Não levem a sério o peso que demonstro nas cordas velhas debaixo da pele,
Que percorrem quilômetros de corpo, levando rosas como fluidos.
Ainda não acordei para meu verdadeiro tempo.
Ainda durmo.
E sonho.
Não necessariamente nessa ordem.
Este é o Tempo.
Este ancião de roupas velhas e olhos lacrimejantes.
Este ser, que possuindo a rapidez e a fragilidade nas mãos, continuará dizendo:
— Esperem por mim. Irão se perder se eu não lhes mostrar o caminho.
Hoje eu acordei com o gosto da noite em minha boca
E uma leve sensação de ingratidão.
Sabe-se lá quem dormiu comigo.
Se foi a sombra de um Sim,
Ou o vulto de um Não...
O tempo é o silêncio disfarçado em ponteiros e esperas
Silêncio que insistimos em incomodar.
As horas que carrego no pulso derretem frágeis quando postas à mesa.
Se for dia ou noite, não importa.
Interessa que seja agora.
Importa que seja real...
Se eu fosse um passo
acho que não seria o próximo.
Quase nunca olho onde piso.
E se for pra chegar a algum lugar
me conformo que seja 1cm após o agora.
Não é medo.
É só uma tentativa de perpetuar o momento...
Por isso Solidão, peço encarecidamente, que suporte o fardo de me ver apenas quando se faz necessário encontro. Peço que acredite quando declaro minhas dores em ter-te presente, e minha alegria quando me vem em boa hora. Não encare como despedida, pois algo assim não é de todo mal. Mas não suporto mais essa overdose que o tempo insiste em remoer.
Ele esteve em todos os minutos do ponteiro, pendurando-se nos momentos, transpassando dores e afugentando velhos inimigos. A impaciência às vezes o desdobra. Coloca-o no bolso e carrega até a última hora. É de todo lerdo para os que sofrem, cruel para os que esperam e esperança para aqueles que, com sorrisos, dançam sobre sua ausência.
Essa loucura me ataca feito fera. Na doce intenção de me diferenciar. Por isso sangro (no sentido vida da palavra). Tenho moldado em mim um homem que não conhece o desprezo, que segura nas mãos um acaso certo, irmão gêmeo do destino.
A insanidade me vem como outro mundo. Outro nome pra mim. Um apelido talvez.
E então, na melodia amedrontada da respiração,
Tropecei de face nos dizeres calados daquele momento.
E antes que me intimidasse com olhos de chantagem,
Abracei-a com a boca que por direito é dela.
Tomando-lhe o fôlego,
Que por conquista,
É meu.
Quando me olho no espelho, vejo olhos profundos e cheios de histórias e por tanto, dotados de conhecimento e fragilidade. Quase sempre vejo um estranho penteando meus cabelos. Mãos macias, delicadeza fria. Alguém muito parecido com o ontem e talvez uma sombra perfeita de algo perdido entre o hoje e o amanhã.