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Frases de Fernando Pessoa

953 frases

ANIVERSÁRIO No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto.
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ANIVERSÁRIO No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Súbita mão de algum fantasma oculto Entre as dobras da noite e do meu sono Sacode-me e eu acordo, e no abandono
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Súbita mão de algum fantasma oculto Entre as dobras da noite e do meu sono Sacode-me e eu acordo, e no abandono Da noite não enxergo gesto ou vulto. Mas um terror antigo, que insepulto Trago no coração, como de um trono Desce e se afirma meu senhor e dono Sem ordem, sem meneio e sem insulto. E eu sinto a minha vida de repente Presa por uma corda de Inconsciente A qualquer mão nocturna que me guia. Sinto que sou ninguém salvo uma sombra De um vulto que não vejo e que me assombra, E em nada existo como a treva fria.

Nunca supus que isto que chamam morte Tivesse qualquer espécie de sentido... Cada um de nós, aqui aparecido,
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Nunca supus que isto que chamam morte Tivesse qualquer espécie de sentido... Cada um de nós, aqui aparecido, Onde manda a lei e a falsa sorte, Tem só uma demora de passagem Entre um comboio e outro, entroncamento Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento; Mas, seja como for, segue a viagem. Passei, embora num comboio expresso Seguisses, e adiante do em que vou; No términus de tudo, ao fim lá estou Nessa ida que afinal é um regresso. Porque na enorme gare onde Deus manda Grandes acolhimentos se darão Para cada prolixo coração Que com seu próprio ser vive em demanda. Hoje, falho de ti, sou dois a sós. Há almas pares, as que conheceram Onde os seres são almas. Como éramos só um, falando! Nós Éramos como um diálogo numa alma. Não sei se dormes [...] calma, Sei que, falho de ti, estou um a sós. É como se esperasse eternamente A tua vida certa e conhecida Aí em baixo, no café Arcada — Quase no extremo deste [...] Aí onde escreveste aqueles versos Do trapézio, doriu-nos [...] Aquilo tudo que dizes no «Orpheu». Ah, meu maior amigo, nunca mais Na paisagem sepulta desta vida Encontrarei uma alma tão querida Às coisas que em meu ser são as reais. [...] Não mais, não mais, e desde que saíste Desta prisão fechada que é o mundo, Meu coração é inerte e infecundo E o que sou é um sonho que está triste. Porque há em nós, por mais que consigamos Ser nós mesmos a sós sem nostalgia, Um desejo de termos companhia — O amigo como esse que a falar amamos.

A pálida luz da manhã de Inverno, A pálida luz da manhã de Inverno, O cais e a razão
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A pálida luz da manhã de Inverno, A pálida luz da manhã de Inverno, O cais e a razão Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer, Ao meu coração. O que tem que ser Será, quer eu queira que seja ou que não. No rumor do cais, no bulício do rio Na rua a acordar Não há mais sossego, nem um vazio sequer, Para o meu esperar. O que tem que não ser Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, ás vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vomito para aliviar a vontade de vomitar. Um dos meus passeios predilectos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai segu…
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Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, ás vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vomito para aliviar a vontade de vomitar. Um dos meus passeios predilectos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta. E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... «E então ela disse...» e o tom diz da intriga dela. «Se não foi ele, foste tu...» e a voz que responde ergue-se no protesto que já não oiço. «Disseste, sim senhor, disseste...» e a voz da costureira afirma estridentemente «minha mãe diz que não quer...» «Eu?» e o pasmo do rapaz que traz o lanche embrulhado em papel-manteiga não me convence, nem deve convencer a loura suja. «Se calhar era...» e o riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade que (...) «E então pus-me mesmo dia nte do gajo, e ali mesmo na cara dele — na cara dele, hem, ó Zé...» e o pobre diabo mente, pois o chefe do escritório — sei pela voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço — não lhe recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas [?] «... E então eu fui fumar para a retrete...» ri o pequeno de fundilhos escuros. Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer — não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo o cortasse — o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direcção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o vómito, é preciso provocar um. «O gajo estava tão grosso que nem via a escada.» Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar que me dá na fronte — o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a escada — talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão. A intriga a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desenhos, dos restos trincados das sensações.

Na noite terrível, substância natural de todas as noites Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites Relembro, velando em modorra incômoda
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Na noite terrível, substância natural de todas as noites Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites Relembro, velando em modorra incômoda Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver! Relembro, e uma angústia. Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão. Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte. Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures. Na ilusão do espaço e do tempo, Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei. O que só agora vejo que deveria ter feito Na falsidade do decorrer. O que só agora claramente vejo que deveria ter sido Isso é que é morto para além de todos os Deuses Se em certo momento. Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; Isso e foi afinal o melhor de mim é que nem os Deuses fazem viver ... Se em certa altura Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; Se em certa conversa. Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro. Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido. Se tudo isso tivesse sido assim. Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro. Seria insensivelmente levado a ser outro também... Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo A conversa fechada concludentemente Claras, inevitáveis, naturais... A matéria toda resolvida... O que falhei deveras não tem esperança nenhuma Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói. Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? Em sistema metafísico nenhum. Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei, Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos. Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Como uma verdade de que não partilho, Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca. E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim. Fernando Pessoa