Nasci
Nu da razão
Tenho muito para agradecer
A tantas pessoas.
Vestiram-me com amor
Com a arte da paciência
Ensinaram-me
Sobre a luz e as trevas
Ensinaram-me a caminhar
Gastaram seu tempo
Tempo é vida
E a cada gasto
Um pouquinho a mais que se morre.
Tenho tanto para agradecer
A tantas pessoas
Que sou o que sou
Graças a boa intenção
De muitos.§
O infinito
É mais que finito
Para quem sabe sonhar
As estrelas são contáveis
Para quem tem tempo
Para imaginar
É de cegar os olhos
Tanta massa e concreto
E velocidade
Da uma felicidade
Ir para o meio do mato
E saber que elas estão sempre ali
E sempre estiveram
Ganha-se tempo
Para perdê-lo
Que prazer enorme
Parar para recontar
Quantas estrelas tem no céu.§
Queria continuar um poema de Gullar
A Adélia falou que não,
Deixou claro que no trem não cabia,
Era sentimento demais.
Drummond concordou,
Falou que José era um chato e não gostava de passeio.
Pessoa chegou com Eros
E mostrou para Camões, que estava cansado do amor.
Neruda tentou ajudar,
Mas Wilde, com toda rebeldia,
Fez o poema correr.
Blake, com sabedoria,
Capturou tudo num pincel
E me deu de graça e sem explicação.
E eu flertei com a tinta,
Por causa de um sorriso. §
O meio fio
Que divide em dúvida a lembrança
Faz do homem um romeiro
O azedume
Fê-lo sério em brincadeira
Crente no in-crível
Ele acredita na vida velha
Deseja que sua tigela
Apague da barriga a ideia da fome
Na última estação
O passageiro espera
Que passe trem
Chamado esperança.§