O brasileiro tem uma vocação absurda para sentir pena, mas para o sentimento de justiça ele depende de alguns fatores, porque a justiça só não basta já que ele tem que demonstar-se sensível às causas, bem como encaixar o seu dom piedoso no cenário que exige apenas justiça esquecendo que para esta existir é preciso caber o "justo" no contexto, sentido que a piedade muitas vezes o faz abrir mão da justiça.
Quem não está preocupado em negociar, empenhando as suas verdadeiras ou falsas ações em nome do bem, com o universo para garantir um lugar no céu se comporta na vida com naturalidade sendo o melhor que é capaz de ser e sem retoques artificiais. Se assume como verdadeiramente é entre defeitos, virtudes e expectativas de aperfeiçoamento sem a obrigação de se justificar para as plateias a fim de receber boas notas sociais. Quem não está preocupado em negociar com o universo para garantir um lugar no céu deixa-o livre para fazer a parte que lhe cabe no que refere ao inevitável julgamento divino, pois nenhuma pressão comercial, emocional ou até mesmo espiritual, partindo de qualquer ser humano, especialmente daqueles que se auto avaliam merecedores de prêmios celestiais através do autoreconhecimento de suas benevolências, será capaz de influenciar a sentença individual no tribunal cósmico cujo os olhos observadores alcançam mais do que o que está visível no comportamento dos terráqueos.
Onde quer que você esteja seja e faça o seu melhor. Se estiveres num hospício seja o melhor louco, exerça a sua loucura com muita competência. Se estiveres num circo seja o melhor palhaço ou até mesmo o melhor acrobata, divirta a plateia com muita competência. Se estiveres numa luta seja o melhor guerreiro, defenda seu território, seja ele "o que for", com muita competência. Mas se estiveres num jardim não sejas a mais bela flor, sequer seja uma flor, seja apenas a brisa que observa, que suaviza os seus movimentos e que espalha o seu perfume, contudo seja competente no exercício de observar, suavizar e espalhar, bem como de desfrutar dos benefícios da natureza e de tudo que seja naturalmente espontâneo. Nem tudo num jardim precisa ser flor. e nem todas as flores são as melhores. A terra em si não é bela, mas ela é competente no seu papel ao servir de base para todo o cenário de beleza.
Seja competente mesmo que não possas ser o melhor.
Todos temos que, pessoalmente, trilhar a estrada da vida previamente traçada, ninguém será capaz de dar um passo por nós. Infelizmente também é fato que ninguém tem o poder de impedir que cada um, na sua estrada, enfrente os percalços do trajeto nem que se deleite com as belas paisagens, muito menos que não faça uso dos atalho se assim for a vontade do andarilho.
Alguns dizem que Deus nos deu dois ouvidos e uma boca que era pra gente ouvir mais e falar menos. Tudo é uma questão de ótica e conveniência. Eu digo que Deus nos deu apenas uma boca para provar que nem sempre dois é melhor que um, pois mesmo com dois ouvidos as pessoas fingem não ouvir o que deveriam ouvir para melhor refletirem e mudarem de postura a fim de atenderem, por exemplo, a demanda de sons que muitos, à sua volta, emitem em tom de socorro. Mesmo com dois olhos as pessoas se fingem de cegas para não se sentirem obrigadas a reagir diante de cenas desumanas onde muitos são obrigados a protagonizar. Porém uma única boca, sozinha, se tiver disposição, é capaz de gritar convocando todos aqueles que não se restringem no uso dos seus cinco sentidos a se engajarem em ações que minimizem os estragos causados pelos dotados da omissão justificada pelo comportamento dito como politicamente correto.
As permissividades da sociedade ao longo dos séculos desencadearam a atuante omissão humana, o que é um progresso de valor inestimável, além de refletir, qualitativamente, na vida da civilização moderna, bem como nas suas relações.
É para frente que se caminha. Avante, meu povo, nada é problema nosso!