O verdadeiro cadáver não é o corpo (...), mas aquilo que deixou de viver.
Frases de Fernando Pessoa
953 frases
Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.
A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento.....
A qualquer modo todo escuridão Eu sou supremo. Sou o Cristo negro. O que não crê, nem ama — o que só sabe
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A qualquer modo todo escuridão Eu sou supremo. Sou o Cristo negro. O que não crê, nem ama — o que só sabe O mistério tornado carne. Há um orgulho atro que me diz Que Sou Deus inconscienciando-me Para humano; sou mais real que o mundo, Por isso odeio-lhe a existência enorme, O seu amontoar de coisas vistas. Como um santo devoto Odeio o mundo, porque o que eu sou E que não sei sentir que sou, conhece-o Por não real e não ali. Por isso odeio-o — Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
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Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.
Que sei eu do que serei eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Sim, sei bem Que nunca serei alguém. Sei de sobra
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Sim, sei bem Que nunca serei alguém. Sei de sobra Que nunca terei uma obra. Sei, enfim, Que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, Enquanto dura esta hora, Este luar, estes ramos, Esta paz em que estamos, Deixem-me crer O que nunca poderei ser.
Não tenho ambições nem desejos. ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.
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Não tenho ambições nem desejos. ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho. Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz E corre um silêncio pela erva fora. Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar... Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas.
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
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Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Se às vezes eu disser que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam Não é porque eu julgue que há sorriso nas flores
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Se às vezes eu disser que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam Não é porque eu julgue que há sorriso nas flores E cantos no correr dos rios. É porque assim faço, mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. Porque eu escrevo para eles me lerem, sacrifica-me às vezes, À sua estupidez de sentidos. Não concordo comigo mas absolvo-me, Por que eu sou só essa coisa séria uma intérprete da natureza, Porque os homens não percebem a sua linguagem, Por ela não ser linguagem nenhuma.
Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada.
Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflete o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
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Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)... Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
o único mistério é haver quem pense no mistério
Qualquer música, guitarra. Viola, harmônio, realejo. Um canto que se desgarra.
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Qualquer música, guitarra. Viola, harmônio, realejo. Um canto que se desgarra. Um sonho em que nada vejo.
Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto
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Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sou ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela E oculta mão colora alguém em mim. Pus a alma no nexo de perdê-la
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Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela E oculta mão colora alguém em mim. Pus a alma no nexo de perdê-la E o meu princípio floresceu em Fim.
Somos do tamanho de nossos sonhos
Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender...
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Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Uma névoa de Outono o ar raro vela, (5-11-1932) Uma névoa de Outono o ar raro vela, Cores de meia-cor pairam no céu.
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Uma névoa de Outono o ar raro vela, (5-11-1932) Uma névoa de Outono o ar raro vela, Cores de meia-cor pairam no céu. O que indistintamente se revela, Árvores, casas, montes, nada é meu. Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono. Sim, sinto-o eu pelo coração, o como. Mas entre mim e ver há um grande sono. De sentir é só a janela a que eu assomo. Amanhã, se estiver um dia igual, Mas se for outro, porque é amanhã, Terei outra verdade, universal, E será como esta [...]
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.
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Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu. Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem pressa de chegar, sabe-se lá aonde. As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces. O sorriso! Esse, você deve segurar, não o deixe ir embora, agarre-o! Persiga um sonho, mas, não o deixe viver sozinho. Alimente a sua alma com amor, cure as suas feridas com carinho. Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas, não enlouqueça por elas. Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca. Alargue seu coração de esperanças, mas, não deixe que ele se afogue nelas. Se achar que precisa voltar, volte! Se perceber que precisa seguir, siga! Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-as. Se perder um amor, não se perca! Se o achar, segure-o! Circunda-se de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.
Pouco importa de onde a brisa Traz o olor que nela vem. O coração não precisa
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Pouco importa de onde a brisa Traz o olor que nela vem. O coração não precisa De saber o que é o bem. A mim me basta nesta hora A melodia que embala. Que importa se, sedutora, As forças da alma cala? Quem sou, p'ra que o mundo perca Com o que penso a sonhar? Se a melodia me cerca Vivo só o me cercar...