…
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⁠A linguagem humana, e os discursos por ela produzidos, são necessariamente polifônicos - mesmo naqueles momentos em que pensamos que estamos emitindo uma ideia única e unidirecional, a uma só voz. Podemos compreender isto a partir de um exemplo simples. Suponhamos que historiadores e antropólogos de um outro planeta - no qual já tivessem sido abolidas todas as formas de desigualdade social - aportassem na Terra e se deparassem com uma inscrição com os seguintes dizeres: 'todos os seres humanos são iguais, independente de cor, gênero ou convicção religiosa'. Para eles, pertencentes a uma sociedade na qual tal frase não precisa ou não pode ser dita, dada a sua obviedade, a inscrição revelaria luminosamente uma outra voz e uma mensagem oculta: a de que temos, neste mundo, desigualdades de todos os tipos; e de que, por isso mesmo, há uma luta constante contra elas [trecho extraído do livro 'Fontes Históricas - uma introdução aos seus usos historiográficos'. Petrópolis: Editora Vozes, 2019, p.289]

Qualquer fonte histórica está em uma relação circular com a história: 'produz História' [ao participar da História escrita pelos historiadores] e é 'produto da história'. [trecho do livro 'Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos'. Petrópolis: Editora Vozes,…
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Qualquer fonte histórica está em uma relação circular com a história: 'produz História' [ao participar da História escrita pelos historiadores] e é 'produto da história'. [trecho do livro 'Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos'. Petrópolis: Editora Vozes, 2019, p.258]

O QUE É ABSTRAÇÃO? . .
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O QUE É ABSTRAÇÃO? . . "Quando estamos diante de um objeto concreto ou de uma cena, temos perante nossos sentidos e possibilidades de percepção um fragmento da realidade que reúne uma miríade de características e especificidades. Abstrair, no entanto, é a capacidade de desconsiderar este emaranhado de aspectos que constituem a totalidade concreta do objeto abordado e considerar só aqueles aspectos que nos interessam. . O homem paleolítico começou a se distinguir de outros animais quando passou a olhar para os galhos caídos ao chão de uma nova maneira, deixando de enxergá-los como o que são concretamente – isto é, abstraindo uma série de elementos que fazem de cada galho um objeto único – para passar a enxergar este ou aquele galho como um “apanhador de frutas”. Visto desta nova maneira – com a abstração de todas as características desnecessárias e a preservação, na mente, apenas das propriedades de solidez e forma alongada do galho – este objeto pôde assumir a função de cutucar uma árvore para precipitar a queda de um fruto. A abstração, enfim, transformou o galho seco em um “apanhador de frutas” – um instrumento capaz de interferir e modificar a realidade, no caso expandindo a capacidade manual de se disponibilizar de alimentos. . Com a capacidade de abstração, os seres humanos começaram a transformar pedras pontiagudas em armas, troncos flutuantes em pequenas embarcações improvisadas. Ainda no período paleolítico, passariam a juntar diferentes objetos para construir ferramentas sofisticadas: lanças de ponta de sílex, machados de pedra, agulhas. Com a capacidade de abstração, logo desenvolveriam a linguagem simbólica, e também aprenderiam a contar. . Por fim, os seres humanos aprenderiam a conceituar. O conceito é o produto mais refinado da capacidade de abstrair, já que, para conceituar, precisamos nos abstrair de alguns aspectos concretos para passar a enxergar mentalmente apenas aquilo que nos interessa. Abstrair é o ato de abandonar momentaneamente a realidade concreta – ou deslocá-la, por instantes, para um contracanto – de modo a recriar uma outra realidade: operacional, funcional, referencial, audaciosa, liberta de amarras" . . [trecho extraído de BARROS, José D'Assunção, O Uso dos Conceitos: uma abordagem interdisciplinar. Petrópolis: Editora Vozes, 2021, p.38-39] "⁠

⁠A TERRA PLANA . .
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⁠A TERRA PLANA . . Descobriram que. a Terra é plana e as pessoas chatas. Definiram, de vez por todas, que a humanidade insana não vale um dobrão de prata . Ah, deuses da virgem mata! A Gangue dos Decibéis com dois toscos pares de régua redesenhou um universo andrajoso e deselegante . A Terra, tão coitada como arrogante, tornou-se uma prisão de gelo que olha para o restante espaço à maneira de um estranho prato de borda dura como a lei . . O Sol, outrora um rei, de sua ideologia de gênero foi pomposamente destronado e agora corre, corre, corre humilde e desesperado . Mero pimpolho, de fogo endiabrado, tem agora o tamanho da Lua e ambos são bolinhas simplórias que correm uma atrás da outra como cão e cadela em cio . E, falando em cão, por desafio, era tudo conspiração desde as mais das priscas eras desde as sociedades secretas que se escondem sob o chão . Com a terra plana, de roldão, toda ciência se dissolveu As matemáticas se danaram. a gravidade saiu flutuando como bolhas (ou moedas) de sabão [publicado em Scriptorium, vol.7, nº1, 2021]

⁠⁠Não existe socialismo pleno sem democracia. Comparo tal formação social a um corpo sem alma, ou a uma espécie de sociedade de formigas. Neste tipo de aleijão sociopolítico, a riqueza social pode ter sido distribuída, mas a liberdade não foi compartilhada. Enquanto isso, também…
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⁠⁠Não existe socialismo pleno sem democracia. Comparo tal formação social a um corpo sem alma, ou a uma espécie de sociedade de formigas. Neste tipo de aleijão sociopolítico, a riqueza social pode ter sido distribuída, mas a liberdade não foi compartilhada. Enquanto isso, também não existe democracia plena sem socialismo. Tal formação social configura uma grande mentira; é algo como uma alma perdida no limbo, sem possuir um verdadeiro corpo. De que vale o direito de ir e vir se não temos recursos para comprar a passagem? Efetivamente, não existe Capitalismo com Democracia. Nas ''democracias' liberais, é impressionante o incessante trabalho histórico que precisa ser feito diariamente - através do controle das mídias, da desinformação, da Educação coibida ou manipulada, do encobrimento da parcialidade jurídica - para não ficar evidente a todos que Capitalismo e Democracia são totalmente incompatíveis. A incompatibilidade entre democracia e capitalismo está sempre lá, embora as vezes mais ou menos encoberta;. Mas há momentos em que esta contradição fica bem exposta, como uma imensa ferida à flor da pele. Todos podem vê-la, embora alguns finjam não enxergá-la, e outros desviem os olhos. [BARROS, José D'Assunção. Páginas de um Diário Não Escrito]

⁠A miséria, a solidão, o desemprego - e mesmo a desfuncionalidade, que é o destino de uma ampla maioria de pessoas que não trabalham com aquilo que amam ou para o qual são vocacionadas - não são, de modo algum, fracassos pessoais, mas sim fracassos do sistema que produz estas ano…
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⁠A miséria, a solidão, o desemprego - e mesmo a desfuncionalidade, que é o destino de uma ampla maioria de pessoas que não trabalham com aquilo que amam ou para o qual são vocacionadas - não são, de modo algum, fracassos pessoais, mas sim fracassos do sistema que produz estas anomalias e as transforma em regra. Em um mundo verdadeiramente harmônico todos encontrariam um trabalho que gostassem de fazer, ou no qual se sentissem valorizados. Todos também seriam bem renumerados por aquilo que fazem bem, e a fome e a miséria seriam apenas vagas referências históricas que os ajudariam a valorizar ainda mais a plenitude da vida. Também não haveria solidão e inadaptação social, pois todos encontrariam os espaços de sociabilidade apropriados e seriam apresentados àqueles com os quais poderiam compartilhar a felicidade. Mas o que ocorre neste sistema que nos escraviza, isola-nos uns dos outros, desfuncionaliza nossas existências profissionais e nos coloca diariamente diante da miséria - nossa ou de nossos semelhantes - é que cada um destes fracassos é atribuído aos indivíduos que deles padecem. São, na verdade, fracassos do próprio sistema. O dia que todos compreendessem isso também seria o dia em que saberíamos que o desemprego é responsabilidade de todos, assim como a solidão e as inadaptações sociais de todos os tipos. De alguma maneira, também temos de enfrentar o fato de que, se ocorrem diariamente crimes de todos os tipos, isso não se dá apenas pela maldade individual propriamente dita, mas porque o sistema é criminoso, como um todo, e porque produz criminosos. O racismo ocorre porque estamos imersos em um sistema racista; de maneira análoga, não são os homens que são sexistas - o sistema é que é sexista. Como sair deste círculo vicioso? Despertar, de um ponto de vista individual, é já um começo, mas ainda não é uma solução. Precisamos despertar coletivamente. Mas como vencer as forças que nos mantém no sono, que vivem do nosso sono, que cultivam a nossa inconsciência coletiva? [BARROS, José D'Assunção. Páginas de um Diário]

⁠[DEFINIÇÃO ESTRUTURAL DE CONCEITO] Um conceito é uma estrutura harmônica de sentidos, cuja 'compreensão' é constituída por diversas 'notas' que interagem umas sobre as outras (e todas elas sobre o todo).⁠ [trecho de BARROS, José D'Assunção. O Uso dos Conceitos - uma abordagem…
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⁠[DEFINIÇÃO ESTRUTURAL DE CONCEITO] Um conceito é uma estrutura harmônica de sentidos, cuja 'compreensão' é constituída por diversas 'notas' que interagem umas sobre as outras (e todas elas sobre o todo).⁠ [trecho de BARROS, José D'Assunção. O Uso dos Conceitos - uma abordagem interdisciplinar. Petrópolis: Editora Vozes, 2021, p.158].

⁠[AS TRÊS QUESTÕES EXISTENCIAIS FUNDAMENTAIS, E O ACORDE DA VIDA] Existem três grandes perguntas que sempre intrigaram os seres humanos. Qual foi a origem do Universo? Como começou a Vida? Como surgiu a Consciência? Estas são as três perguntas de maior profundidade existencial q…
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⁠[AS TRÊS QUESTÕES EXISTENCIAIS FUNDAMENTAIS, E O ACORDE DA VIDA] Existem três grandes perguntas que sempre intrigaram os seres humanos. Qual foi a origem do Universo? Como começou a Vida? Como surgiu a Consciência? Estas são as três perguntas de maior profundidade existencial que podemos fazer; embora, para elas, não tenhamos respostas mais efetivas, senão aquelas produzidas com algum teor especulativo. De um ponto de vista mais científico, os físicos desenvolveram algumas hipóteses instigantes sobre a primeira das três perguntas, tomando por base a observação de certos indícios como a expansão acelerada do universo visível . Quanto às duas outras perguntas – a origem da vida e a origem da consciência – pouco sabemos. Não sabemos, por exemplo, se a vida é um fenômeno isolado, que aconteceu no planeta Terra, ou se também ocorreu em outros pontos deste vasto universo constituído de bilhões e bilhões de estrelas. Não sabemos por que a vida começou, nem como se deu este milagre (ou extraordinário acaso) que teria sido o surgimento da vida em meio à matéria inerte e inorgânica. Não obstante não termos acesso ao por que e ao como, sabemos com considerável precisão quando surgiu a vida em nosso planeta – pois a ciência se capacitou para ler esta informação em registros fósseis e microfósseis de todos os tipos. Sabemos também quais sãos os elementos necessários à existência da vida. Talvez ainda venha a ser descoberta um dia alguma peça que esteja faltando neste intrigante quebra-cabeça, mas de maneira mais geral podemos descrever com alguma precisão a combinação de elementos e fatores que possibilitaram e possibilitam a existência dos vários tipos de vida que até hoje conhecemos. Além disso, existe ainda um conjunto irredutível de elementos e propriedades que são compartilhados por todos os seres vivos, da mais singela bactéria ao mais complexo dos seres pluricelulares. Este conjunto mínimo de elementos necessários que caracteriza todo e qualquer ser vivo, inclusive o homem, é o que chamaremos de ‘acorde da vida’. [trecho extraído de BARROS, José D'Assunção. O Uso dos Conceitos - uma abordagem interdisciplinar. Petrópolis: Editora Vozes, 2021, p.223-224].

⁠[CORPORATIVISMO NA HISTORIOGRAFIA] Embora ocasionalmente um certo sentimento corporativo leve alguns dos historiadores de formação – ou seja, aqueles que se graduaram em História em uma universidade – a apenas considerarem como historiografia aquilo que foi produzido pelos hist…
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⁠[CORPORATIVISMO NA HISTORIOGRAFIA] Embora ocasionalmente um certo sentimento corporativo leve alguns dos historiadores de formação – ou seja, aqueles que se graduaram em História em uma universidade – a apenas considerarem como historiografia aquilo que foi produzido pelos historiadores profissionais e graduados, não vejo nenhum problema em que também consideremos como historiografia as obras produzidas por historiadores não-especializados. Há muitas maneiras de nos aproximarmos adequadamente, e de modo sério, de um determinado campo de saber, que não necessariamente através dos bancos escolares superiores. Dito isto, é claro que aqueles que pretendem escrever História sem terem se formado em História – se desejarem realmente escrever algo relevante e bem aceito na área – precisarão se aproximar seriamente do modus operandi dos historiadores, dos procedimentos bem aceitos no campo, das suas metodologias, dos seus modos de trabalhar conceitualmente evitando deslizes que são muito comuns entre aqueles que não estão efetivamente familiarizados com a ciência histórica. [trecho extraído de BARROS, José D'Assunção. "Historiografia: todas as relações possíveis" In: A Historiografia como Fonte Histórica. Petrópolis: Editora Vozes, 2022, p.17].

⁠[DEFINIÇÃO DE MÚSICA] A Música pode ser definida como a arte que organiza sons de modo a produzir resultados e efeitos diversos nos seres humanos – sendo que os homens e mulheres tanto podem produzi-la como criadores (compositores, instrumentistas, etc), como consumi-la em um p…
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⁠[DEFINIÇÃO DE MÚSICA] A Música pode ser definida como a arte que organiza sons de modo a produzir resultados e efeitos diversos nos seres humanos – sendo que os homens e mulheres tanto podem produzi-la como criadores (compositores, instrumentistas, etc), como consumi-la em um processo de audição que não deixa de ser também criativo. Além daquela finalidade estética que nos é tão familiar em muitas das sociedades conhecidas, a Música também pode se associar a inúmeras outras práticas. Assim, quando uma música desenvolve certos ritmos, pode mobilizar os seres humanos para a Dança – uma arte que não tem muito sentido senão associada à Música. Em muitas sociedades, como as indígenas, a Música pode ainda assumir uma importante função de trazer coesão e sociabilidade ao grupo, assim como pode ocupar um lugar proeminente em certos rituais e ritos de passagem. Isso também não é estranho às nossas sociedades ditas “civilizadas”, e não é difícil imaginar inúmeras situações nas quais a Música desempenha um relevante papel social ou ritualístico. Posto isto, podemos pensar efetivamente a Música como uma arte entre outras, capaz de desenvolver as suas próprias finalidades estéticas. Seria uma longa discussão, que não caberia propriamente neste ensaio, aquela que poderia mostrar que – embora a função estética da Música frequentemente se volte para a produção de efeitos associáveis à beleza – inúmeras outras sensações podem ser inspiradas nos seres humanos através das músicas que estes escutam. [trecho extraído de BARROS, José D'Assunção. O Uso dos Conceitos - uma abordagem interdisciplinar. Petrópolis: Editora Vozes, 2021, p.133].