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Frases de Ferreira Gullar

86 frases

Como dois e dois são quatro Sei que a vida vale a pena Embora o pão seja caro
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Como dois e dois são quatro Sei que a vida vale a pena Embora o pão seja caro E a liberdade pequena

Não-coisa O que o poeta quer dizer no discurso não cabe
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Não-coisa O que o poeta quer dizer no discurso não cabe e se o diz é pra saber o que ainda não sabe. Uma fruta uma flor um odor que relume... Como dizer o sabor, seu clarão seu perfume? Como enfim traduzir na lógica do ouvido o que na coisa é coisa e que não tem sentido? A linguagem dispõe de conceitos, de nomes mas o gosto da fruta só o sabes se a comes só o sabes no corpo o sabor que assimilas e que na boca é festa de saliva e papilas invadindo-te inteiro tal do mar o marulho e que a fala submerge e reduz a um barulho, um tumulto de vozes de gozos, de espasmos, vertiginoso e pleno como são os orgasmos No entanto, o poeta desafia o impossível e tenta no poema dizer o indizível: subverte a sintaxe implode a fala, ousa incutir na linguagem densidade de coisa sem permitir, porém, que perca a transparência já que a coisa é fechada à humana consciência. O que o poeta faz mais do que mencioná-la é torná-la aparência pura — e iluminá-la. Toda coisa tem peso: uma noite em seu centro. O poema é uma coisa que não tem nada dentro, a não ser o ressoar de uma imprecisa voz que não quer se apagar — essa voz somos nós.

Dois e Dois: Quatro Como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena
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Dois e Dois: Quatro Como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena embora o pão seja caro e a liberdade pequena Como teus olhos são claros e a tua pele, morena como é azul o oceano e a lagoa, serena como um tempo de alegria por trás do terror me acena e a noite carrega o dia no seu colo de açucena - sei que dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena mesmo que o pão seja caro e a liberdade, pequena.

Subversiva A poesia Quando chega
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Subversiva A poesia Quando chega Não respeita nada. Nem pai nem mãe. Quando ela chega De qualquer de seus abismos Desconhece o Estado e a Sociedade Civil Infringe o Código de Águas Relincha Como puta Nova Em frente ao Palácio da Alvorada. E só depois Reconsidera: beija Nos olhos os que ganham mal Embala no colo Os que têm sede de felicidade E de justiça. E promete incendiar o país.

O Lampejo O poema não voa de asa-delta não mora na Barra
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O Lampejo O poema não voa de asa-delta não mora na Barra não freqüenta o Maksoud. Pra falar a verdade, o poema não voa: anda a pé e acaba de ser expulso da fazenda Itupu pela polícia. Come mal dorme mal cheira a suor, parece demais com o povo: é assaltante? é posseiro? é vagabundo? frequentemente o detêm para averiguações às vezes o espancam às vezes o matam às vezes o resgatam da merda por um dia e o fazem sorrir diante das câmeras da TV de banho tomado. O poema se vende se corrompe confia no governo desconfia de repente se zanga e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador. O poema é confuso mas tem o rosto da história brasileira: tisnado de sol cavado de aflições e no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, guarda um lampejo um diamante duro como um homem e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.

Nós, latino-americanos Somos todos irmãos mas não porque tenhamos
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Nós, latino-americanos Somos todos irmãos mas não porque tenhamos a mesma mãe e o mesmo pai: temos é o mesmo parceiro que nos trai. Somos todos irmãos não porque dividamos o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada sobre nossa cabeça. Somos todos irmãos não porque tenhamos o mesmo braço, o mesmo sobrenome: temos um mesmo trajeto de sanha e fome. Somos todos irmãos não porque seja o mesmo sangue que no corpo levamos: o que é o mesmo é o modo como o derramamos.

O homem está na cidade como uma coisa está em outra e a cidade está no homem
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O homem está na cidade como uma coisa está em outra e a cidade está no homem que está em outra cidade mas variados são os modos como uma coisa está em outra coisa: o homem, por exemplo, não está na cidade como uma árvore está em qualquer outra nem como uma árvore está em qualquer uma de suas folhas (mesmo rolando longe dela) O homem não está na cidade como uma árvore está num livro quando um vento ali a flolheia a cidade está no homem mas não da mesma maneira que uma pássaro está numa árvore não da mesma maneira que uma pássaro (a imagem dele) está/va na água e nem da mesma maneira que o susto do pássaro está no pássaro que eu escrevo a cidade está no homem quase como a árvore voa no pássaro que a deixa cada coisa está em outra de sua própria maneira e de maneira distinta de como está em si mesma a cidade não está no homem do mesmo modo que em suas quitandas praças e ruas

O QUE SE FOI O que se foi se foi. Se algo ainda perdura
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O QUE SE FOI O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?

Universo O que vi do universo até hoje foi pouco
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Universo O que vi do universo até hoje foi pouco mas, se penso em quanto meço, posso dizer que foi muito. Sei, de ler, que o universo é de tais dimensões que a própria luz só o atravessa depois e bilhões e bilhões de anos, e que nele há multidões de galáxias e sóis que talvez já morreram, antes de chegar a sua luz até nós. Deste modo, é correto dizer que o céu que ora espio é passado e que até pode ser que o universo que veja já tenha se acabado. Mas, de fato, não vejo a não ser nas revistas de astronomia: o lampejo espantoso de infinitas constelações a brilhar num abismo espectral e difuso de gases e poeira estelar que me deixa confuso. E assim, assustado e mudo, bem menor que um ínfimo grão de poeira, contudo, sou capaz de apreender, no meu íntimo, essas incontáveis galáxias, esses espaços sem fim, essa treva e explosões de lava. Como tudo isso cabe em mim? O fato é que qualquer vasta nuvem prenhe de sóis já mortos ou futuros não possui consciência, esse obscuro fenômeno surgido aqui na Via Láctea, ou melhor, na Terra, e talvez somente nela, não se sabe por quê, mas que permite ao cosmos perceber-se a si mesmo, e ter olhos pra se ver. Olhos que são nossos, lentes minúsculas mas sensíveis que captam a luz das nebulosas vinda de espaço e tempo inconcebíveis. É o que dizem, pois tudo o que vejo é, à noite, apenas o brilhar de distantes luzes no escuro. São estrelas? planetas no sistema solar? Somos algo recente e raro no universo, como rara é também a própria luz dos sóis deste sol que nos aclara. Todo universo é treva. Inalcançável vastidão escura dentro da qual os sóis, as explosões de gás e luz são exceções. O universo em sua vastidão vazia é espaço e treva, é matéria fria em que não há o mínimo sinal de vida ou consciência; o que é mental nele, ao que se sabe, está em nós, no mínimo do mínimo do existente e o que também ma treva luze é nossa VOZ inaudível no espantoso vão silente, Vi pouco do universo: afora a asa de luz e pó da Via Láctea, o que conheço são as manhãs que invadem minha casa.

Falar A poesia é, de fato, o fruto de um silêncio que sou eu, sois vós,
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Falar A poesia é, de fato, o fruto de um silêncio que sou eu, sois vós, por isso tenho que baixar a voz porque, se falo alto, não me escuto. A poesia é, na verdade, uma fala ao revés da fala, como um silêncio que o poeta exuma do pó, a voz que jaz embaixo do falar e no falar se cala. Por isso o poeta tem que falar baixo baixo quase sem fala em suma mesmo que não se ouça coisa alguma.

Perplexidades a parte mais efêmera de mim
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Perplexidades a parte mais efêmera de mim é esta consciência de que existo e todo o existir consiste nisto é estranho! e mais estranho ainda me é sabê-lo e saber que esta consciência dura menos que um fio de meu cabelo e mais estranho ainda que sabê-lo é que enquanto dura me é dado o infinito universo constelado de quatrilhões e quatrilhões de estrelas sendo que umas poucas delas posso vê-las fulgindo no presente do passado

No ombro do planeta (em Caracas) Oscar depositou
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No ombro do planeta (em Caracas) Oscar depositou para sempre uma ave uma flor (ele não fez de pedra nossas casas: faz de asa). No coração de Argel sofrida fez aterrissar uma tarde uma nave estelar e linda como ainda há de ser a vida. (com seu traço futuro Oscar nos ensina que o sonho é popular). Nos ensina a sonhar mesmo se lidamos com a matéria dura: o ferro o cimento a fome de humana arquitetura. Nos ensina a viver no que ele transfigura: no açúcar da pedra no sonho do ovo na argila da aurora na pluma da neve na alvura do ovo. -Oscar nos ensina que a beleza é leve.

[O sentido da minha vida] é inventado a cada momento, mas é claro que eu necessito da poesia, eu necessito da arte, eu necessito de estar discutindo essas coisas, de estar pensando nessas coisas que dão transcendência à vida. Eu não tenho dúvida alguma de que a arte é necessária…
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[O sentido da minha vida] é inventado a cada momento, mas é claro que eu necessito da poesia, eu necessito da arte, eu necessito de estar discutindo essas coisas, de estar pensando nessas coisas que dão transcendência à vida. Eu não tenho dúvida alguma de que a arte é necessária porque a vida não é suficiente, porque senão qual era a necessidade de inventar a arte? A necessidade é essa: as pessoas necessitam dela, por mais que aconteça coisa no mundo, a arte sobrevive, como uma forma de acordo com o momento, com a época, ela é uma coisa necessária, como a ciência é necessária, como a filosofia é necessária, como a religião é necessária, como a política é necessária.

Não posso defender um regime [o cubano] sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de…
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Não posso defender um regime [o cubano] sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.