Eu estarei dentro de você quando acordar amanhã
Em algum lugar onde alguém jamais esteve
Ainda me perguntando se eu deveria ter mesmo entrado...
...dentro de você
Sortilegios...
Só foi eu dizer
cheiro de laranja
e água com dois corpos
que olhando pro céu
rindo, brincou
“Parece poeta baiana
enchendo a gente de mel”
Mas nem baiana eu sou
E muito menos poeta!
Só experimentando para saber o gosto que tem
Você nunca vai ser completo se ficar no meio
Nem vai ter um copo cheio se não encher
É procurando que você realmente acha
Seja uma boa sorveteria ou a noticia que não queria
Nem sempre aquilo que você imagina ser, é
Eu mesmo, nem sabia de onde vinham as borboletas
Até que descobri…
Querida Clarice,
Ainda bem que a gente é assim, né? Eu também vejo bosques nas nuvens. Outro dia mesmo, passou um jacaré e um elefante. Vi da minha janela enquanto lia o que você escreveu. Depois eu adormeci coberta com suas palavras e foi tão macio. Adoro fins de semana com janela de olhos abertos, vento fresco trazendo folhinhas de árvores pra dentro do quarto e cheiro de livro velho na cabeceira.
A vida é mesmo uma roda gigante. Da minha cabine, vejo um mundo maluco, indecente, esperando a gente pra se divertir dentro dele. As portas das cabines se abrem, a gente fica girando e a vida corre. Às vezes, vejo tudo por cima e é mais bonito. Mas gosto quando minha vida passa raspando no chão e eu me levanto de novo. Aqui dentro entraram e saíram muitas paixões. Amores, dois. De varias formas eu amei, senti e vivi. E embora eu saiba que o céu que vejo é diferente do céu que as outras cabines enxergam, prefiro um milhão de vezes as minhas estrelas, os meus sóis, as tempestades e as ventanias que deixo entrar todos os dias na minha vida, a viver dependo de uma previsão de tempo.
Vô Gustim
Contador de piada. Gordinho, vivia pra baixo e pra cima na cidade que morava numa motinha. Gostava de passarinhos e tinha um monte em casa. Adorava pegar a gente e colocar no colo pra contar historias. Fazia a gente rir. Minha mãe me disse que ele costumava falar de mim quando eu era pequena, por que eu saia correndo pela casa e acabava com qualquer paz… ele dizia “ih, Rose, essa menina vai dar trabalho quando crescer…”. Eu acho que meus avôs sabiam das coisas.
música tem esse poder sobre as pessoas
de nos levar para uma outra dimensão
onde as lembranças se tornam mais reais
quase palpáveis
e por um momento me vi num lugar
que de longe já se ouvia a alegria
senti o cheiro dos fogos de artifício que acendi
ouvir até o barulho que fez
e aquela estradinha de terra ficou longa
mas eu cheguei
cheguei com meus braços abertos
com os olhos cheios de esperança
e embora a vontade de que tudo fosse realmente
pra sempre
a realidade se tornou outra
mas aquela alegria de estar ali
vai ficar pra sempre aqui dentro de mim
e todas as vezes que eu escutar essa música
eu vou me lembrar
de que eu vivi aquela felicidade única
de que eu fiz parte daquele momento
por que muita coisa muda
e muda mesmo
mas nem todas.
E aquela frase
que a mãe da gente falava
sobre a verdade e a mentira
e você ignorava
agora aprende sozinha
a verdade as vezes machuca
incomoda
mas a mágoa um dia passa
a mentira não
a mentira é pra sempre
ela dura
é resistente
não tem cura
a mentira ultrapassa
e aniquila qualquer amor
mesmo os mais verdadeiros
mas ninguém é idiota eternamente
só a mentira é
verdadeiramente eterna
Meus anjos estão quietos
calados
estranhamente calados
dentro de mim
como crianças de castigo
no canto da sala
olhando a chuva pela janela
e secos – mordem a boca
mordem até sangrar
estão doidos
doentes
desvairadamente perdidos
dentro de mim
dentro do meu caos
dos meus labirintos
dos meus segredos
das minhas lembranças
dentro das minhas loucuras
em algum canto
dentro de mim
meus demônios os encontraram hoje
e - como eu - eles já não se importam.