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Frases de Gabriel Parice Lopes

75 frases

hereditário, até mim. Meu filho, minha filha, eu ainda não sei como será o seu rosto, se você vai carregar os meus olhos, o meu sorriso ou alguma mania tão parecida comigo que vai me fazer parar por alguns segundos diante de você tentando entender como alguém que ainda nem exist…
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hereditário, até mim. Meu filho, minha filha, eu ainda não sei como será o seu rosto, se você vai carregar os meus olhos, o meu sorriso ou alguma mania tão parecida comigo que vai me fazer parar por alguns segundos diante de você tentando entender como alguém que ainda nem existia conseguiu carregar alguma parte de mim, mas existe uma coisa que eu já sei antes mesmo de conhecer a sua voz, você nunca vai precisar olhar para dentro de si procurando uma razão para o meu amor. Eu quero que você cresça sabendo que foi desejado antes de ser visto, amado antes de ser tocado e esperado antes mesmo de ter um nome, porque eu conheço o estrago que a dúvida pode fazer quando ela cresce junto com uma criança. Eu sei como é olhar para os próprios pais e não entender por que o carinho parece tão difícil de alcançar, como se existisse alguma distância invisível entre você e as pessoas que deveriam ser o seu primeiro abrigo. Passei boa parte da infância tentando compreender coisas que uma criança nunca deveria precisar compreender, observando meu pai, observando minha mãe, tentando encontrar algum sentido nas dores que existiam dentro daquela casa e que, embora não tivessem começado comigo, acabavam chegando até mim. Meu pai tinha as próprias feridas, os próprios erros e as próprias maneiras de fazer o mundo pesar sobre quem estava perto dele, e minha mãe carregava as consequências de muitas dessas coisas dentro dela, junto com a sensação de ter perdido uma parte da própria juventude e de ter precisado amadurecer em lugares onde talvez só devesse ter vivido. Eu era pequeno demais para saber separar a dor dela da minha, então muitas vezes aquilo que machucava minha mãe encontrava em mim um lugar para continuar existindo, e eu recebia sentimentos que não sabia nomear, muito menos entender de onde vinham. Hoje eu consigo olhar para isso com outros olhos e perceber que ela também era uma pessoa tentando sobreviver às próprias circunstâncias, mas naquela época eu não tinha essa capacidade. Eu só sabia que alguma coisa estava errada e, como toda criança que ainda não conhece a complexidade dos adultos, comecei a procurar a resposta em mim. Talvez eu tivesse feito alguma coisa. Talvez eu não fosse bom o bastante. Talvez se eu fosse diferente, mais obediente, mais quieto, mais fácil de amar, alguma coisa dentro daquela casa finalmente encontrasse paz. Foi assim que algumas culpas cresceram comigo. A culpa por não conseguir proteger minha mãe, como se fosse responsabilidade de uma criança impedir a dor de um adulto. A culpa por sentir raiva de quem também estava sofrendo. A culpa por ter precisado de afeto justamente quando as pessoas ao meu redor estavam ocupadas demais tentando sobreviver às próprias dores para perceber que eu também precisava ser cuidado. E, enquanto outras pessoas podiam simplesmente atravessar a infância, eu fui aprendendo cedo demais a observar o ambiente, medir palavras, perceber mudanças de humor e tentar descobrir quando era seguro simplesmente existir. Eu não quero isso para você. Quero que a sua infância tenha espaço para ser infância, que você possa desperdiçar uma tarde brincando de alguma coisa que eu não entendo, que possa voltar para casa cheio de histórias inúteis e maravilhosas, que possa se apaixonar pela primeira vez sem medo de contar, errar sem imaginar que o seu erro vai fazer alguém deixar de amar você e crescer sem precisar descobrir cedo demais como os adultos escondem suas próprias dores. Quando alguma coisa acontecer, eu quero que você pense em mim como alguém para quem você pode correr, não alguém de quem precisa se esconder. Se o mundo te machucar, eu quero conhecer a ferida antes de perguntar quem teve razão. Se você fizer alguma coisa da qual tenha vergonha, quero que a primeira coisa que encontre nos meus olhos seja a certeza de que aquilo não mudou o lugar que você ocupa em mim. Se um dia você não souber o que está sentindo, quero que possa sentar ao meu lado em silêncio e ainda assim sentir que não está sozinho. Porque eu sei o que acontece quando uma criança aprende que precisa resolver tudo dentro dela. Ela cresce. E leva essa criança consigo. Durante muito tempo eu carreguei a sensação de que precisava ser forte antes mesmo de saber o que força significava, e talvez parte dos problemas que vieram depois tenham nascido justamente dessa falta de colo, dessa dificuldade de acreditar que alguém poderia ficar quando eu deixasse de ser conveniente, dessa necessidade de procurar nos outros aquilo que deveria ter aprendido primeiro dentro de casa. A ausência de afeto não desaparece quando a infância termina, as vezes ela apenas muda de roupa e passa a aparecer nos relacionamentos, nas escolhas, nos medos, na maneira como alguém ama e até na maneira como espera ser abandonado. Eu não quero que você precise aprender amor pela falta dele. Quero que você aprenda pelo excesso. Quero que você saiba que pode ser amado sem produzir nada em troca, que pode existir sem precisar provar o próprio valor, que pode discordar de mim sem perder meu respeito, que pode seguir uma vida completamente diferente da que eu imaginei e ainda encontrar em mim alguém torcendo por você. Não quero criar uma versão de você que corresponda às minhas expectativas, quero conhecer a pessoa que vai nascer quando você descobrir quem é. E se algum dia você se parecer comigo, que seja apenas nas coisas bonitas que eu conseguir deixar para trás. Talvez você tenha meu rosto, minha voz, meus gestos ou alguma mania que vai fazer sua mãe rir porque ela vai reconhecer imediatamente de onde veio, mas eu não quero que você precise carregar aquilo que me feriu só porque veio antes de você. Você não é a continuação das minhas dores, assim como eu não deveria ter sido responsável pelas dores dos meus pais. Eu passei muito tempo tentando não me tornar aquilo que me machucou e descobri que não basta fugir de uma herança para quebrá-la, é preciso olhar para ela de frente, reconhecer onde ela deixou marcas e decidir conscientemente o que termina ali. Eu não posso mudar o pai que tive, não posso devolver a infância que perdi, não posso apagar as vezes em que precisei entender sozinho coisas que deveriam ter sido explicadas com carinho, nem posso voltar no tempo para abraçar aquele menino e dizer que nada daquilo era culpa dele. Mas posso fazer uma coisa que talvez seja ainda mais importante. Posso impedir que ele continue existindo através de você. Se algum dia eu errar, quero que você veja em mim alguém capaz de reconhecer o próprio erro. Se eu estiver errado, quero que minha idade não seja uma desculpa para estar certo. Se você me mostrar uma dor que eu não consigo compreender, quero que minha primeira reação seja tentar conhecê-la, não diminuí-la. Eu não quero usar a autoridade de ser seu pai para impedir que você tenha voz, porque sei demais sobre o que acontece quando uma criança aprende que seus sentimentos precisam desaparecer para que os adultos consigam continuar. Você não vai precisar carregar a culpa pelo casamento dos seus pais, pelas dificuldades deles, pelas escolhas deles ou pelas coisas que aconteceram antes de você chegar. Se eu e sua mãe tivermos problemas, eles serão nossos. Se estivermos cansados, será nossa responsabilidade encontrar uma maneira de cuidar um do outro sem transformar você em testemunha ou responsável por aquilo que não lhe pertence. Eu quero que você tenha uma coisa que para mim demorou muito para existir, a certeza de que os adultos ao seu redor são responsáveis pelas próprias feridas. Você será filho. Nada além disso. E talvez seja justamente essa a maior forma de proteção que eu possa oferecer. Não quero que você seja meu confidente quando eu estiver quebrado, não quero que você precise escolher lados, não quero que sinta que precisa me salvar, muito menos que precise amadurecer para me entender. Se um dia eu estiver mal, vou tentar encontrar outros adultos para dividir o peso, porque você não nasceu para carregar aquilo que eu não consegui resolver. Você nasceu para viver. E eu quero assistir. Quero assistir você descobrir as coisas, mudar de ideia, escolher caminhos que eu jamais escolheria, quebrar a cara, voltar para casa, se apaixonar, perder alguém, ganhar alguma coisa importante, rir até faltar ar e chegar aos trinta anos contando uma história da sua adolescência que eu provavelmente vou fingir que já sabia. Quero estar presente nas partes bonitas e nas partes difíceis, não para controlar a sua vida, mas para que você nunca precise atravessar nenhuma delas acreditando que está sozinho. Talvez algum dia você me pergunte sobre o meu passado e eu precise falar das coisas que me fizeram ser quem sou. Talvez eu conte sobre um menino que cresceu cercado por adultos que também não sabiam muito bem como cuidar das próprias dores, sobre um pai que deixou marcas e uma mãe que também carregava marcas demais, sobre a culpa de ter visto coisas que nunca deveria ter visto e sobre a sensação de ter perdido pedaços de uma juventude tentando entender uma família que não sabia como permanecer inteira. Eu provavelmente vou chorar quando contar. Mas espero que, depois de ouvir tudo, você consiga perceber que aquelas histórias chegam até mim e param aqui. Não atravessam você. Porque você não precisa pagar pela minha infância, assim como eu nunca deveria ter precisado pagar pela infância dos meus pais. Eu não quero transformar aquilo que me faltou em uma dívida que você precisa quitar sendo o filho perfeito. Quero transformar aquilo em consciência, para que eu saiba exatamente o tipo de pai que quero ser quando você precisar de mim. E talvez seja por isso que pensar em você tenha uma tristeza tão bonita. Porque, de alguma maneira, eu consigo imaginar uma criança recebendo aquilo que um dia eu procurei sem saber como pedir. Consigo imaginar alguém crescendo com a certeza de que existe uma pessoa no mundo para quem sua existência nunca será um peso. Consigo imaginar você entrando pela porta depois de um dia ruim, jogando as coisas no chão, sentando ao meu lado e contando alguma coisa que para qualquer outra pessoa pareceria pequena, mas que para mim será importante simplesmente porque aconteceu com você. E talvez naquele momento eu entenda que não consegui voltar para buscar aquela criança que fui, mas consegui impedir que ela desaparecesse sem deixar nada de bom para trás. Ela me ensinou o que eu não quero repetir. Ela me mostrou onde dói. E, de alguma forma, me trouxe até você. Se um dia você olhar para mim e perceber que somos parecidos, eu espero que não seja preciso ter medo daquilo que encontrou. Quero que você possa reconhecer meu rosto no seu sem encontrar nele a obrigação de repetir minha história. Quero que você carregue meu sangue sem carregar meus fantasmas, que tenha meus olhos sem enxergar o mundo através das minhas cicatrizes e que, quando pensar em mim, a palavra que venha antes de qualquer outra seja abrigo. Porque eu quero ser o homem que fica. O homem para quem você liga quando não sabe para onde ir. O homem cujo abraço não precisa ser merecido. O homem que consegue ouvir um “eu errei” sem transformar aquilo em vergonha. O homem que, mesmo depois de uma discussão, ainda deixa a porta aberta. E, principalmente, quero ser aquele pai que você nunca precisará perguntar se ama você, porque isso estará tão presente na maneira como eu te olho, te escuto, te protejo e te deixo ser quem você é que a pergunta sequer vai precisar nascer. Quando você for adulto, talvez já não precise tanto de mim. Talvez tenha sua própria casa, sua própria família, seus próprios problemas e uma vida que eu só vou conhecer em partes. Mas eu espero que alguma coisa permaneça intacta dentro de você, uma memória simples de quando era pequeno e acreditava que o mundo podia ser enfrentado porque seu pai estava por perto. E se algum dia você tiver um filho, talvez compreenda por que eu escrevi tudo isso antes mesmo de saber quem você seria. Eu não estava tentando imaginar uma criança perfeita. Estava tentando imaginar uma criança livre daquilo que me aprisionou. Eu não quero ser lembrado como o pai que nunca errou. Quero ser lembrado como o pai que tentou não fazer você pagar pelos erros que vieram antes dele. Quero que você saiba que eu também tive medo, que também carreguei culpa, que também precisei aprender a amar sem confundir amor com abandono, mas que em algum momento decidi que a minha história não precisava continuar exatamente como começou. Algumas heranças são feitas de sangue. Outras são feitas de silêncio. Eu quero que a minha para você seja feita de amor. E talvez seja essa a única maneira que encontrei de conversar com aquela criança que ainda existe em algum lugar dentro de mim, prometendo a ela que o que faltou não será esquecido, mas também não será repetido. Porque um dia você vai nascer, vai olhar para mim sem saber absolutamente nada sobre o homem que está diante de você, e eu vou ter a vida inteira para te mostrar. Nesse primeiro olhar, eu espero que você não veja perfeição. Espero que veja presença. E, quando você crescer, quando puder entender todas as coisas que eu não consegui explicar enquanto era pequeno, talvez finalmente consiga compreender a promessa que fiz antes mesmo de você existir eu não posso mudar o pai que eu tive, nem a mãe que tive, nem salvar o menino que fui, mas posso amar você de uma maneira que faça aquela história terminar em mim. E, se eu conseguir fazer isso, talvez pela primeira vez uma coisa que começou como ausência termine como presença, uma coisa que começou como culpa termine como proteção, e tudo aquilo que um dia me fez perguntar se eu era digno de amor encontre finalmente uma resposta em você. Não porque você veio me curar. Mas porque você nunca precisará ser ferido para aprender o que é ser amado.

pródigo. Eu não pareço com ele. Pelo menos não quando me olho.
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pródigo. Eu não pareço com ele. Pelo menos não quando me olho. Algumas pessoas dizem que sim. Dizem que existe alguma coisa no meu rosto, no meu jeito, em alguma expressão que faço sem perceber. Eu escuto. Talvez elas estejam certas. Talvez exista alguma coisa. Mas eu nunca soube enxergar. Quando olho para mim, não vejo ele. Vejo a mim. E talvez seja justamente isso que me faça pensar tanto nele. Porque, se existe alguma coisa que eu realmente herdei, não foram os olhos, nem a voz, nem o rosto. Foram os vícios. Os malditos vícios. Talvez essa tenha sido a única herança que encontrou um jeito de chegar até mim. E é estranho pensar nisso. Porque eu não herdei as conversas que poderiam ter existido. Não herdei conselhos. Não herdei lembranças de infância ao lado dele. Não herdei aquelas pequenas coisas que parecem tão banais até você perceber que passou a vida inteira sem elas. Mas herdei isso. E, as vezes, parece que meu próprio corpo conhece caminhos que eu nunca quis aprender. Eu tento parar. Consigo por um tempo. Depois volto. E quando volto, existe aquela sensação incômoda de que talvez eu esteja repetindo alguma coisa que começou muito antes de mim. É aí que ele aparece. Não na minha frente. Dentro da minha cabeça. No subconsciente. Naquela parte de mim que funciona antes que eu consiga pensar. Uma reação. Um impulso. Uma escolha. E, por um segundo, eu paro e penso: “Isso veio de mim?” Ou veio dele? Eu odeio não saber. Talvez seja por isso que eu não consiga perdoá-lo. Não é só pela ausência. É pelo que a ausência deixou. Porque é fácil imaginar que alguém que foi embora simplesmente desapareceu. O problema é quando a pessoa vai embora e alguma coisa dela continua funcionando dentro de você. Aí você não sabe mais se está tentando esquecer alguém ou tentando arrancar uma parte de si mesmo. E eu não quero ser ele. Nunca quis. Não quero olhar para as minhas próprias mãos e encontrar as escolhas dele. Não quero reconhecer nele aquilo que existe em mim. Não quero que os meus erros tenham o nome dele escondido em algum lugar. Mas talvez eu precise admitir uma coisa. Talvez algumas pessoas estejam certas. Talvez eu realmente carregue alguma coisa dele. Só que não é isso que me define. Porque eu também carrego tudo o que veio depois. As pessoas que me ensinaram. As que me machucaram. As que eu amei. As escolhas que fiz sozinho. As vezes em que consegui ser diferente. As vezes em que falhei. Tudo isso também sou eu. E talvez seja essa a parte que ele nunca vai conseguir tocar. Ele pode ter deixado os vícios. Pode ter deixado perguntas. Pode ter deixado uma raiva que ainda não sei onde colocar. Mas não pode decidir o que eu faço com tudo isso. Talvez eu nunca consiga perdoá-lo. Talvez um dia consiga. Hoje eu não sei. E talvez eu não precise saber. Porque perdoar não pode significar fingir que nada aconteceu. Nem transformar ausência em presença só porque seria mais bonito contar a história assim. Ele não esteve. Isso também faz parte da história. E eu não preciso inventar outra para conseguir seguir. Talvez um dia eu consiga me livrar de tudo aquilo que herdei sem escolher. Talvez um dia eu olhe para algum vício e não reconheça nele nenhuma sombra. Talvez eu consiga pensar nele sem sentir que alguma coisa dentro de mim se contrai. Mas, enquanto esse dia não chega, eu continuo tentando. Não para provar que sou diferente dele. Mas porque quero descobrir quem eu seria se não precisasse passar tanto tempo tentando não ser. Porque eu não sou ele. Mesmo que exista alguma coisa dele em mim. Mesmo que às vezes eu me reconheça em coisas que gostaria de não reconhecer. Mesmo que o subconsciente ainda saiba o nome dele. Ele pode fazer parte daquilo que explica de onde eu vim. Mas não precisa fazer parte daquilo que eu vou me tornar. E talvez seja isso que eu esteja tentando aprender: eu não escolhi o que herdei. Mas ainda posso escolher o que fica.

clone. Com o avanço da tecnologia e, principalmente, com a minha completa falta de bom senso diante da modernidade, decidi que vou criar um clone seu. Não precisa se assustar. É só um projeto científico.
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clone. Com o avanço da tecnologia e, principalmente, com a minha completa falta de bom senso diante da modernidade, decidi que vou criar um clone seu. Não precisa se assustar. É só um projeto científico. Mais ou menos. A primeira especificação é simples, ele precisa ter a sua aparência. E quando eu digo a sua aparência, não estou falando apenas de cabelo, olhos, boca, altura, essas coisas básicas que qualquer programador preguiçoso colocaria no código. Quero o conjunto completo. Quero aquele rosto que parece ter sido desenhado com uma certa má intenção, porque não é possível uma pessoa sair por aí com essa cara e ainda esperar que os outros funcionem normalmente. Quero os seus olhos também. Mas não basta colocar a cor, o formato e a distância entre eles. Quero o jeito que você olha. Isso vai dar trabalho. Porque tem um tipo específico de olhar seu que provavelmente não existe em nenhum banco de dados. Aquele olhar que muda de significado dependendo do que está acontecendo. as vezes parece que você está prestando atenção. as vezes parece que está julgando. as vezes parece que sabe exatamente o que eu estou pensando e decidiu não comentar só para me deixar nervoso. O clone precisa disso. Inclusive, vou precisar instalar um módulo chamado “olhar de Luana”. Ainda estou tentando descobrir se é inteligência artificial ou ameaça psicológica. A voz também é indispensável. Não quero uma voz parecida. Quero a sua. Quero a maneira como você fala determinadas palavras, as pausas que você faz, o jeito como muda a voz quando está rindo, quando está brava, quando está com vergonha e principalmente quando tenta fingir que não está com vergonha, nessa sua defensiva absurda. Quero até aquelas palavras que só você falaria em determinadas situações. Porque uma inteligência artificial pode aprender milhões de idiomas, mas se ela não souber exatamente qual palavra você usaria para me tirar do sério, ela é simplesmente inútil. Pode desligar. Também quero suas manias. Todas. As pequenas, as bobas, as que você provavelmente nem percebe que tem. Quero que o clone faça aquela coisa específica que você faz quando está pensando. Quero que ele tenha suas reações involuntárias, suas implicâncias, seus jeitos, suas mudanças repentinas de assunto e até aquela capacidade impressionante de transformar uma conversa completamente normal em alguma coisa que eu vou ficar lembrando três dias depois. E, obviamente, quero instalar o seu senso de humor. Mas esse é perigoso. Porque o objetivo é criar um clone seu, não uma arma de destruição em massa. Embora, pensando bem, talvez as duas coisas sejam praticamente a mesma tecnologia. Também quero as nossas memórias. Todas. Quero que, quando chegar aquela hora silenciosa da noite em que o mundo inteiro parece diminuir o volume, eu possa sentar ao lado dele e dizer “Você lembra?” E ele lembrar. Lembrar das coisas que ninguém mais entenderia. Das conversas que começaram falando de uma coisa e terminaram em absolutamente nada. Das piadas que, explicadas para qualquer outra pessoa, perderiam completamente a graça. Dos momentos pequenos que não pareciam importantes quando aconteceram, mas que, depois de algum tempo, ganharam aquele peso estranho de coisa que a gente gostaria de viver de novo. Quero que ele ria das nossas lembranças. E quero que, as vezes, ele fique em silêncio comigo. Porque talvez seja essa a parte mais difícil de copiar. O silêncio. O seu silêncio nunca foi simplesmente ausência de palavras. as vezes ele dizia mais do que você conseguiria explicar falando. Então eu quero isso também. Quero até a sua maneira de ficar quieta. Quero o seu jeito de existir perto de mim sem precisar fazer nada. E, claro, existe uma especificação absolutamente indispensável o toque. Não adianta ter aparência perfeita, voz perfeita, memória perfeita, inteligência perfeita. Se eu não puder reconhecer você pelo jeito que a sua mão encontra a minha, o projeto fracassou. Se o abraço não tiver aquele negócio inexplicável que faz o resto do mundo parecer um pouco menos urgente, pode devolver para a fábrica. Se o toque não tiver a mesma capacidade de dizer “estou aqui” sem precisar pronunciar uma única palavra, nem instala. Porque, no fim, talvez seja esse o defeito fundamental da tecnologia. Ela consegue copiar quase tudo. Rosto. Voz. Movimento. Memória. Comportamento. Pode até aprender a responder exatamente como você responderia. Mas ainda não descobriu como fabricar a sensação de encontrar alguém e pensar, sem precisar dizer “Ah Era você.” E acho que é aí que o meu projeto começa a dar errado. Porque quanto mais eu tento especificar o que o clone precisa ter, mais percebo que não estou tentando criar uma segunda Luana. Estou tentando construir uma máquina capaz de reproduzir aquilo que acontece comigo quando você está por perto. E isso, infelizmente, não cabe em código. Não tem atualização. Não tem backup. Não tem versão premium. Nem a inteligência artificial mais avançada do mundo conseguiria entender por que uma determinada risada sua consegue mudar completamente o clima de uma noite. Então eu poderia continuar. Posso pedir o seu jeito de andar, o jeito de mexer no cabelo, as expressões que você faz sem perceber, as frases que só você fala, o seu olhar quando está feliz, o seu olhar quando está tentando esconder alguma coisa, a maneira como você pronuncia certas palavras, o seu abraço, o seu silêncio, as nossas memórias, as nossas piadas, os nossos códigos secretos... Mas quer saber? AH, DEIXA PRA LÁ. É MUITA COISA. O projeto ficou caro demais, a tecnologia ainda não chegou nesse nível e aparentemente eu descobri que fabricar uma Luana exige mais engenharia do que eu imaginava. Tem como você voltar logo mesmo? KKKK Porque, pensando bem, eu nem queria um clone. Eu só queria você. E, convenhamos, essa versão original ainda é infinitamente mais bonita.