E então, de repente, sem rufar de tambores ou troar de trombetas, chega o dia em que somos compelidos, não por Deus, mas pela consciência, a prestar contas dos talentos que nos foram confiados. Uma estratégia é tentar se convencer de que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena". Mas nem sempre funciona.
Caminhar de manhã pelas calçadas ensolaradas, sentindo o cheiro das plantas e admirando as cores da cidade que desperta, dando bom dia para pessoas que sorriem para mim sem sequer me conhecer, tem sido algo mágico em minha vida -- quase tão bom como dormir até mais tarde numa cama bem quentinha.
Embora sejam sinônimos em certo sentido, existe uma diferença substancial entre lealdade e fidelidade. A lealdade é espontânea e vem do coração. A fidelidade, nem sempre: pode ser apenas um subproduto de convenções, imposições ou conveniências. Entre uma pessoa leal e uma fiel, vou sempre preferir a leal.
Para que você e eu pudéssemos existir, o sopro da vida precisou ser transmitido de geração em geração, desde os primeiros seres vivos até nós. Um fio de prata jamais rompido que nos liga às primeiras formas de vida, aos precursores dos precursores dos humanos mais remotos. Procuro lembrar-me disso sempre que, por uma dessas muitas chateações do cotidiano, fico propenso a pensar que a vida é banal.
Sonhos frustrados não devem ser motivo de tristeza, se para buscar a sua realização vencemos o medo, e ousamos, e criamos, e nos abrimos às experiências, e expandimos a mente, e avançamos para além de nossas limitações. Celebremos os sonhos que põem a vida em movimento, bem-sucedidos ou não.
A vida é um livro do qual só podemos ler uma página por dia. Não sabemos o que está escrito na página seguinte, nem quantas páginas ainda há para ler. Essa condição de imponderabilidade nos autoriza a acreditar que tudo é possível. Particularmente, gosto de pensar que o melhor está por vir.
"Você fica nesse celular o dia inteiro", repreendeu a mãe.
"Olha que manhã mais linda. Saia de casa! Vá curtir esse sol maravilhoso. A vida está lá fora, filha!"
Ela saiu, pisou num dos inúmeros buracos da calçada, torceu o tornozelo e quebrou um dente da frente.
Fim.