Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também - mas Diadorim é a minha neblina...
Frases de Guimarães Rosa
307 frases
o coqueiro coqueirando as manobras do vermelho no branqueado do azul
Se todo animal inspira sempre ternura, que houve, então com o homem?
verdes vindo à face da luz na beirada de cada folha a queda de uma gota
tênue tecido alaranjado passando em fundo preto da noite à luz
alvor avançavam parados dentro da luz
mar não tem desenho o vento não deixa o tamanho...
tatalou e caiu com onda espiralada fragor de entrudo
o bambual se encantava parecia alheio uma pessoa
o arrozal lindo por cima do mundo no miolo da luz
entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai
Eu queria sair de tudo o que eu era, para entrar num destino melhor.
Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo.
Eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia d…
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Eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira— só meu companheiro amigo desconhecido.[...] Mas eu aguentei o aque do olhar dele. Aqueles olhos então foram ficando bons, retomando brilho. E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, désse as minhas carnes alguma coisa.
Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão.
1. Sou figura reduzida e de pouco aparecimento. 2. Quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa. 3. Quem rala no aspro não fantaseia.
Viver é etcétera!
O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre e amar, no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso,…
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O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre e amar, no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso, mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sabe, a gente volta.
O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
PÍLULAS DO GRANDE SERTÃO Coração da gente – o escuro, escuros. Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.
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PÍLULAS DO GRANDE SERTÃO Coração da gente – o escuro, escuros. Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade. Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. No sistema de jagunços, amigo era o braço, e o aço! Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. A colheita é comum, mas o capinar é sozinho. O diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! O diabo, na rua, no meio do redemunho. O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos... Pois, não existe! E, se não existe, como é que se pode se contratar pacto com ele? Quem muito se evita, se convive. Julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. O que lembro, tenho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Quem mói no asp'ro, não fantaseia. Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente. Vingar... é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia? Ser chefe – por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores. Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta. Comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem. Toda saudade é uma espécie de velhice. Riu, de me dar nojo. Mas nojo medo é, é não? Um sentir é o do sentente, mas outro é o do sentidor. Tudo é e não é. Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! O sertão é do tamanho do mundo. Sertão: é dentro da gente. O sertão é sem lugar. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. O sertão é uma espera enorme. Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas. A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver. Manter firme uma opinião, na vontade do homem, em mundo transviável tão grande, é dificultoso. Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... Feito flecha, feito faca, feito fogo. Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem. Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça. Otacília. Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era sempre novo. Afirmo ao senhor, minha Otacília ainda se orçava mais linda, me saudou com o salvável carinho, adianto de amor.
Para os almanaques No meu relógio, de uma para outra hora, quando o ponteiro menor sai a levar lembranças ,
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Para os almanaques No meu relógio, de uma para outra hora, quando o ponteiro menor sai a levar lembranças , passa-lhe a frente o grande, transportando intrigas
Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza.
O senhor… mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.
Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.