Pão da Avó...
Final de tarde.
Aquele cheiro...
Humm! Bomm!
Pão no forno...
Mesa obesa...
Tem de tudo!
Boca molhada.
Vó Margarida!
E que carinho!
Gestos amáveis.
Abraço imane...
E me vê comer,
Ri a cada morder.
Saudades, vovó...
Intempestivo...
Em tempo estive?...
Sem tempo estou.
É tempo festivo?...
Paciência estourou.
Lembra tempestade.
Com forte trovoada.
Assim eu sou, estou,
De tempo em tempo.
Fora do tempo azado,
De súbito, impropício...
Hora errada, inopinado.
Previsível, imprevisto.
Chuvisco no molhado?
E inda quero ser quisto...
Vento Norte, Quente Vem...
Vento norte, vento quente...
Surge do nada, nos abraça,
Nos envolve, simplesmente...
Trazendo pra vida a "graça".
Vento quente, lá do norte?
Caminho em direção oposta,
Tentando rançar a má sorte
Que levo em minhas costas...
Vento de Santa Maria, vem...
Traz de volta minha inocência,
Sem a qual eu sou ninguém...
Limpa minhas sujeiras, retém
Meu bom caráter, a decência,
Neste corpo que valhe vintém...
Perdoe Minha Fúria...
Sou um homem calmo,
Tranquilo, ponderado.
Porém, eventualmente,
Tenho meus arroubos.
Não êxtase, mas fúria.
O animal sem controle
Me domina, aos gritos.
A razão, enfim, some...
E sob mercê da besta,
Ajo como tal, um tolo.
Faço tantas besteiras...
E quando a verve baixa,
Lamento... E tal criança
Arteira, murmuro: perdão?
Roda, Gira...
E o mundo gira, roda, gira...
Ou eu que giro a sua volta?
Tudo passa rápido, célere.
Visão distorce, vai e volta.
E o vento sopra orelhas.
Aquele zum, zum, zuum.
Será Deus fazendo "fuu"?
E de repente, tudo azul...
Como nos filmes, alentece.
Câmera lenta, "slow motion".
E um silêncio que aquece...
É assim a ágil roda da vida...
Assim é o brinquedo que gira.
Segue a girar, rodar, vertigem...
Meu Deus, Vou Morrer...
Trabalho com a morte
Dia após dia, "sempre".
Todos os dias vejo uma
Vida deixar este mundo.
Apesar desta "vivência",
Talvez pela louca rotina,
Talvez pela luta pela vida,
Não percebo minha finitude.
Quero dizer, não percebo
Que também vou morrer...
Ou melhor, quase esqueço.
E quando então lembro que
"Meu Deus, vou morrer...",
Iluminado, sinto: "Sou vivo!"
Abraço dos Filhos...
Cansado, exausto, só pó,
Após outro dia de labuta.
Até abrir a porta de casa
Torna-se difícil, uma luta.
Mas assim que adentro,
Na penumbra, pela sala,
Ouço as vozinhas: papai!
E sinto algo que avassala!
E envolto pelos bracinhos,
Finalmente suspiro, respiro.
Fecho olhos, abro sonhos.
E ouço até mesmo sininhos.
Viajo longe, até quase piro...
Doce abraço de meus filhos...
Reunião Dançante...
Vamos fazer uma
Reunião dançante?
E começava uma
Aventura e tanto.
Usual, na garagem.
Cadeiras de palha,
Holofotes de lata,
E papel celofane...
Noite cai, palpitação!
E na vitrolinha rolava
O último LP, o "hit"...
E, finalmente, colados,
Dançavamos, a passo,
No ritmo da ternura...
Capoeira, a Luta-Dança...
Chuveiro aberto, quente.
Porta aberta, segurança.
E o pequenino cantando.
Minha cadeira balança...
"Capoeira-a, capoeira-e"...
Vejo o corpinho gordinho.
Move bracinhos e cabeça.
"Que eu quero aprendê!".
Lembro da apresentação.
Ouço até os berimbaus...
"...com a voz no coração!".
"Eu vim aqui foi pra jogar".
Até minha criança já sabe,
Que a vida é lutar e amar...
Chega de Miséria?...
Passeava com meu filho.
Tomávamos sorvetes...
De longe, vi você sentar.
E na calçada se abancou.
Ao passarmos por você,
Nos olhamos nos olhos.
Mas os seus eram vazios.
Ou melhor, estavam secos.
Sedentos por alguma luz...
Corpo e alma num deserto.
Sem esperanças aparentes.
Qual a razão da sua miséria?
Não importa... O que espanta
É a indiferença. Quer um teco?
Síndrome do Pânico?...
Às vezes me dá um medo...
Tá tudo bem, e de repente
O mundo parece desabar...
Um peso, amargo na boca.
Estranho, fica difícil explicar...
E quando ocorre, me escondo.
Corro pra cama, pro cobertor.
E vira pra lá e pra cá, ânsia...
Então, acabo adormecendo.
Sonho muito, pesadelos até.
Horas passam e desperto...
E, olhos abertos, novo mundo.
Mais calmo, suave, tranquilo...
Pânico? Passou... Ora, reviver.
Mar, Me Leva...
Sentado nas areias da praia...
Sol desce no mar, que esfria.
Lua ascende, fogueira acesa.
Vento que balança palmeiras.
E o delicioso silêncio ao redor.
Só o mar ondando sob os pés.
Estrela Dalva, Vênus, diz olá...
Feliz, em paz, rio em resposta.
Onde estão os medos e a dor?
A brisa noturna varreu, levou.
Só restou alma limpa, sem ror.
E mais alguma coisa sobrou?
Talvez um resquício de amor.
E com esta bagagem me vou...
Prova da Apnéia...
Meia-noite, hora marcada.
Segunda prova de apnéia.
A primeira já foi positiva...
Os demais testes também.
A família espera ansiosa...
Os médicos, de prontidão.
Se positiva também: fim...
Doppler craniano afirmará:
Fim de sua "bela" história.
Morte que gerou crianças.
Sorriso restou na memória.
Mas não morre a esperança,
Que num dado dia veremos
Crianças correndo no jardim...
Toca o Violão, Menino...
E o menino toca o violão.
Dedilha belíssimos acordes.
Toca para amansar o vilão.
Pra que o tumor não acorde.
A música adormece os dedos,
O câncer, as dores, os medos.
Todavia, acorda esperanças,
Colore a fé com suas nuanças.
Sim, toca o violão menino...
Porque só a música te cura.
Nas entrelinhas, o destino...
E se Deus te der nova vida,
Melodie até a noite escura...
Dirá, ao final: missão cumprida...
Não é Fácil Ser Bom...
Não é fácil ser bom...
Ser justo e "perfeito".
As pedras estão aí,
Espalhadas na trilha.
As facilidades, idem.
Atalhos atraentes e,
Às vezes, incertos...
Raramente, corretos.
Quem segue a trilha
É chamado de tolo...
E se todos o fossem?
Que mundo "tolamente"
Feliz e tranquilo seria!
Tolice é não ser bom...