TRÂNSITO
As pessoas desnudam
Sua real personalidade
No trânsito.
É por isso que ele flui mal
E há tantos esbarrões.
Dois egos não ocupam
O mesmo lugar no asfalto.
(Guilherme Mossini Mendel)
POEMA IMPREVISTO
Quando a desgraça nos bate a porta,
Nossa vida vira do avesso.
Ninguém espera por um tropeço,
Se desespera com a sina torta.
Ninguém sabe onde encontrar forças,
Mas sempre procura nos seus.
É que quem nos encontra é a força,
Essa energia que se chama Deus.
Ele entra em nossa sintonia
E nos dá um caminho a seguir.
O tempo acomoda a agonia
E voltamos assim a sorrir.
(Guilherme Mossini Mendel)
BIOGRAFIA
Nasci em um lugar qualquer,
Compondo versos para velhos conhecidos.
Vendi mil livros para a Terra de Ninguém.
Fui premiado com o Troféu Abacaxi.
Fundei a Academia de Letras
Do povoado Cafundó do Além.
Fui traduzido para todas línguas mortas
E lido por fãs imaginários.
(Guilherme Mossini Mendel)
RECURSOS NATURAIS
Somos podados todos os dias.
Arrancam os nossos frutos
E não nos dão nem um pedaço.
Somos podados todos os dias.
Sugam toda a nossa seiva
E deixam nossas feridas abertas.
Somos podados todos os dias.
Destroçam as nossas raízes
E nos vendem em pedaços.
(Guilherme Mossini Mendel)
SOBRE VIVER
O trabalho traz dignidade ao homem.
A gente trabalha para sobreviver.
APENAS sobreviver!
A vida fica pra depois.
Depois, vem
o cansaço,
as dores,
as dívidas
e as dúvidas.
E a vida fica pra próxima...
(Guilherme Mossini Mendel)
PASSAGEM II
O tempo nos passa.
Às vezes, até nos queima.
Às vezes, até nos estraga.
Quase sempre, nos endurece.
Recheamos o tempo
e ele nos enche.
Dominamos o tempo
e ele nos foge.
Observamos
a sua passagem
e, com ele,
vamos embora.
(Guilherme Mossini Mendel)
UM RATO
Atropelaram um rato.
Mas ninguém deu importância.
Era só um rato.
Criatura menor,
Somente presa;
Que vive nos lugares esquecíveis,
Espalhando asco e doenças,
Sem qualquer intenção.
Poderia ser eu e você,
Embora nós tenhamos consciência
Das doenças e do asco que causamos,
Às vezes intencionalmente.
Mas não damos importância...
(Guilherme Mossini Mendel)
MUITO ALÉM DO OLHAR
Quando eu era pequeno,
assim que acordava,
permanecia de olhos fechados,
vislumbrando estradas
que se (me) confundiam.
Naquele tempo, não sabia
qual caminho escolheria.
Tudo me parecia
confuso e distante...
(E ainda me parece!)
Nesta tortuosa travessia
denominada vida.
(Guilherme Mossini Mendel)
CALÇADOS
O calçado mais apertado é a fome;
o mais desconfortável é a doença.
O calçado mais ordinário é a corrupção;
o mais desgastado é a demência.
O calçado mais cobiçado é a alegria;
o mais desejado é a harmonia.
O calçado mais criativo é a fantasia;
o mais inventivo é a sabedoria.
São calçados com os quais trilhamos
os caminhos que a vida nos dá.
(Guilherme Mossini Mendel)
A ÚLTIMA GOTA
A última gota
faz o copo transbordar.
Mas não é a última gota
que faz o copo transbordar.
São todas as anteriores,
que fizeram a sua parte
para a saturação do copo.
Tudo o que é preciso
para gerar o caos
é uma minúscula gota,
aquela última gota
que faz transbordar o copo,
que faz esvaziar a vida,
que faz apagar a chama.
(Guilherme Mossini Mendel)
PAPELÃO
Já era amanhã.
Logo pela manhã,
no asfalto molhado,
um papelão embolado
rolava com o vento.
Tão pouco desperto,
chegando mais perto,
vi que o tal papelão
não passava de um cão –
que triste lamento!
A criatura inocente,
um bom ser vivente,
pra sociedade doente,
é só um indigente
como lixo descartado –
mas que papelão!
(Guilherme Mossini Mendel)