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Frases de Demétrio Sena - Magé-RJ.

1.828 frases

CHEIO DE GRAÇA Demétrio Sena, Magé - RJ. Desliguei o motor; me deixo ir;
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CHEIO DE GRAÇA Demétrio Sena, Magé - RJ. Desliguei o motor; me deixo ir; deixo a mão no volante pros desvios; desafios normais pra quem já viu que o destino está quase desenhado... Relaxando sentidos e desvelos, dou aos sonhos um doce deixa estar; não há mais pesadelos que me assustem, porque sei acordar do que já sei... Vejo agora que o tempo é só passagem; quem passou da metade do caminho tem a média que a vida prescreveu... Muito eu se gastou nesse orçamento do que o mundo não tem pra cambiar, quando vejo que a graça me bastou...

CULTURA NÃO ATRAPALHA EDUCAÇÃO Demétrio Sena, Magé – RJ. Realizar um evento cultural sem a tutela dos projetos oficiais, os esquemas e planejamentos especificamente pedagógicos, numa unidade escolar, é uma verdadeira batalha, quando quem o faz não tem não tem lá seus prestígios…
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CULTURA NÃO ATRAPALHA EDUCAÇÃO Demétrio Sena, Magé – RJ. Realizar um evento cultural sem a tutela dos projetos oficiais, os esquemas e planejamentos especificamente pedagógicos, numa unidade escolar, é uma verdadeira batalha, quando quem o faz não tem não tem lá seus prestígios. Arte e literatura em forma de exposição e espetáculo sempre foram muito temidas na educação, desde tempos imemoriais. Ainda hoje são vistas como reuniões de subversivos; de pessoas que podem "pôr caraminholas" na cabeça do jovem ou "coisa de gente que vive nas nuvens" e, por isso, nada tem a acrescentar de bom para moças e moços em formação. Só desvirtuá-los. Naquelas escolas onde já se permite – apenas permite – realizar o evento cultural, sem a mínima oferta de suporte, apoio, e sem nenhuma representação por meio de pessoas da direção, do corpo docente, do quadro funcional como um todo, eventos artísticos e literários são coisas de "cantinhos". Os alunos locais devem se manter distantes, porque do contrário, "perdem conteúdo". Sempre perdem conteúdo, não importa que sejam eventos bem pontuais ou esporádicos, eivados de muito conteúdo transversal que alguns professores possam aplicar em suas aulas ou até usar esses momentos como aulas diferentes e desafiadoras para os seus educandos. Cultura atrapalha a educação. Essa é a ideia pedagógica – e patológica – que se tem do que foge aos itens específicos e obrigatórios do ofício de ensinar, quando só é um ofício. Ensinar sem educar, ao contrário do que é propagado. Arte e literatura na escola, e ainda estendida aos alunos, só se tiverem natureza especificamente disciplinar. Se estiverem ligadas a datas comemorativas formalmente atadas ao PPP. Ou se, em último caso, forem determinadas isoladamente pelas secretarias de educação, as coordenadorias, os políticos locais ou quaisquer outras figuras poderosas. Assim não é subversão; não é empecilho nem vagabundagem, entre outras desqualificações encontradas direta ou indiretamente. Também respeitados, e bem queridos pela escola, que até paga muito caro por eles, caso precise, são os famosos. Aí sim; os eventos nem têm que ser culturais. Basta serem divertidos, dançantes ou, inversamente, bem solenes. Neste caso, realizados por figurões repletos de títulos e com diplomas internacionais. Figurões enviados por órgãos superiores, e que tratam a todos com refinada arrogância, porque disso todos gostam, respeitam e recebem com tapetes vermelhos. Não e não. Cultura não atrapalha a educação. Agrega. Especialmente quando se trata de cultura local. Quem faz cultura e a dissemina em sua cidade não deve ser tratado como uma figurinha que estende um chapéu e recebe um favor; um cantinho; uma aquiescência distante seguida da simpatia zombeteira de um, a grosseria disfarçada de outro e a mensagem silenciosa de "lamba os dedos; ai está o espaço e nos deixe em paz, porque temos mais o que fazer; estamos trabalhando". Faz tempo que não condeno a distância ou a falta de interesse e atenção; a futilidade cultural e até a agressividade de grande parte dos alunos em ensinos fundamental e médio para quem oferece cultura, quando comparo esses comportamentos com os de quem os escolariza e, especialmente, os de quem dirige quem os escolariza. Os alunos realmente não têm culpa. Estão sendo escolarizados assim, exatamente como querem os políticos que mandam na educação, os cordeiros que obedecem porque "têm juízo" e não querem perder seus status, e dos que obedecem aos que obedecem, nem se fala. A intenção clara ou obscura, consciente ou inconsciente dos educadores – e administradores – contra cultura é apenas uma: formar cidadãos que mais tarde "não perturbem" a paz dos governantes. Dos parlamentares que precisam se corromper e ludibriar o povo sem serem perturbados com ações de quem teve a mente aberta pela arte, a literatura e a cidadania desatreladas da obrigatoriedade fria, específica, impessoal e pedagógica reinante na escola. Sou arte-educador. Um professor que trabalha com arte; literatura; cidadania. Designado pela Secretaria Estadual de Educação lá no governo Brizola, para disseminar cultura na escola em que sou lotado e tentar fazê-lo em outras unidades da rede pública. Isso não é nada fácil, porque nós, os arte-educadores, já não somos importantes na educação estadual; não utilizamos patente; não somos autorizados – nem queremos – a estender crachás nas demais unidades e dizer que lá estamos em nome dos mandatários da educação formal, que também nem se lembram de quem somos. Por isto peço, e com muita humildade. Quando consigo, dou-me por satisfeito com as expressões simpaticamente contrariadas e sem graça, os espaços cedidos a contragosto, a ausência de representantes locais e a interrupção abrupta de algum funcionário que surge “brabo”, para dar bronca nos alunos formidavelmente ousados que foram participar ou assistir por conta própria, e por isso estão “perdendo conteúdo”. A contracultura dos “donos” e diretores da educação, incutida gradativamente nos educadores (nem todos, pois muitos resistem), está vencendo os fazedores culturais não influentes; não poderosos; não famosos; não oficiais; não impostos. Tudo isso me faz reservar para daqui um tempo, a frase final de um célebre desabafo do saudoso educador, antropólogo, escritor e (até) político Darcy Ribeiro: “Eu detestaria estar na pele de quem me venceu”.

MEU QUINTAL Demétrio Sena, Magé - RJ. Uma rede me aguarda no quintal;
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MEU QUINTAL Demétrio Sena, Magé - RJ. Uma rede me aguarda no quintal; numa sombra que a mão até apalpa; rede não social, por ser só minha, só aceita o calor de minha pele... Os calangos procuram meus sinais, a mangueira não sabe o que dizer, nem a cobra cipó entre a folhagem faz menção de saber aonde ando... Vim ao bairro buscar o que não planto no meu canto, na terra de arvoredo; volto logo a compor essa paisagem... Minha fauna se une à minha flora nesta hora de ausência inesperada; meu quintal me requer, pois mora em mim...

GENTE ILESA Demétrio Sena, Magé - RJ. Quero gente com tempo pra perder
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GENTE ILESA Demétrio Sena, Magé - RJ. Quero gente com tempo pra perder entre o tempo corrido, assoberbado, numa leve conversa; só de gente; sem os ranços do quadro funcional... Tenho grande ambição de gente livre pra sair dos projetos, dos ofícios, dos comícios, das elucubrações, e lembrar que pessoas são pessoas... Busco gente ocupada com a lida, mas que tenha uma vida pra sorver, para ver que amizades não têm preço... Já me canso do mundo impessoal; do real que desmente o ser humano; quero gente com tempo de ser gente...

AMOR ENGANOSO Demétrio Sena, Magé - RJ. Houve quem me fizesse descrer nesse amor
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AMOR ENGANOSO Demétrio Sena, Magé - RJ. Houve quem me fizesse descrer nesse amor que se jura e confessa com fogo nos olhos, vem na flor dos sentidos e grita no corpo feito alma de fora; coração exposto... Alguém veio e desfez o paraíso em mim, trouxe o fruto enganoso e me fez devorar, pra no fim da ilusão me diluir no caos desta paz fria e triste que secou meu chão... Tive quem atestasse que tudo é mentira, mesmo quando é verdade que o lábio supõe aos ouvidos carentes da certeza incerta... Foste o sonho que veio pra me despertar e saber que o amor só foi pena cumprida; minha vida está livre desse desengano...

A MULHER Demétrio Sena, Magé - RJ. Todo mundo procura o que há muito encontrei;
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A MULHER Demétrio Sena, Magé - RJ. Todo mundo procura o que há muito encontrei; a mulher cujos olhos vão além das vistas; que não sei definir, apesar de poeta, pois excede o poder das palavras buscadas... Encontrei a mulher que me acolhe aos pedaços, recompõe o mosaico e depois me relê, reanima os meus passos pra recaminhar e me faz merecer o que há tempos me deu... É alguém que me aceita, mas rejeita em mim o que só me apequena e se põe contra nós, cria em nós tantos nós e nos ata pra vida... A mulher que algum dia perdi pra mim mesmo, mas me achou novamente quando fui ao fundo e fiquei tão sem mundo, num mundo sem ela...

SACRIFÍCIO SOCIAL Demétrio Sena, Magé - RJ. Somos mais importantes uns pros outros
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SACRIFÍCIO SOCIAL Demétrio Sena, Magé - RJ. Somos mais importantes uns pros outros do que os mitos de nosso idealismo, nossos ritos de cego endeusamento e as nossas entregas sem recibo... As estrelas do céu equivocado, que nos cobre de lendas e legendas, nunca deram sinal de que percebem os despachos de amor que lhes fazemos... Temos mais a fazer uns pelos outros do que amar esses ídolos distantes, a tal ponto de sermos inimigos... Ninguém vale meu ódio pelos meus nem é deus dos meus sonhos de futuro, fanatismo é bandeira que não levo...

MINHA VEZ Demétrio Sena, Magé - RJ. Tua vez de sentir a minha falta;
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MINHA VEZ Demétrio Sena, Magé - RJ. Tua vez de sentir a minha falta; minha voz de calar a tua vez; meu amor já não salta no meu pulso nem me sinto roer de solidão... Desta vez doerá bem mais em ti; esta voz que viveu de te chamar morre aqui, se desfaz em meu cansaço e no mar da esperança dissolvida... Não é caso de amor que desexiste, mas que tanto esperou que adormeceu, de tão triste deixou de se sentir... Minha voz de Saara pros teus gritos; tua vez de chamar quem ficou mudo para mitos de amores que se bastam...

NÃO SOU GADO Demétrio Sena, Magé - RJ. Pouco importa se o pasto é farto e verde;
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NÃO SOU GADO Demétrio Sena, Magé - RJ. Pouco importa se o pasto é farto e verde; até vasto, a perder de minha vista; não insista em dizer que serei livre, se houver um limite pra quem sou... Nem acene pra tantas incursões em prazeres propostos, permitidos, emoções de festim, estratagemas pra pescar o meu sonho de além campos... Não sou gado, me poupe do redil mesmo aberto e com tintas de horizonte; paraíso sem ponte pra mim mesmo... Quero a vida servida por acasos aos meus prazos, espaços e critérios; minha forma sem fôrma de viver... ...

PRECONCEITOPATIA Demétrio Sena, Magé - RJ. Você pode, sim, ser preconceituoso. Não há lei contra sentimentos, porque sentimento é doença de foro íntimo. O que você não pode é fazer seu sentimento romper as grades do foro íntimo e punir justamente o alvo. Se alguém tiver que sof…
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PRECONCEITOPATIA Demétrio Sena, Magé - RJ. Você pode, sim, ser preconceituoso. Não há lei contra sentimentos, porque sentimento é doença de foro íntimo. O que você não pode é fazer seu sentimento romper as grades do foro íntimo e punir justamente o alvo. Se alguém tiver que sofrer ou ser punido pelo seu preconceito, seja na forma da lei ou na fôrma do silêncio, para não enfrentar a lei, esse alguém é você.

MEDO PATERNO DO MUNDO Demétrio Sena, Magé – RJ. Sempre me guardo em cuidados extremos e profundas incertezas nas questões relacionadas a filho. Tenho todas as seguranças do que digo, penso e faço em outras áreas, mas me desarmo nesse ponto. Deixo de ser vidente ou mago, e não e…
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MEDO PATERNO DO MUNDO Demétrio Sena, Magé – RJ. Sempre me guardo em cuidados extremos e profundas incertezas nas questões relacionadas a filho. Tenho todas as seguranças do que digo, penso e faço em outras áreas, mas me desarmo nesse ponto. Deixo de ser vidente ou mago, e não encontro aquele velho estribilho de se cantar aos quatro ventos, que tudo que será o que for; que tiver mesmo que ser. Nessas questões de filho, me dá um medo instintivo do mundo. Meu amor me faz inquieto; não se acomoda no coração que há muito não bate por mim. Meus conceitos paternos antiquados ferem a última moda. Não seguem esses padrões que ditam os afetos desapegados, ressequidos e práticos inerentes aos tempos que atravessamos. Perdido no tempo, acredito na infância guardada pelos medos honestos de quem tem filhos. Na criança mantida em sua justa idade. No amadurecimento agregador de valores que ninguém aprende sem critérios essencialmente humanos. Aposto mais na qualidade afetiva e presencial do que nas técnicas frias e remotas da educação prática e desapegada. Tenho a mente fechada para questões de filhos. Os filhos meus e os do mundo. Não consigo ver sem espanto a criação dispersa e a terceirização. A proteção vazada e a confiança extrema no caráter e na intenção do outro em relação às nossas crias. Meu coração aberto não consegue vencer minha mente fechada nessas questões relacionadas a filhos.

VALE VIDA Demétrio Sena, Magé – RJ. Uma vida só vale seu tempo cumprido
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VALE VIDA Demétrio Sena, Magé – RJ. Uma vida só vale seu tempo cumprido entre sonhos, ações, utopias, verdades, o cupido, as paixões, desafios aceitos e as quedas seguidas de novos perigos... Não há mundo que valha um só giro no espaço se não for pra causar as vertigens de praxe, pra borrar nossa guache, nossas aquarelas, nos fazer insistir e pintar outros quadros... Todo tempo se cumpre com horas feridas, porque vidas precisam afrontar a morte ou serão evasivas; vazias de causa... Vale a pena viver sem certeza e promessa, sem a peça que sempre nos falta encaixar e assim desfazemos pra fazer de novo...

INTENÇÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Esta mão que procura se ater aos papéis
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INTENÇÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Esta mão que procura se ater aos papéis e às pobres canetas que percorrem milhas, às fiéis dobraduras pelas quais me faço moderar os impulsos que chegam aos poros... Mão heroica e silente que ajeita os cabelos, faz um breve carinho no livro já lido, pra mentir pros apelos e driblar a voz da saudade que tenho de quem nunca tive... Mas não tenho poderes pra lutar sem fim contra mim ou meu sonho do que não tem vez, pois então que assim seja como sempre foi... Minha mão tem ciúme dos meus pensamentos, mas acaba vencida e se deixa levar nos momentos mais rijos desta solidão...

PREGUIÇA IDEOLÓGICA Demétrio Sena, Magé - RJ. Será fácil gostar da criança nutrida;
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PREGUIÇA IDEOLÓGICA Demétrio Sena, Magé - RJ. Será fácil gostar da criança nutrida; da menina sabida, o garoto asseado; quem aprenda sem voz, na verdade sem vez, não precise de alguém que desate seus nós... É bem cômodo ater-se ao aluno padrão, educar quem no fundo já chega educado, dar amor ao amado, socorrer o salvo, ser a mãe, ser o pai dos que os têm a contento... Não se tem desafio no quase perfeito; em achar meio feito pra meio fazer; qualquer um tem prazer, no prazer, propriamente... Todos querem ser mestres da turma dotada, todos querem ser médicos de gente sā, todos querem trabalho que não dê trabalho...

BASTA Demétrio Sena, Magé - RJ. Aprendi a conter os meus rompantes
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BASTA Demétrio Sena, Magé - RJ. Aprendi a conter os meus rompantes de carinhos, cuidados,atenções, meus instantes de quando sou notório aos teus olhos de pouco acolhimento... Resolvi me afastar das tuas fugas; teus temores de minha confiança; dessas rugas na testa inquisidora das verdades do afeto que devoto... Já me calo no tom do teu silêncio, me resfrio no freezer dos teus traços e nos braços cruzados do teu ser... Tua guarda montada em cada gesto, cada linha indigesta sobre o rosto têm um gosto que chega de sentir...

SONETO FORÇADO Demétrio Sena, Magé – RJ. Hoje sinto a poesia engarrafada
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SONETO FORÇADO Demétrio Sena, Magé – RJ. Hoje sinto a poesia engarrafada entre as vias ou veias em conflito; quanto mais a procuro, chamo e grito mais a perco no abismo do meu nada... Choro a seco, meu brado soa mudo; sai dos olhos e some pela estrada; gasto verbos na folha rabiscada, mas não digo a que vim depois de tudo... De repente a poesia vem à marra feito bicho acuado que se solta; filho dócil que um dia se desgarra... Foi um feto inspirado, porém torto, que rompeu as amarras da revolta e nasceu apesar de quase morto...

SOBRE O NÃO SOBREMORRER Demétrio Sena, Magé – RJ. Descobri que não tenho temor da morte. Meu medo é de não viver, apesar de vivo... ou de não morrer simplesmente por já estar morto.
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SOBRE O NÃO SOBREMORRER Demétrio Sena, Magé – RJ. Descobri que não tenho temor da morte. Meu medo é de não viver, apesar de vivo... ou de não morrer simplesmente por já estar morto. Que o destino me livre de ser não sendo. Ir não indo. Estacionar no cais do nada; no porto inseguro do comodismo existencial. Da satisfação de crer que basta esperar o que já chegou e passou pelo meu fim. Chegar ao fim do fim e não conseguir fechar a conta. Morrerei, certamente. Mas quero morrer vivendo; não morrer já estando (in)devida e veladamente morto.

BOBO ESTRATÉGICO Demétrio Sena, Magé - RJ. Terei sempre um silêncio expressivo e sonoro
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BOBO ESTRATÉGICO Demétrio Sena, Magé - RJ. Terei sempre um silêncio expressivo e sonoro para quando atirares palavras em vão, calarei tudo em coro com minhas verdades ante a tua ilusão de me faltar a voz... Quero ser o teu bobo estratégico e pronto a deixar que te fartes das próprias piadas, de bravatas ao vento e dos falsos prodígios em tiradas às quais não darei atenção... Perderás o teu tempo entre sons e trejeitos, ironias inférteis ou feitos banais, ilusões perecíveis de ferir meu brio... Tecerei teu castelo firmado em teu ego, encherei dos teus eus até furar a bolha em um prego escondido na vida real...

PERDÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Raivoso e no auge de uma discussão, chamei o indivíduo de cão sarnento. Gritei, mesmo, em alto e inequívoco som: “Seu cão sarnento! Seu cão sarnento!”. Ele se assustou com a minha ira e se foi. Achou melhor não continuar ali, destilando aquela i…
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PERDÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Raivoso e no auge de uma discussão, chamei o indivíduo de cão sarnento. Gritei, mesmo, em alto e inequívoco som: “Seu cão sarnento! Seu cão sarnento!”. Ele se assustou com a minha ira e se foi. Achou melhor não continuar ali, destilando aquela ironia que me deixara transfigurado. Adivinhou meu próximo passo, que seria fazer com ele o que meninos malvados fazem com os cães sarnentos que proliferam nos subúrbios. Mas devo confessar que, passado aquele momento refleti. Comecei a sentir um remorso imenso do que fizera. Da ofensa impensada e descabida que tanta gente nem acreditou ouvir da boca de uma pessoa que sempre tenta ser tão serena, reflexiva, social e até ecologicamente correta. Cheguei à conclusão de que fora intempestivo, cruel, truculento e desumano em meu xingamento, especialmente pela comparação que fiz. Não demorei a vencer o brio e fazer o que era certo. Fui pedir perdão. Não tinha ideia de como seria recebido, mas fui lá. Vesti a coragem de ser humilde, assumi o risco de ser humilhado, abri meu coração e parti para o desafio às cegas. Um desafio que terminaria espantosamente bem, porque fui recebido como se nada houvera. Como se eu nunca tivesse gritado aquelas ofensas que ainda ecoavam em minha mente. Meu alívio foi total. Tirei das costas um peso que não podia levar por longo tempo. Minha consciência me condenava duramente. Eu mesmo já me punia. Não conseguia me perdoar pelo comportamento insano. Fui surpreendido com uma lição de humildade, ao ser acolhido com afeto. Não precisei me humilhar para ser perdoado. A comunidade canina, muito melhor do que o ser humano, já me perdoara no ato da ofensa.

SOLIDÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Sempre achei que o silêncio dos anos a fio
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SOLIDÃO Demétrio Sena, Magé - RJ. Sempre achei que o silêncio dos anos a fio calaria este grito que já calo em mim; este frio na espinha, esta chama na pele que não sei abafar quando encontro teus olhos... Presumi que teria os favores do tempo, dos empenhos do mundo ao abrir horizontes, ao expor tantas pontes pra todas as margens de verdades mais fortes do que meu segredo... Tantos anos e o sonho de ao menos um dia reservar um instante para ser só nosso e fazer a magia tomar corpo em nós... O que sonho é bem pouco, somente o rascunho do cenário e da cena que desenho a esmo com o punho cansado desta solidão...

MINHA HORA Demétrio Sena, Magé – RJ. Quero murchar
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MINHA HORA Demétrio Sena, Magé – RJ. Quero murchar feito planta, com os meus tumores, humores e amores, meus nós na garganta... Fluir em silêncio e desaguar como um rio, levando meus medos, coragens, segredos, meu por um fio... Não serei retalhado nem remendado, cheio de nó, pois quero secar naturalmente até virar pó... Sorrirei de completo, de ter vivido a minha hora, feliz de saber que fui por dentro e serei por fora...

PRESENÇA REMOTA Demétrio Sena, Magé – RJ. Sempre foste a caverna que retém meus gritos
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PRESENÇA REMOTA Demétrio Sena, Magé – RJ. Sempre foste a caverna que retém meus gritos e jamais me devolve o mais ínfimo eco, minha pura verdade secreta e medrosa por qual peco a viver uma grande mentira.... Eu te quero com todas as não pretensões; quero apenas, não quero num tom terminal, só desejo atenções e momentos de trocas abstratas, remotas – de perto à distância... É no aço do espelho que busco teu rosto, é no gosto que arranco desta solidão, que te arrasto comigo e no fim jamais vens... És ausência presente no campo dos olhos, minha mão sempre soube que não te acharia, mas meu dia só conta se minto pra mim...